Frágil paraíso

As Ilhas Phi Phi, na Tailândia, impressionam os visitantes pelos incríveis cenários criados por águas de tom verde-esmeralda, praias de areia clara e rochedos cobertos por vegetação tropical. Mas o turismo descontrolado ameaça essas paisagens de sonho

Ainda a distância, começam a surgir no horizonte os primeiros rochedos, como dedos de rocha vertical que emergem do oceano. Recobertos por uma densa vegetação tropical, elevam-se às vezes centenas de metros acima do mar. Quanto mais o barco se aproxima, mais a paisagem se torna singular e grandiosa. É então que nos damos conta da imponência dos rochedos e falésias de calcário e das florestas tropicais suspensas nas paredes nas belíssimas Ilhas Phi Phi.

Situado no Mar de Andaman, no nordeste do Oceano Índico, esse arquipélago no sul da Tailândia sempre exerceu fascínio em viajantes do mundo todo, com suas praias paradisíacas de areia branca e águas cálidas de um impressionante verde-esmeralda. A Tailândia é um país encantador, com um povo muito gentil. Desde os tempos em que era o Reino do Sião, a nação conseguiu manter-se livre de dominações e preservou como poucos sua cultura. Comecei minha estada lá dedicando-me por alguns dias a uma introdução à saborosa e apimentada culinária tailandesa na escaldante e movimentadíssima capital, Bangcoc.

Depois fui ao norte do país, onde visitei tribos de diferentes etnias, silenciosos templos budistas e mercados multicoloridos, situados em meio a colinas cobertas de florestas, e em seguida voei para a efervescente Phuket, no sul do país, ponto de partida para visitar as Ilhas Phi Phi. A contraposição é evidente. Enquanto no norte predominam paisagens montanhosas, plantações de arroz, florestas com tigres selvagens, elefantes e comunidades camponesas de variadas etnias, na parte tailandesa ocidental da península malaia a dinâmica é cosmopolita e urbana, multicultural, com praias paradisíacas, enorme fluxo de turistas e trânsito caótico.

Balneário famoso situado na ilha de mesmo nome, Phuket é dominada por um calor onipresente, amenizado pelo vento marinho e pelas chuvas de verão. Na estação mais quente, são quase diárias as pancadas de chuva, após as quais o ar fica ainda mais sufocante, devido à evaporação em meio ao forte calor. É bom evitar a região de julho a setembro, quando as monções causam tempestades mais severas do que as chuvas de verão brasileiras.

Lugares inesquecíveis

Partindo de Phuket, percorre-se aproximadamente uma hora de barco rápido (lancha), algo como 45 km de distância, para chegar a Phi Phi. O que os locais chamam de Ko (“ilha” em tailandês) Phi Phi é um arquipélago formado por seis ilhas de calcário. As duas ilhas maiores são as famosas Phi Phi Don e Phi Phi Leh. As outras quatro ilhotas são desabitadas. Privilegiadamente, pude visitar as Ilhas Phi Phi quatro vezes. É daqueles lugares que não saem da memória.

Muitas pessoas preferem hospedar-se em Phuket e visitar as ilhas em esquema de turismo de um dia. Para atendê-los há um bom número de empresas locais que prestam esse serviço, saindo pela manhã e regressando à tarde, com direito a paradas e desembarques em baías, praias e alguns dos points obrigatórios. Um deles é Maya Beach, a praia mais famosa da Tailândia, onde foram rodadas partes de A Praia, filme estrelado por Leonardo DiCaprio que estreou no ano 2000.

Antes de A Praia, outro filme famoso foi rodado lá: 007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro. Essa produção “apresentou” ao mundo a Tailândia, em especial o sul do país. O filme tinha como cenário uma das ilhas da região, que servia de esconderijo para o vilão. O local ficou tão famoso que passou a ser chamado de “Ilha de James Bond”. Mas foi após o grande sucesso de A Praia que Phi Phi e, mais especificamente, Maya Beach, passaram a receber um número avassalador de turistas.

Nessa época, os chineses descobriram os encantos de Phi Phi e começaram a organizar pacotes de viagem para a região. O resultado? Um aumento desordenado do fluxo turístico nas ilhas, causador de problemas e fonte de grave preocupação com o futuro do arquipélago, um ambiente frágil e delicado. Maya Beach­ e Maya Bay situam-se em Phi Phi Leh, a parte das ilhas tombada como parque natural e reserva marinha. As poucas vilas espalhadas pelo arquipélago têm infraestrutura para receber um número moderado de turistas, mas os chineses vêm desembarcando enormes contingentes lá durante o ano todo. Diariamente, grandes embarcações abarrotadas aportam em Maya Beach, despejando chineses em meio a muita agitação e algazarra.

