Meça-se a si mesmo

Dispositivos tecnológicos cada vez menores, adicionados à roupa ou ao corpo, permitem medir ações cotidianas e atividades específicas. A nova ordem é quantificar.

Além de escrever diários com confidências pessoais, hoje as pessoas também podem refletir sobre seus números.
 

Depois de um tempo esquecidos na gaveta, os relógios voltaram a estar em alta. Mas a função de marcar as horas é tão relevante nos modelos que estão surgindo quanto a de fazer ligações nos celulares. Muito mais do que medir o tempo, eles servem para medir movimentos, sinais vitais e posicionamento geográfi co, além de proporcionar acesso aos dados dos smartphones – como contatos, e-mails, aplicativos e comandos de chamada – ou navegar na internet sem depender de um celular. A tendência acaba de ser confi rmada na última Internationale Funkausstellung Berlin (IFA), uma das principais feiras de tecnologia do mundo, ocorrida em agosto, na Alemanha.

Durante o evento, os lançamentos da primeira e da segunda geração de relógios inteligentes das marcas Samsung, Motorola e Apple (o Apple Watch está prometido para 2015) representam a evolução natural de outro produto de sucesso: a pulseira de uso contínuo. Ela serve para registrar todos os passos, batimentos cardíacos, calorias consumidas e queimadas, qualidade do sono do usuário, entre outras coisinhas mais. Transmitidas para um sistema central, essas informações são automaticamente apresentadas em forma de gráficos, que ajudam a identificar padrões de comportamento e maus hábitos. Embora ainda tímida no Brasil, já que a maioria dessas pulseiras ainda não é vendida aqui, a mania de mensurar as atividades cotidianas e os exercícios físicos tem sido chamada no exterior de quantifi ed self, ou “eu quantificado”.

“Quantificar dá consciência do que estamos fazendo. Minhas experiências com as medições abriram um mundo novo para mim. Fiquei fissurado com o que poderia descobrir. Trata-se de autoconhecimento  através dos números”, define Fabio Santos, 34 anos, engenheiro desenvolvedor de aplicativos e um dos maiores representantes no Brasil dessa tendência. Fundador do primeiro grupo brasileiro de quantified  selves, conta que nunca foi obcecado por métricas. Seu interesse foi despertado no mestrado em gestão de empresas realizado no exterior, onde aprendeu que para gerenciar é preciso medir.

Santos já utilizou a pulseira da Nike (a primeira marca a investir no segmento, em parceria com a Apple) e hoje usa a Flex, da FitBit. “A FitBit escancarou meu sedentarismo e influenciou meu comportamento. Não dava mais para me autoenganar, porque os números não mentem.” Ele também monitora o sono com a pulseira Lark, depois de provar a Zeo, uma cinta para a testa com a mesma fi nalidade. Também faz muitos experimentos pessoais por meio de aplicativos de celular, como Rescuetime, Moodscope e Reporter, e manualmente, como os mapeamentos que fez de suas interações pessoais.

Graças aos apontamentos numéricos, Santos pôde reverter uma situação desgastante com sua mãe. Logo após ter instalado seu home offi ce na casa dos pais, começou a se irritar com as interrupções dela. “Passei a registrar tudo e descobri que havia um padrão de interrupção. Em vez de fi car eternamente brigando com minha mãe, decidi mudar o horário da minha pausa. Assim, passamos a ter mais tempo de qualidade juntos e as interrupções caíram drasticamente”, conta.

O interesse em usar dispositivos tecnológicos de automonitoramento para gerar dados pessoais está entre as dez tendências mais quentes de consumo de 2014, segundo a pesquisa Ericsson Consumer- Lab Analytical Platform 2013, feita nas dez maiores cidades dos Estados Unidos. Dos 5 mil consultados, 40% gostariam de ter um smartphone que mensurasse a atividade física, os passos e o sono, entre outras coisas, e 59% usariam uma pulseira que complementasse essas medições. Além disso, 56% adotariam um anel que medisse a pressão sanguínea e a pulsação.

O norte-americano Nicholas Felton é exemplo máximo dessa tendência. Todo ano ele compila um relatório sobre toda a sua vida: filmes vistos, músicas escutadas, quilômetros rodados, e-mails trocados, tempo passado com amigos e familiares, restaurantes visitados, etc. Quanto mais dados, melhor. Ele usa muitos dispositivos e aplicativos para depurar tudo isso.

Mania passageira?

“Dizer que isso é moda é muito superfi cial. Alguma coisa está acontecendo na sociedade que fez aparecer isso”, analisa o psicólogo e engenheiro Gerson Souza. Ele recorre à proposta da psicologia social de entender o contexto histórico para entender o ser humano e as relações humanas. “A sociedade hoje é consumista e capitalista. Isso é uma constatação, não um julgamento de valor. Então, não surpreende que as pessoas queiram trazer a lógica das empresas para suas vidas privadas.” Souza alerta que essa lógica corporativa pode dar certo para as empresas, mas não funciona para tudo. Na sua experiência, quanto mais se misturam números e sentimentos humanos, mais provável é chegar a conclusões enganosas.

O costume de medir tudo o tempo todo desencadeia outro processo arriscado: a comparação. “Se você está medindo, está comparando. E quando alguém se compara com os outros é que surgem problemas.” Por isso, para Souza a pergunta principal é: “que tipo de vida as pessoas contemplam quando buscam essa ferramenta para encontrar resposta?”

