Muralhas do centro histórico de Carcassone, considerada uma das mais belas cidades medievais em todo o mundo. Estas muralhas abrigaram uma das principais comunidades cátaras durante os séculos 12 e 13.

O catarismo – uma das mais importantes heresias que sacudiram o mundo cristão na Idade Média – encontrou na decadência institucional da Igreja Católica terreno fértil para germinar e crescer. Há 800 anos, no início do século 13, o papa Inocêncio III lamentava a situação do seu pontificado: as igrejas estavam desertas, a crise de vocações reduzia o número de sacerdotes, os fiéis mostravam desconfiança e pouco interesse pelas sagradas escrituras e pelas questões da Santa Madre Igreja. O clero estava entregue ao luxo, à corrupção política, ao tráfico de influências e, em muitos casos, à luxúria e à devassidão.

A coisa vinha de longe, desde quando, havia 3 ou 4 séculos, no seio da Igreja, o poder espiritual começou a se confundir com o temporal e muitos papas e altos prelados passaram a ser escolhidos não mais por sua vocação e virtudes, e sim por pertencerem a famílias da nobreza detentora do poder. Poucas décadas antes, o papa Bento IX (1032-1048) herdara o título por ser sobrinho do papa João XIX. Acusado de estupros e assassinatos, ele foi descrito por São Pedro Damião como “um banquete de imoralidade, um demônio do inferno sob o disfarce de um padre” que organizava orgias patrocinadas pela igreja. Em seu último ato de corrupção como papa, Bento IX decidiu que queria se casar e vendeu seu título para seu padrinho por 680 quilos de ouro.

Inocêncio III, por seu lado, tentou moralizar a Igreja. Em 30 de maio de 1203, ele escreveu ao escandaloso arcebispo de Narbonne, no sul da França, uma carta contundente na qual afirmava sem meias palavras que o seu estilo de vida o tornava maldito aos olhos de Deus. O alto prelado, titular de uma das arquidioceses mais ricas e vastas da França, tinha abandonado quase completamente o ofício de padre para viver na esplêndida abadia de Montearagón, onde habitava com a viúva de seu irmão, com quem tinha tido dois filhos. Tudo isso de forma escancarada, diante de todos, sem se preocupar com o escândalo. Embora, naqueles tempos, os critérios que definiam um escândalo eclesiástico fossem bem outros. De fato, boa parte do alto clero na época vivia assim, à exceção de uns poucos bispos e abades que, obstinadamente, mantinham a fé nos votos proferidos.

As notícias sobre os desmandos da Igreja corriam por toda parte, enquanto, ao mesmo tempo, em vários lugares da Europa, pipocavam movimentos heréticos. Eram quase sempre caracterizados por interpretações esdrúxulas e divergentes dos evangelhos e capitaneados por líderes carismáticos e milagreiros, que se mostravam abertamente contrários à autoridade papal.

Em Montpellier, capital do Languedoc- Roussillon, cada pedra contém história. No alto, fachada da casa de São Roque. Ao lado, uma mikvé, a piscina de banho ritual judaico. Na outra página, a fachada da catedral. O medalhão logo acima indica que Montpellier era etapa do Caminho de Santiago de Compostela.

Foi nesse clima que, no sul da França, na região do Languedoc-Roussillon, então conhecida como Occitânia, se difundiu uma verdadeira Igreja autônoma, organizada em dioceses, que se inspirava nos credos de uma antiga seita cristã do século 2, o gnosticismo (do grego gnosis, que significa conhecimento). Essa versão alternativa do cristianismo, diversa daquela de Pedro e dos evangelhos, tinha sobrevivido no Oriente e, ao redor do século 10, se difundira também na Europa. Esses heréticos se chamavam “cátaros”, do grego katharòs, “puros”.

Os cátaros, tal como os antigos gnósticos, acreditavam que Jesus nunca fora um verdadeiro homem de carne e sangue, mas sim um anjo, uma criatura espiritual vinda à Terra para ensinar aos homens o caminho da salvação. O mundo e a carne dos homens, para eles, seriam a criação de um anjo malvado que quis aprisionar as almas dentro de um pesado fardo material, cheio de vícios e pecados: o corpo. Cristo, mensageiro de Deus, não podia ter um corpo real porque era privado de pecado. Portanto, segundo os cátaros, nunca sofrera a Paixão nem morrera.

