Esquina dos oceanos

Fundada no século 17 como ponto de apoio para os navios que faziam o trajeto entre a Europa e o Oriente, a Cidade do Cabo, na África do Sul, alia beleza cênica, dinamismo multicultural e uma incrível biodiversidade

Encravada praticamente no encontro dos oceanos Atlântico e Índico, a Cidade do Cabo (Cape Town, em inglês) é um lugar ímpar, de geografia única e clima com humores muito próprios – e rigorosos. Segundo centro urbano da África do Sul, atrás apenas de Johannesburgo, ela foi fundamental como ponto de parada no ciclo das grandes navegações europeias e, mesmo sendo superada economicamente pela rival do interior, mantém sua importância como sede do Parlamento Nacional. Ecos dos velhos tempos de trânsito dos navegadores ainda se manifestam na atração que a cidade exerce sobre migrantes e expatriados, o que a torna uma das mais multiculturais do mundo.

A região onde hoje está a cidade já era conhecida dos europeus no século 15. Em 1486, o explorador português Bartolomeu Dias contornou o cabo que denominou das Tormentas (cerca de 50 km ao sul), o ponto onde os navios que vêm do Atlântico rumo às Índias passam a navegar no sentido leste. Em 1497, outro português, Vasco da Gama, passou por ali em sua viagem rumo às Índias Orientais (quando o acidente geográfico já havia sido renomeado como Cabo da Boa Esperança). No século seguinte, lusitanos, franceses, holandeses, ingleses e dinamarqueses usaram a área como ponto de parada nas longas viagens entre a Europa e as Índias.

Nessas paradas, trocavam tabaco, ferro e cobre por carne fresca trazida pelos habitantes locais, da tribo khoikhoi. A colonização daquelas terras começou de fato em 6 de abril de 1652, com a chegada de uma frota da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais comandada por Jan van Riebeeck. Ele estabeleceu ali o primeiro assentamento europeu permanente e o primeiro porto, vital às viagens dos navios holandeses que iam e vinham das Índias Orientais. O porto foi o mais importante elemento propulsor do desenvolvimento na região. Durante a Revolução Francesa e as Guerras Napoleônicas, a Holanda controlou a Cidade do Cabo (denominada Kaapstad no idioma africâner, de origem holandesa, falado pelos colonos).

Mas a França a ocupou diversas vezes, sem protegê-la adequadamente. Aproveitando-se da situa­ção, a Inglaterra tomou o território em 1795. Um tratado assinado em 1803 determinou que a cidade voltasse ao comando holandês, mas apenas três anos depois a Inglaterra voltou a invadir o local, ocupando-o definitivamente. Um novo tratado, firmado em 1814, declarou que a Holanda cedia permanentemente a cidade ao domínio britânico. A partir desse momento, a Cidade do Cabo passou a ser a capital da Colônia do Cabo, território ultramarino do Reino Unido.

Rivalidade interna

A Cidade do Cabo foi, por muitos anos, maior que Johannesburgo. Esse quadro mudou em 1886 com a chamada febre do ouro de Witwatersrand. Baseada em boatos originados no folclore local, a corrida ao metal causou um súbito e desordenado fluxo humano maciço para Johannesburgo, que assim se tornou a cidade mais populosa e importante da África do Sul. Mas a Cidade do Cabo nunca perdeu sua relevância e permanece hoje como o segundo mais destacado centro político, econômico e cultural do país, além de ser uma atração turística superlativa.

A posição da cidade como ponto de parada entre dois oceanos, na qual conviveram europeus, africanos nativos e orientais (os colonizadores holandeses trouxeram malaios como escravos), deu à sua população características peculiares. A maioria é de mestiços (42,4%, em um levantamento de 2011), seguidos por negros africanos (38,6%), brancos (15,7%) e indianos/asiáticos (1,4%). O fim do apartheid, o regime de segregação racial que vigorou na África do Sul entre 1948 e 1994, trouxe mudanças substanciais nesse perfil populacional: em 1944, os brancos (originários não apenas de holandeses e ingleses, mas também de alemães e franceses) eram 47%, os mestiços somavam 46%, 1% tinha origem asiática e menos de 6% eram negros africanos.

12_pl526_cidadecabo9

Esse caldo racial proporciona uma experiência rara, visível nos diversos cantos da cidade em que predomina uma ou outra parcela e em áreas nas quais a mistura é a característica mais marcante. Outra marca da peculiaridade local é o clima da região, que muda com rapidez desconcertante. Em poucas horas, um dia ameno e luminoso pode se converter em uma tarde escura, fria e tempestuosa – e vice-versa. Vivi um pouco dessa experiência ao visitar um dos cartões-postais da cidade, a icônica Table Mountain (Tafelberg, em africâner), uma montanha de cume amplo e plano que se eleva a 1.084 metros acima do nível do mar, formando um grande contraforte logo atrás da área urbana central.