Assim como os “brinquedinhos” hi-tech atraem, facilmente podem desencantar. Pesquisas da Endeavour Partners mostram que, em junho de 2014, um terço dos consumidores que tinham adotado algum desses dispositivos os abandonou seis meses depois. O que não chega a ser má notícia, já que, no fi m de 2013, 50% haviam largado o automonitoramento.

Não foi o caso do publicitário Paulo Henrique Faria Silva, 37 anos. Ele descobriu a pulseira Fuelband, da Nike, há dois anos e só a tirou do braço para adotar outro modelo ou versão do mesmo produto. O gadget oferece informações por meio de um painel luminoso que revela quanto falta para atingir as metas diárias defi nidas pelo usuário. As luzes vermelha, amarela e verde vão informando quão próximo se está da meta do número de passos ou do gasto calórico desejado. “Ela convida você a se mexer. Quanto mais conhece seus hábitos, mais interage. A minha me chama de ‘morcego’ porque sou mais ativo à noite.” Ele se entusiasma com os reconhecimentos que recebe da ferramenta quando alcança as metas e já mudou alguns hábitos com base no seu “diário de bordo”, como gosta de definir.

Esse “diário” fica disponível no site Nike+, onde os dados coletados pela pulseira são visualizados em forma de gráficos. Ele faz ligação direta com o Facebook e o Twitter, permitindo aos usuários compartilhar e comparar seus desempenhos com os amigos. “Deixo juntar informações de alguns dias para surpreender as redes sociais”, conta. Para o publicitário, essa “rivalidade” com os amigos é um estímulo extra. Em julho, a empresa revelou que já são 20 milhões de usuários em todo o mundo – em 2012, eram 6 milhões. Agora, Silva espera ansiosamente pela próxima geração da pulseira da Nike, a RunLogic. “Ela vai ler seu humor”, prevê.

Brincando de médico

A Nike afirma que a pulseira é lúdica e motivacional, não é para monitorar a saúde. Mas outros dispositivos já existem com esse fim. (Clique AQUI e conheça alguns aparelhos que medem as ações e protegem a saúde das pessoas.) Os maiores beneficiados dessa evolução tecnológica são os portadores de doenças crônicas, como diabéticos, cardíacos e depressivos. Eles passam a contar com sensores conectados à internet e, em alguns casos, ligados diretamente aos seus médicos. Gustavo Penna, médico do Núcleo de Telessaúde da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), fez um experimento com 28 pacientes diabéticos, divididos em duas turmas. Os horários e procedimentos de controle glicêmico eram iguais para ambos: uma picada de agulha no dedo e uma fita reagente para detectar a quantidade de açúcar no sangue. A diferença era que uma turma tinha um aparelho mais moderno, que fazia a leitura automática e, assim que conectado à internet por 3G, enviava os dados ao Núcleo.

O telemonitoramento garantiu mais precisão às medições ao evitar erros de números, esquecimentos ou simulação de resultados. “Os pacientes acabaram conhecendo melhor sua doença e se conhecendo melhor. E o tratamento foi mais eficiente”, resume Penna. Todos os pacientes automatizados baixaram e estabilizaram seus índices glicêmicos, enquanto os demais seguiram anotando os resultados por semanas, até chegarem à consulta seguinte, e continuaram com os problemas de sempre.

Automatizar a obtenção dos dados e a geração dos gráfi cos é o maior diferencial dos aparelhinhos. A engenheira eletrônica Elizabeth Vittorazzo, 59 anos, pratica há 20 anos diferentes atividades físicas, como natação, pilates, musculação, corrida e ciclismo. Durante anos, ela produziu gráficos de desempenho no programa Excel com base no monitoramento cardíaco feito com o relógio Polar, munido de frequencímetro. “Ser engenheira me faz procurar a técnica em tudo”, afi rma. Em janeiro de 2012, ela ganhou as ruas com uma bicicleta “de verdade” equipada com o Garmin 810, linha de relógios especialmente projetada para ciclistas. Além da cinta para detectar os batimentos cardíacos, o relógio é sincronizado com um medidor de rotações por minuto (RPM) encaixado na roda da bike. Elizabeth complementa o treinamento com o Strava, aplicativo de smartphone para ciclistas. “Acabou o tempo perdido fazendo planilha. Agora posso analisar como meu corpo responde a cada treino e estudar como melhorar minha performance.”

Seja para os fitness, seja para os geeks, os doentes crônicos ou curiosos, o mercado vem produzindo sensores cada vez menores e flexíveis para compor dispositivos “vestíveis”. “Estamos vivenciando uma transição na medicina”, avalia Cláudio de Souza, cirurgião que coordena o Núcleo de Minas Gerais do Programa Nacional de Telessaúde. Novos arranjos estão surgindo com a revolução tecnológica, que permite laudos a distância, cuidados domiciliares e autocuidados. “A tendência é tudo isso crescer muito, sem tirar a importância do médico. Mas ainda estamos no começo, e é bom confi ar desconfiando.”

O automonitoramento deve permitir que as pessoas sejam mais participativas no planejamento da sua saúde e possam se antecipar aos problemas. Mas se, por um lado, existe um impulso maior pelo autoconhecimento, por outro há perigos à espreita. A preocupação com a saúde está cada vez maior e também é forte o apelo à automedicação. Além disso, Souza acredita que, se já não aumentaram os diagnósticos de transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e hipocondria em função da popularização desses dispositivos, esses índices com toda certeza vão aumentar.

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