Bali à venda

Cada vez mais explorada pelo turismo, a famosa Ilha dos Deuses da Indonésia dá sinais de fadiga.

Carolina da Riva

Cada vez mais explorada pelo turismo, a famosa Ilha dos Deuses da Indonésia dá sinais de fadiga. A relação dos balineses com sua natureza privilegiada e as divindades hindus está ameaçada desde as raízes.

Enquanto a água continuar a fluir nos campos de arroz, Pak Kadek Aryanti manterá a agricultura nas terras da família em Kuta, a poucos quilômetros de Depansar, a capital de Bali. Para os turistas, os 3 mil metros quadrados de arrozais verde-esmeralda, na borda da cidade, são um ponto de beleza serena – uma das visões que atraem milhões de pessoas à celebrada “Ilha dos Deuses”. Para Pak Kadek trata-se, antes de tudo, de sua herança: “Toda esta terra pertencia ao meu pai. Meu avô também era um agricultor, assim como os meus antepassados.” Bem, nem todos, agora.

Perto dali, o tio de Kadek, Putu Dirnatha, foi forçado a abandonar a área da família. “Nos últimos cinco anos, estamos sendo encaixotados em prédios, casas e hotéis. Eles diminuíram o acesso dos arrozais à água,” diz Kadek. “Não há como cuidar do arroz sem irrigação, não podemos fazer nada”, diz. A história da família exprime o dilema que o turismo trouxe para a província, uma das 17.508 ilhas da Indonésia, com área de 5,6 mil quilômetros quadrados (menor que o Distrito Federal do Brasil) e 3,2 milhões de habitantes. A ilha abriga quase a totalidade da pequena população de origem hindu da Indonésia e recebe cerca de 3 milhões de turistas por ano.

Os edifícios construídos para permitir que os viajantes apreciem as praias e o mar turquesa, estão estragando a ilha. Toneladas de lixo despejadas todos os dias sujam as praias, o tráfego crescente inferniza as estradas e a enorme demanda por água pode superar todos esses problemas dentro de cinco ou dez anos. “Acho que estão matando Bali com tanto amor”, diz Ketut Suwastika, diretor da Agência Cultural de Bali, da Unesco.

O milenar sistema de irrigação comunitária da ilha, em que a água flui do canal pelo campo e depois retorna metros abaixo, irrigando desde as terras mais altas até as mais baixas, é chamado de subak. Pak Kadek garante que “enquanto o subak ainda funcionar”, não venderá as terras. Mas a rede do subak não trata só de irrigação. Ela exprime toda uma cultura de práticas, processos, tradições e acordos, igualitários, entre vilas e fazendas, que giram em torno de Tri Hita Karana, uma expressão essencial da filosofia religiosa hindu balinesa. Segundo o Tri Hita Karana existem três fontes de felicidade: a relação das pessoas com Deus, a relação com os outros e com a natureza. Interromper o fluxo de água significa interromper o culto da água em Bali, bem como as celebrações hinduístas aos deuses dos arrozais, que impregnam o fascínio da ilha.

Trilha sonora
As centenas de hotéis de luxo da ilha fingem se preocupar com o assunto. Todos os halls de recepção e elevadores de hotel adotam trilhas sonoras com o barulho de águas suaves caindo de fonte em fonte, em lagos ou nas piscinas. Apesar do clima new age e do fértil regime de monções e das chuvas tropicais da ilha, a água limpa se tornou algo escasso em Bali. Segundo a Unesco, os turistas gastam em média 1,5 mil litros de água por dia, contra 150 litros dos moradores. 

“A maior parte desta água não é encanada pela companhia local. As famílias dependem de poços artesianos de 10 a 12 metros de profundidade. Nos grandes hotéis, porém, a água é bombeada de poços com 60 metros de fundura. O volume de água extraída é tão grande que vários estão sendo minados pela água salgada, degradando sua qualidade. Isso tem que ser detido rapidamente”, afirma Suwastika.

Suwastika sabe o que fala. Junto com o professor J. Stephen Lansing, da Universidade do Arizona, e a pesquisadora Wiwik Dharmiasih, da Universidade Udayana, em Bali, foi responsável por conseguir transformar a rede do subak e seus terraços de arroz em Patrimônio da Humanidade, em junho de 2012, durante o Congresso da Unesco de São Petersburgo, na Rússia.

Stephen Lasing diz que 260 de 400 rios secaram, assim como a maior reserva natural de água de Bali, o Lago Bratan, em Bedugul. O lago está em apuros devido ao nível de sedimentos e de produtos químicos agrícolas encontrados na água das plantações em volta dele. 

Outro problema: a água que fluiu das nascentes das montanhas para alimentar o sistema do subak está sendo vendida a empresas de água potável para purificação e venda em garrafas de plástico. Cerca de 3 milhões de garrafas plásticas são consumidas em Bali diariamente.

Mercado turbinado
“Quanto mais hotéis, vilas, campos de golfe e lojas surgem, menos disponibilidade de água. É uma equação lógica,” argumenta o professor Lasing. “O uso da água está muito além da capacidade de reposição da ilha. Estamos vivendo uma crise ambiental causada pela competição por recursos naturais muito limitados.” 

Para Pak Kadek, que enfia os pés na lama do arrozal faça chuva ou sol, o déficit do subak significa o fim de seus recursos financeiros. Com menos água, tudo fica mais difícil e a venda da terra acaba sendo o passo seguinte, como ocorreu com a maior parte de seus vizinhos. “Ainda temos reuniões na comunidade, empréstimos do governo para comprar sementes, fertilizantes e pesticidas. Mas está ficando difícil”, diz Kadek.

