Cidades fantasmas

A expansão contínua dos grandes centros urbanos eclipsa um movimento que vai muito além do êxodo rural: o encolhimento ou até mesmo desaparecimento de cidades. Um fenômeno antigo, mas com diferentes causas

Cenário de abandono em Detroit (EUA): a capital da indústria automobilística luta para sobreviver (Foto: iStockphoto)

O futuro é urbano. Segundo uma projeção da ONU, até 2050, dois terços da população mundial viverão nas cidades. No Brasil, esse índice deve atingir 90% já na próxima década. Enquanto muitas cidades incham, pequenos centros urbanos e povoações rurais veem sua população cair a zero, ou quase isso.

O fenômeno não atinge apenas povoados. A americana Detroit, berço da General Motors, hoje é o retrato mais famoso da decadência de uma cidade. No auge da indústria automobilística, ali moravam 2 milhões de pessoas. Atualmente, apenas 700 mil habitantes resistem lá em meio à penúria econômica, que derruba o mercado imobiliário e infla as taxas de violência. A vizinha Flint passou pelo mesmo drama ao ver sua população diminuir mais de 65%.

As mudanças causadas pelo encolhimento representam não só um desafio econômico (reduzem a arrecadação de impostos e os repasses federais), mas um problema social. “Não é só a perda econômica, há uma perda moral”, explica o urbanista Nestor Razente, professor da Universidade Estadual de Londrina. “Ao ver notícias sobre o tema, os próprios empresários deixam de investir naquele local. Cria-se um estado de ânimo geral coletivo de abatimento, especialmente para os jovens, que precisam de uma expectativa.”

Restos de Fordlândia, o empreendimento (Foto: Alex Albino)

Estudioso de casos de cidades fantasmas no mundo, Razente acaba de lançar o livro Povoações Abandonadas no Brasil (Editora Eduel), no qual conta a história de nove centros urbanos brasileiros que desapareceram. “A academia ainda tenta entender o fenômeno das cidades fantasmas; no Brasil há pouca literatura sobre o tema”, afirma.

Fordlândia, no Pará, um dos casos brasileiros relatados no livro, já foi símbolo do poder da indústria e do crescimento que ela impulsiona. O empresário americano Henry Ford pensou no local como um polo agroindustrial de exploração de látex para a produção de borracha destinada aos pneus. Erros crassos de projeto levaram ao fracasso da ideia e o local hoje acumula ruínas e história. Só restou o nome famoso, do qual a vizinha Aveiro se apropriou.

Casos como os de Fordlândia, Detroit e outras cidades afetadas pelo declínio econômico podem deflagrar a reavaliação do urbanismo hoje. Estudiosos do tema habi­tuaram-se a pensar as cidades ape­nas crescendo e nunca encolhendo, e o fenômeno talvez leve a academia e os governos a rever padrões de infraestrutura urbana e ações de políticas públicas.

Fenômeno antigo

Nem sempre a economia explica o declínio populacional. Esse encolhimento e desaparecimento de cidades existe há muito tempo, em especial na Europa. A peste negra no século 14, por exemplo, não só matou um terço da população do Velho Continente, mas levou outros milhares a migrar. As muitas guerras também ora mataram, ora forçaram populações a mudar-se.

Até o fim de conflitos foi fator motivador. Logo após a dissolução da União Soviética e a queda do Muro de Berlim, houve uma corrida de habitantes do leste europeu e da Alemanha Oriental para áreas­ então do lado ocidental, até mesmo por conta de uma curiosidade represada. Partes da Polônia e o sul da Bósnia são as áreas mais emblemáticas disso.­ Os maiores exemplos europeus da tendência de encolhimento urbano atualmente são aldeias portuguesas, pueblos espanhóis e vilarejos italianos.