Quando cheguei aos pés da imponente montanha, num dia cinzento de vento forte, marcado por chuva fraca e intermitente, avistei um bondinho regressando do topo, balançando suspenso em seus grossos cabos. Algo apreensivo, logo me imaginei naquela situação. Mas antes mesmo que o chacoalhante teleférico chegasse à sua base, fui informado de que as subidas estavam canceladas até a melhora do tempo. O jeito foi regressar à cidade e explorar seu agitado centro. Lá, o clima começou a dar mostras de que ia melhorar e, à tarde, o sol apareceu, prenunciando um dia seguinte quente e luminoso.

As águas da baía à frente do centro da cidade, a Table Bay, e da localizada ao sul, a False Bay, são frequentadas por bandos de focas, que se refestelam nos recifes de olho nos enormes e famintos tubarões-brancos, sempre à espreita. O mar é perfeito para a prática do surfe, e como a presença constante dos gigantes brancos não servia para afugentar surfistas e banhistas, tragédias aconteciam ocasionalmente. Foi criado então um plano de monitoramento constante, com helicópteros que sobrevoam as praias, avistando os tubarões e alertando banhistas e surfistas para que permaneçam nas áreas seguras, próximas à praia. Com isso, caiu para perto de zero o número de mortes causadas por ataques dos tubarões.

Fartura vegetal

Para quem gosta de natureza, a área da Cidade do Cabo é uma preciosidade. Partes do seu território integram a Região Floral do Cabo, inscrita em 2004 na lista do Patrimônio Mundial da Unesco pela biodiversidade extremamente rica. Novas espécies de plantas são descobertas frequentemente na área. Um parque nacional, o Table Mountain, foi estabelecido em 1998 para proteger o meio ambiente da área (cobrindo a península que vai da Table Mountain ao Cabo da Boa Esperança), em especial os típicos arbustos fynbos. Sozinha, a montanha-ícone da cidade tem 2.200 espécies de plantas. O Kirstenbosch National Botanical Garden, criado em 1913 nas encostas da Table Mountain para promover e conservar a vegetação do país, abriga mais de 7 mil espécies de plantas nativas.

O clima especial da região da Cidade do Cabo também favoreceu suas vinícolas, que há séculos produzem vinhos de ótima qualidade. Ainda nos primeiros tempos da colonização holandesa, vinhas europeias foram levadas para lá e plantadas ao redor da área urbana. O vaivém de viajantes entre a Europa e as Índias proporcionou um fluxo de pessoas e conhecimentos que impulsionou, entre outras coisas, o desenvolvimento precoce da viticultura. Dessa forma, costuma-se dizer, no mundo do vinho, que a África do Sul é o velho mundo do novo mundo (“novo mundo”, no caso, são todos os lugares que produzem vinhos além da Europa: Américas, Ásia, África e Oceania).

Mas o mercado global demorou a descobrir os vinhos sul-africanos. Durante a época do apartheid, havia uma cooperativa governamental que exercia monopólio estatal dos vinhos e os desviava para consumo da burocracia do regime, liberando para o mercado externo apenas os vinhos de má qualidade. Com o fim da segregação racial, esse cenário mudou rapidamente e a África do Sul entrou para o mapa dos grandes produtores mundiais. Um dos destaques nessa produção é Constantia Valley, um rico subúrbio cerca de 15 quilômetros ao sul do centro da cidade. Nessa área de geografia privilegiada e clima moderado, hoje mundialmente reconhecida por seus vinhos, há dezenas de vinícolas de pequeno e médio porte em meio a vinhedos a perder de vista.

Essa malha de viticultura atraiu investimentos em hotelaria e gastronomia, e a região se tornou um importante polo turístico – muitas vinícolas locais agregaram em suas estruturas hotéis, restaurantes e spas. Em várias delas, árvores nativas cercam os vinhedos para protegê-los dos ventos fortes e que surgem de repente. Como se vê, as colisões de correntes de ar que viajam sobre os oceanos Atlântico e Índico, temor dos navegantes do passado, já não causam tantos estragos hoje em dia.

—–

Ilha-Prisão

Entrada do antigo presídio: hoje, atração turística (Crédito: Johnny Mazzilli)
Entrada do antigo presídio: hoje, atração turística (Crédito: Johnny Mazzilli)

A Cidade do Cabo abrigou muitos líderes de movimentos antiapartheid sul-africanos. Na Ilha Robben, a 10 km da costa da cidade, havia uma temida prisão para presos políticos, onde estiveram confinados alguns dos mais proeminentes ativistas, como Nelson Mandela. Num dos momentos mais célebres do final do odioso regime, Mandela fez, da varanda da Câmara Municipal da Cidade do Cabo, em 11 de fevereiro de 1990, seu primeiro discurso público como um homem livre, horas depois de ter sido libertado após 27 anos preso na ilha. Seu discurso marcou o início de uma nova era para o país, e as primeiras eleições livres foram realizadas quatro anos depois, em abril de 1994.

COMPARTILHAR
blog comments powered by Disqus