Os cátaros se reuniam ao redor de grupos de ascetas (chamados “perfeitos”) que, realmente, procuravam viver segundo os ideais da pobreza evangélica, praticando a castidade absoluta e longos jejuns para mortificar a carne. Eles se dedicavam inteiramente às prédicas, aos ensinamentos e ao aconselhamento espiritual dos fiéis. Quando um cátaro desejava se consagrar ao serviço de Deus, fazia votos muito rígidos que se sintetizavam no consolamentum, o único sacramento por eles reconhecido. Os cátaros, com efeito, não praticavam o batismo, a comunhão nem os demais sacramentos, inclusive o matrimônio.

Já que a carne era vista como receptáculo de todos os males, procriar era considerado errado, bem como ter relações sexuais. O matrimônio, visto como a sede de relações sexuais estáveis, era proibido. Diz a historiadora italiana Barbara Frale que “esse conceito criava muitos problemas no âmbito social: mulheres e maridos abandonavam a família para ingressar nas comunidades dos cátaros. Além disso (já que a castidade absoluta era um empenho que pouquíssimos conseguiam manter), na vida cotidiana as pessoas acabavam vivendo ligações provisórias e não oficiais, que podiam se romper a qualquer momento para dar lugar a casais diversos. Mais que o casamento, tolerava-se muito mais o concubinato e também o amor livre”.

OS CÁTAROS ACREDITAVAM QUE JESUS FORA UM ANJO, VINDO À TERRA PARA ENSINAR AOS HOMENS O CAMINHO DA SALVAÇÃO

Outro grande problema que o catarismo criava socialmente era a proibição absoluta de proferir juramentos: na sociedade dos séculos 12 e 13 o sistema de poder era baseado no juramento de fidelidade (do bispo ao papa, do nobre ao soberano, do camponês ao barão de terras). O juramento empenhava a honra pessoal e constituía um vínculo absoluto. Recusar-se a jurar significava ser rebelde. E, realmente, o credo dos cátaros foi muito instrumentalizado por ambições de autonomia política. Muitos grandes feudatários do sul da França se aproveitaram do catarismo para se liberar da obediência ao rei Felipe II Augusto; os bispos, para se liberar da autoridade do papa e se tornar autônomos; e o baixo clero, seguindo o exemplo dos bispos e os líderes cátaros, para predicar abertamente nas igrejas católicas, desde que pagassem regiamente o pároco…

A liberação dos vínculos feudais foi também muito útil para o apoderamento de testamentos e dos bens do espólio usando a desculpa do catarismo. Era também possível, por critérios análogos, trocar a mulher velha por uma nova ao aderir a essa igreja alternativa; e depois, cansado também desta, trocá-la por uma outra…

Por meio dessa inversão dos valores tradicionais que regiam o equilíbrio da sociedade, um clima de anarquia foi se instalando cada vez mais, e a Igreja oficial decidiu intervir antes que a situação fugisse totalmente ao controle – o que praticamente já acontecera em vários locais. Neles, bispos oportunistas que tinham passado ao catarismo tinham mudado de doutrina, mas sem renunciar às terras, ao poder, aos cavalos, aos castelos e a todas as outras riquezas inerentes ao seu antigo status de bispos católicos. O novo credo lhes parecia ótimo, pois os livrava das longas liturgias previstas pelo catolicismo, do ônus de visitar as dioceses, de jejuar, de praticar a cura das almas e tudo o mais. E se algum bispo passava a viver com uma mulher e a ter filhos com ela, como acontecera com o arcebispo de Narbonne, os líderes religiosos cátaros encaravam tudo como sendo um mal menor.