Um ano antes da minha última visita à Tailândia, estive no país e presenciei um fato bizarro em Maya Beach. Na praia, com uns 200 metros de extensão, havia algo como uma centena de banhistas e uns 10 ou 12 barcos ancorados. Após uma caminhada até o lado oposto da praia, voltei e me deparei com mais de mil chineses falando aos brados, gesticulando e tirando fotos freneticamente com seus celulares e tablets.

Haviam desembarcado rapidamente de três enormes embarcações, que agora os aguardavam ancoradas no meio da baía. Atualmente, a melhor forma de conhecer as ilhas sem topar com três chineses por metro quadrado é deixar Phuket e se hospedar em Phi Phi Don, a ilha principal, acordar bem cedo e sair sem demora, para chegar aos lugares antes das levas. Após as 16h, o movimento diminui muito. Há sempre muitas embarcações navegando ao redor das ilhas.

Para quem deseja um contato mais intenso e tranquilo com a natureza­ das ilhas, Phi-Le Bay é o local perfeito, excelente para mergulhar com cilindros ou apenas praticar snorkeling. Phi Phi é, assim como Paris, Veneza e San Pedro de Atacama, um destino eclético, visitado por todos. Lá podem ser vistos famílias, casais em lua de mel, endinheirados e mochileiros durangos, hospedados em resorts de luxo, hotéis modestos e hostels, nas ilhas, em Phuket ou na vizinha Krabi.

A melhor época para visitar o sul da Tailândia é de outubro a maio, quando o calor e a chuva diminuem. O terremoto seguido de tsunami de 2004 (veja quadro na página ao lado) é um poderoso lembrete de que a região é sísmica, mas poucos sinais da catástrofe são perceptíveis hoje em dia. Quanto aos turistas, não dão mostras de se preocupar com o que aconteceu. Ninguém deixa de ir a Phi Phi por causa disso.
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Invasão chinesa

A presença de turistas da China nas ilhas Phi Phi e em Phuket é tão flagrante hoje em dia que não fica difícil encontrar um restaurante com capacidade para 200 pessoas completamente ocupado por chineses, enquanto outros 100 aguardam na fila de espera.

De Beijing, a capital chinesa, um voo de apenas cinco horas de duração leva a Phuket, e a oferta de viagens baratas vem sobrecarregando o arquipélago e preocupando o governo da Tailândia. O turismo representa a única fonte de renda das ilhas, e as autoridades tailandesas têm de equacionar esse grave problema.

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Respostas ao tsunami

Em 26 de dezembro de 2004, no litoral de Sumatra (Indonésia), 30 km abaixo da superfície do Oceano Índico, um terremoto de 9,3 graus na escala Richter causou um gigantesco movimento no leito do Índico e o deslocamento de um enorme volume de água – um tsunami. Em segundos, a massa de água se converteu em uma sucessão de ondas que, partindo do epicentro do abalo, se dispersaram em todas as direções, movendo-se a centenas de quilômetros por hora e incorporando mais volume e força destrutiva.

As ondas atingiram 14 países, inclusive a Tailândia, onde cerca de 11 mil pessoas perderam a vida. Phi Phi foi uma das áreas atingidas: ali, pouco mais de mil pessoas morreram e milhares tiveram suas casas destruídas. Os tailandeses superaram esse evento com a serenidade e a resignação que lhes são características. Nas cidades costeiras, como Phuket, e nas ilhas, sistemas de sinalização e rotas de escape foram instalados no ano seguinte ao desastre. Alguns pontos do fundo do oceano receberam equipamentos de registro sísmico, ligados a um sistema que detecta pequenas alterações.

Em Phuket, ruas específicas foram alargadas de modo a facilitar o escoamento da praia para dentro do continente em emergências. Escolas e empresas fazem treinamentos periódicos antitsunamis. O governo tailandês baixou leis com limites para a ocupação urbana em áreas específicas. A ocupação de áreas de risco despovoadas foi vetada. Comunidades devastadas não foram reerguidas e suas populações foram transferidas. Em Phi Phi, por toda parte há sirenes e placas que indicam para qual direção correr em caso de alerta.

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Dicas de viagem

• Óculos de sol, filtro solar, repelente e um chapéu ou boné são itens obrigatórios
• Roupas e calçados leves, calções e camisetas de cores claras
• Não há necessidade de visto para brasileiros, mas a imigração tailandesa exige com rigor a apresentação do certificado de vacinação contra a febre amarela. Não ter o documento em mãos no desembarque pode acarretar, em última instância, a deportação do viajante

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MAIS INFORMAÇÕES
Autoridade do Turismo da Tailândia: turismodatailandia.com

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