A destruída Epecuén, na Argentina, depois da inundação sofrida em 1985 (Foto: iStockphoto)

Em Portugal, a explosão do turismo no Algarve (sul do país) e a eliminação de barreiras no continente com a consolidação da União Europeia atraíram boa parte dos jovens do norte do país. Os mais velhos ficam, mas por tempo limitado. Na Espanha, calcula-se que, desde o pós-guerra, cerca de 3.500 povoados foram abandonados. É um processo de décadas, iniciado com a fuga das áreas rurais para zonas urbanas e reforçado por outros fatores ao longo dos anos.

Assim como em Portugal, os vilarejos espanhóis perderam seus jovens para regiões mais atrativas econômica e socialmente. A venda desses povoados virou negócio, com anúncios nos classificados de jornal que vão de casas a vilas inteiras. As ofertas começam em € 1. Os governos regionais estão criando programas para manter essas localidades, com a promoção do comércio entre elas, numa tentativa de preservar aqueles que ficaram.

Uma área no centro-leste da Espanha foi apelidada de “Lapônia do sul” por conta de sua baixa densidade demográfica: menos de oito habitantes por quilômetro quadrado. A taxa de envelhecimento local é uma das mais altas da Europa, com 32% da população com mais de 65 anos e 7% com menos de 15, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). O quadro levou à criação do projeto Serranía Celtibérica, para pressionar por mais políticas públicas para a região e incentivar a população a ficar ou atrair pessoas de fora para lá.

A causa desse “desmanche” não pode ser vista apenas como demográfica (apesar da redução dos núcleos familiares), mas de planejamento, uma vez que se avalia que faltam perspectivas para os jovens que ficam. Já na Itália, um projeto incentiva a ida de refugiados que chegam ao litoral sul do país como uma tentativa de repovoar as vilas. Mas a estratégia pode ter efeito temporário, já que os refugiados tendem a voltar a seus países quando – e se – o cenário melhorar.

Fascínio da destruição

Até meados dos anos 1980, Epecuén, ao sul de Buenos Aires, era um próspero balneário às margens de um lago de águas salgadas com propriedades terapêuticas. Em 1985, após um raro fenômeno climático, o lago transbordou e inundou toda a cidade. Por ironia do destino, Epecuén voltou a ser destino turístico justamente pelo cenário de destruição que surgiu após a água retroceder, em 2009.

As construções corroídas pelo sal e pela água são a atração agora. O mesmo se passa em Airão Velho (AM) ou Biribiri (MG), cuja principal atração turística hoje é a mata crescendo em meio às ruínas da cidadezinha. “As ruínas estão lá, como testemunha e fragmentos do passado; não têm um significado histórico, ou um marco, mas as pessoas vão para ver isso”, relata Nestor Razente.

Ruínas de Airão Velho (AM): a mata crescendo em meio às construções é o que atrai os turistas (Foto: Nestor Razente)

O turismo, aliás, pode ser uma salvação para as cidades fantasmas. Muitos dos pueblos espanhóis têm visto a vida voltar por meio de spas, estâncias naturais ou passeios rurais que agora ocupam a agora reformada estrutura do local. Kayakoy, na Turquia, viu suas ruínas serem ocupadas por endinheirados ingleses e hoje é um concorrido destino turístico.

O interessado em comprar imóveis nos pueblos espanhóis deve ficar atento, alerta Razente. As ofertas podem ser atrativas, mas há vários outros investimentos necessários antes de fazer a mudança. “A burocracia é enorme. Tem de passar por autoridades de conservação histórica, tem a mão de obra para recuperar as construções.

Você paga € 50 mil, mas, no final, o custo total pode ser dez vezes maior.” Há esperança para as cidades que estão minguando? Para Razente, a resposta só virá mesmo com o tempo. “Alguns pesquisadores acham que isso é um ciclo longo que vai se reverter, mas qual a longevidade desse ciclo? Outros, como os franceses, acham que é um processo natural e resta apenas aceitar”, afirma.

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