Não é fácil resistir à especulação deflagrada pelo turismo. Do que extrai da propriedade de 3 mil metros quadrados, Kadek ganha R$ 10 mil por ano. “Não é muito, mas alimenta a família”, diz. Por outro lado, os investidores em imóveis pagam R$ 500 mil por 100 metros quadrados de terreno. Não surpreende que os moradores rifem suas plantações. Entre os compradores estão especuladores chineses, de Jacarta, a capital da Indonésia, e até da máfia  russa, o que levanta suspeitas sobre lavagem de dinheiro. Há também poluidores em menor escala: turistas de todas as partes do mundo que se apaixonam por Bali e resolvem ficar. Segundo o jornal Bali Daily, esse número já gira em torno de 400 mil.

O australiano Knight Frank, analista de propriedades, conta que em 2012 o preço da terra aumentou 20%, em Bali. Mas a alta dos preços não arrefeceu o mercado de casas e hotéis de luxo. Segundo Frank, os terraços de arroz estão sendo velozmente convertidos em edifícios a uma taxa de 1 mil hectares por ano. “Temos um plano para tentar conservar os campos de arroz e gerenciar Bali como uma ilha orgânica”, revela Suwastika, da Unesco. “Mas ele não é aplicado. O sistema não é forte o suficiente para resistir à corrupção do comércio. Temos um monte de regulamentos, mas pouca fiscalização”, explica. 

Um exemplo é a moratória imposta em 2011 sobre os novos empreendimentos hoteleiros pelo governador da ilha, Made Pastika. Meses após assinar o decreto, Pastika abriu uma exceção e liberou a construção de um hotel de 700 quartos, que dizimou uma vila de pescadores na praia de Nusa Dua, que hoje ostenta prédios mais altos do que os coqueiros – quebrando uma lei que parecia escrita em pedra e foi respeitada por décadas. 

Pastika defende-se nos jornais. Diz que só autorizou uma licença antiga e, portanto, não violou a moratória. Mas, em junho de 2013, voltou à carga, liberando a área do manguezal de Tahura, em Benoa. Entre os novos empreendimentos deverão estar um circuito de Fórmula 1, uma Disneylândia, mais hotéis e um parque aquático.

Impróprio para banho
Se a água de Bali já está contaminada, imagine-se o mundo dos resíduos sólidos. Quem sai para pescar, mergulhar, surfar ou mesmo banharse ao sol nas praias, fi ca chocado com a quantidade de lixo carregada pelos rios. “Está tão sujo, que não podemos usar o mar”, lamenta Gusti Lanang Oka, antigo pescador da costa leste, em Kusamba. “Se nadamos, temos coceira. O mar está contaminado e os peixes sumiram.”

A próxima vítima nesse parque de diversões turístico são os 1,3 mil hectares do manguezal de Tahura, em Benoa, região premiada, em 2009, como um dos maiores mangues da Ásia. De lá para cá, assim como a maioria das coisas que se encontram em uma via navegável da ilha, o mangue está sufocado com pilhas de plástico, isopor e animais mortos despejados ilegalmente ou varrido para baixo do rio com as enxurradas. 

De acordo com a Agência Ambiental de Bali os 3,2 milhões de moradores e os 3 milhões de visitantes anuais produzem, em média, 10 mil metros cúbicos de lixo diariamente. Desse total, três quartos não são recolhidos por serviço público. Toneladas ficam enrascadas no manguezal. Wayan Sumadi é pago pelo governo para recolher e descartar esses resíduos. Mas ele e seu ajudante, Gede Marada, são apenas dois homens, impotentes contra a maré montante. “Limpamos o máximo possível, mas ninguém vem coletar. Então, a gente queima.” Sua tosse permanente deve-se não ao hábito de fumar, insiste, mas “ao cheiro de plástico queimando”. 

Baseado num relatório da Universidade Udayana, o governador Pastika afi rmou ao jornal Jakarta Post que os novos hotéis “ajudarão a proteger e melhorar o manguezal”. O depoimento levou o grupo ambiental Walhi a instaurar um processo. “O manguezal protege a ilha de tsunamis, portanto equilibra a vida”, afirma Wayan Gendo Suardana, o ameaçado líder da Whali.

O turismo parece inabalável às críticas em Bali. Em 2012 cresceu 10%. Em 2013, bateu em 12%, chegando a 3,1 milhões de turistas. A população permanente também está crescendo. Imigrantes de regiões mais pobres da Indonésia acorrem à ilha para participar na corrida do ouro turística. “A indústria do turismo precisa ser controlada”, diz Gendo. “Estamos sugerindo uma moratória. Bali não está à venda! Queremos que as pessoas venham, mas queremos uma indústria melhor”. 

Como regular o fluxo de turistas em um lugar onde a aplicação de qualquer lei é problemática? O próprio governador Pastika, que levanta a bandeira de uma “Bali Verde”, critica o sistema legal da Indonésia, em que as autoridades locais oferecem pouca resistência ao apelo dos dólares. Enquanto o impasse prossegue, o que se vê são lixo atolados em recifes e manguezais, pescadores abandonando vilas, agricultores vendendo terras e a rede do subak contaminada. 

Das três rotas para a felicidade do Tri Hita Karana, pelo menos duas estão sob ameaça. “Vivemos numa ilha pequena e frágil”, aponta Suwastika. “Se não cuidarmos da raiz, a árvore vai cair. Se envenenarmos a água, estaremos envenenado nossa própria alma. Não podemos correr o risco de vender as terras dos nossos ancestrais. As próximas gerações não vão nos perdoar por isso.”
 

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