Meditar com alegria

A meditação não precisa ser algo sisudo. Chade-Meng Tan, ex-engenheiro do Google (onde começou sua carreira de instrutor), mostra em um livro que o bom humor combina perfeitamente com essa prática

Para muitas pessoas, meditar é uma atividade de gente séria e incapaz de sorrir. Nada mais falso, sublinha o cingapuriano Chade-Meng Tan (ou como ele prefere, Meng), um engenheiro de soft­ware do Google que, ao dar uma aula de mindfulness (a meditação da atenção plena) para colegas na empresa, no ano 2000, iniciou uma transformação radical na sua vida. Meng, que fundou (em 2013) e preside o Search Inside Yourself Leadership Institute, com atuação mundial, pratica meditação há 21 anos e conhece os vários recursos úteis para isso (entre os quais a disciplina e a vontade), mas privilegia a alegria. “A vida é demasiado importante para ser levada a sério”, costuma lembrar.

Em seu mais novo livro, Joy on Demand (Alegria sob Encomenda, em tradução livre), publicado pela HarperCollins, ele ensina práticas e princípios para cultivar mindfulness que dão ênfase à gentileza e à tranquilidade e levam a uma vida rica de sentimentos positivos. “Com a prática, a alegria pode se tornar sua personalidade e sua vida”, explica. “O que é neutro se tornará alegre, e o que é alegre se tornará ainda mais alegre.”

Meng não se incomoda em ser um tanto escatológico se o objetivo é romper com o estereótipo sisudo da meditação. Em um capítulo do livro intitulado “A felicidade está cheia de cocô”, ele faz uma lista de ensinamentos tradicionais que comparam a mente a “um pedaço de ouro puro dentro de uma grande bola de esterco de gado”. Ou seja: todos temos a felicidade dentro de nós, e para senti-la basta “limparmos” os maus hábitos de pensar que a obscurecem – algo que está incluído no treinamento da mente para a meditação.

Mente adestrada

Um momento curioso da obra é a “Meditação do Cachorrinho”, com duração de dez minutos, cujas etapas correspondem ao adestramento de um cão:

Relaxe – “Relaxe e deixe seu cachorrinho [mente] vaguear, mas se ele for muito longe, traga-o de volta gentil e amorosamente.”

Alegre-se – “Agora, o filhote está familiarizado com você e o ama, e gosta de sentar ao seu lado. Quando ele faz isso, você se alegra. Se você o pegar vagueando, alegre-se também por ter um filhote tão lindo antes de gentilmente trazê-lo de volta.”

Determine-se – “Agora o filhote é um cão jovem e está pronto para ser treinado. Durante o treinamento, você se determina a fazer com que ele siga firmemente a disciplina [atenção], de uma forma gentil e amorosa.”

Refine – “Agora que seu jovem cão está devidamente treinado, é tempo de refinar suas habilidades [prestar atenção na natureza sutil da respiração].”

Libere – “Seu cão é bem treinado e pode ficar sem coleira… Deixe de lado todo o esforço e permita à mente apenas ser.”

Outra prática interessante proposta no livro é dedicarmos um momento a cada hora para desejar a duas pessoas no nosso local de trabalho que sejam felizes, pensando: “Desejo que essa pessoa seja feliz e que aquela pessoa seja feliz”. A sugestão é uma forma reduzida da meditação da compaixão (em inglês, loving-kindness meditation), pela qual a pessoa produz sentimentos de boa vontade e calor humano em relação aos outros, desejando-lhes o bem.

Ao gerar mais atitudes positivas dirigidas a si e a outrem e mais emoções positivas, a meditação da compaixão pode ampliar o senso de conexão com os outros, melhorar o tônus vagal (referência de saúde car­díaca), reduzir os sintomas de doença, diminuir a depressão e aumentar a satisfação com a vida.

Depois de passar por uma infância complicada (seu pai conseguiu estabilizar-se financeiramente apenas quando o escritor já se aproximava da idade adulta) e por fases em que se considerava inútil e perdido, Meng é um testemunho vivo de que a felicidade, a alegria e o sucesso são estados que podem ser adquiridos.

E conquistá-los só nos traz benefícios, indicam estudos científicos. O humor, por exemplo, alivia sentimentos negativos e situações traumáticas. Rir aumenta o fluxo sanguíneo e fortalece o coração. E a prática do mind­fulness ajuda no tratamento de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático.

Para começar, bastam os seis segundos de uma inspiração e uma expiração conscientes, diz Meng. Com o tempo, fica cada vez mais fácil ampliar os espaços para a alegria e a felicidade (a primeira é um elemento chave da segunda) se imporem. “Não pare e não se tensione”, ressalta o autor. Com perseverança e suavidade, ele afirma, qualquer um pode atingir esses resultados.

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