OS CÁTAROS NÃO PRATICAVAM O BATISMO, A COMUNHÃO NEM OS DEMAIS SACRAMENTOS, INCLUSIVE O MATRIMÔNIO

Ao mesmo tempo, sinais de patologias obscuras – ligadas como sempre ao fanatismo extremista – começaram a surgir no seio de algumas comunidades cátaras. O fato de negarem a humanidade de Cristo e considerarem o corpo como um mal absoluto levou alguns fiéis a favorecer os suicídios. Acontecia com frequência que os doentes se deixassem morrer de fome; outras vezes, embora isso não fosse regra geral, enfermos que recusavam a se suicidar eram mortos pelos outros que acreditavam estar salvando-os da perdição. Podia acontecer também que algumas crianças de famílias católicas, consideradas mais aptas a se tornar santos cátaros, fossem raptadas e levadas para ser educadas longe dos seus pais. A caridade para com os pobres e doentes, dever número um dos cristãos, não era praticada pelos cátaros. Igualmente, uma mulher grávida provocava um certo desgosto e desprezo: ela era, obviamente, culpada por ter fornicado e ter, por isso, gerado um novo ser prisioneiro do mal incurável da carne.

Tornou-se cada vez mais difícil para a Igreja Católica tolerar a existência dos cátaros. A taça finalmente transbordou em 1209, quando um enviado do papa foi assassinado. “Vamos exterminar esses súcubos de Satanás”, exclamou, furioso, Inocêncio III. Ele organizou uma verdadeira cruzada – a primeira a atuar em território europeu – e desencadeou uma vasta operação militar, que adquiriu importante dimensão política. A título de recompensa, os cavaleiros cruzados podiam se apoderar das terras e dos bens dos adeptos do catarismo. Foi dessa forma, graças aos sucessivos massacres das comunidades cátaras, que o reino da França anexou a grande região da Occitânia, até então independente.

Durante 20 anos, a cruzada começada na cidade de Béziers (20 mil mortos no famoso “massacre de Béziers”!) tratou o sul da França a ferro e fogo. Simon de Montfort, barão da província de Île-de-France, era o comandante. No entanto, apesar do avanço das conquistas, o catarismo ainda resistiu. Em 1226 foi lançada uma segunda cruzada, sob o comando do rei Luís VIII. A Inquisição, por seu lado, arregaçou as mangas e se instalou na cidade de Tolouse e em diversos outros pontos da região.

Começaram os tempos dos interrogatórios sob tortura e das fogueiras ardentes. Sede da igreja cátara, Montségur capitulou em 1244. Mas diversas pequenas comunidades ainda sobreviveram, refugiadas sobretudo em castelos de acesso muito difícil, como os de Quéribus, Peyrepertuse, Puivert e Puylaurens, construídos no topo de montanhas dos Pirineus. Só em 1325 o último líder cátaro conhecido, Guillaume Balibaste, foi queimado vivo na localidade de Villerouge-Termenes. Mais de um século fora necessário para o extermínio da religião cátara.

Extermínio? Na realidade, a espiritualidade dos cátaros (dos verdadeiros cátaros, aqueles ascetas movidos apenas por exigências religiosas) possuía um aspecto fascinante: a ideia de viver o cristianismo praticando um estilo de vida simples, austero e baseado nos preceitos do Evangelho. São Domingos de Gusmão e São Francisco de Assis souberam identificar esse aspecto luminoso, importantíssimo para a Igreja do seu tempo, e escolheram inaugurar um novo tipo de vida monástica baseado em ideais de austeridade, simplicidade e pobreza. A obra desses santos demonstra claramente que sementes essenciais da ideologia cátara haviam sido plantadas no seio da Igreja Católica e davam frutos.

Frutos de uma árvore que, vira e mexe, floresce e novamente frutifica. Ou não são esses os mesmos valores que nutriram, há poucas décadas, a filosofia dos hippies contemporâneos?

Castelos cátaros

Nas cidades da região do Languedoc- Roussillon, no sul da França, cada pedra parece estar ligada a algum importante acontecimento da história. As principais, Montpellier, Albi, Narbonne, Carcassone e Béziers, foram todas centros vitais do movimento herético medieval conhecido como catarismo. Até hoje meta de peregrinações religiosas e culturais, essas cidades oferecem roteiros para quem deseja visitar seus castelos, catedrais, fortalezas e museus dentro do espírito que caracterizava a tradição cátara.

Os guias turísticos locais costumam ser muito bem preparados e tornam-se verdadeiros professores de história quando solicitados a falar dos cátaros. Toda a região possui excelente infraestrutura para o turismo, seja nos transportes, seja na hotelaria ou na gastronomia.

PARA SABER MAIS:

www.sunfrance.com

http://www.cathares.org