Mistérios do rio

A morte do ator Domingos Montagner trouxe à tona um fenômeno pouco conhecido: a formação de redemoinhos em rios. Entenda como isso acontece

São Francisco, o rio que levou a vida do ator Domingos Montagner: águas que podem ser traiçoeiras (Crédito: Luciano Andrade)

“A vida imita a arte”. Os manuais do bom jornalismo pregam que se deve evitar a utilização de clichês, já que eles geralmente empobrecem os textos e não acrescentam informações relevantes. No caso da morte do ator Domingos Montagner, no entanto, é quase irresistível apelar para o bordão, já que o artista estava participando de gravações da novela Velho Chico, da Rede Globo, quando se afogou durante um mergulho no rio na cidade de Canindé do São Francisco, em Sergipe.

Na novela, seu personagem, Santo, levou três tiros e foi levado pelas águas do mesmo rio. Santo acabou sobrevivendo. Seu intérprete, no entanto, teve um desfecho trágico e fatal.
No dia 15 de setembro o ator havia gravado algumas cenas pela manhã com os colegas de elenco Camila Pitanga e Gabriel Leone. Após o almoço, Domingos e Camila resolveram tomar um banho de rio. Foram até um lugar conhecido como “prainha”, em Canindé do São Francisco. O motorista que os levava, que não era da região, ofereceu-se para perguntar a algum morador local onde era o lugar mais adequado para banho.

Os atores acharam que não seria necessário, já que a prainha parecia tranquila e era um ponto de encontro de turistas e moradores locais que iam curtir o rio. Mas Domingos e Camila optaram por mergulhar um pouco além da prainha, para terem mais privacidade. Ambos entraram na água, nadaram um pouco, e a atriz percebeu que as correntezas estavam fortes. Tentaram voltar à prainha, mas a água estava puxando muito. Camila conseguiu se segurar em uma pedra. Domingos não conseguia sair do lugar. “Parecia que algo estava segurando a perna dele”, disse Camila em entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo.

A atriz viu o amigo submergir e afundar de novo duas vezes, e então ele não voltou mais. Ela pediu socorro, e uma atendente de um bar local chamou os bombeiros. Segundo o coronel Regnaldo Dória de Freitas, comandante geral do Corpo de Bombeiros Militar de Sergipe, foram cerca de 1h20 de trabalho na água até os três mergulhadores envolvidos na operação encontrarem o corpo de Domingos, a 18 metros de profundidade, preso entre duas pedras. No total, 50 pessoas participaram da busca, entre membros do Corpo de Bombeiros Militar­ de Sergipe, da Polícia Militar e da Polícia Civil de Sergipe, do Corpo de Bombeiros de Alagoas­ e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Sergipe.

Formação comum

Aquele “algo” que segurava a perna do ator, como descreveu Camila, era, acreditam as autoridades envolvidas no resgate e na investigação do caso, um redemoinho. Também conhecidas como vórtices, essas formações de água são muito comuns na região onde Domingos e Camila mergulharam. Os redemoinhos são muito perigosos, pois puxam para baixo o que está em volta deles, como um ralo de pia. Os moradores do local sabem disso e não se arriscam naquele trecho. Mas os atores não tinham noção do perigo que corriam.

Já houve placas de alerta e uma linha com boias na prainha, delimitando a área para banho, além do serviço de salva-vidas. As placas e os profissionais foram retirados pela prefeitura em fevereiro de 2015, para uma obra que reformou os quiosques da prainha. O trabalho terminou em julho deste ano, mas as placas, a linha com boias e os salva-vidas não retornaram.

A usina de Xingó, que “acelera” as águas do São Francisco
A usina de Xingó, que “acelera” as águas do São Francisco (Crédito: Rubens Chaves / Futura Press)

Para o delegado Antonio Francisco Filho, que liderou a investigação do acidente, Domingos conhecia bem a região, já que participou de outra novela, Cordel Encantado, que também teve cenas gravadas em Canindé. “Talvez ele tenha se sentido ambientado e confiante para nadar naquele local”, diz. Segundo o delegado, a faixa de água próxima à prainha não é perigosa e é muito utilizada por moradores e turistas para banho. “A margem ali é baixa e não há correnteza”, diz.

Próximo da prainha há um caminho de pedras, que só aparece quando as águas estão baixas, e que leva a outras rochas no centro do rio. “Foi lá nessas pedras que os atores foram. Ali é perigoso, por causa das correntezas e dos redemoinhos”, afirma. Ainda neste ano, de acordo com Antonio Francisco, outra pessoa morreu na mesma área onde Domingos se afogou. O coronel Dória estima que haja pelo menos uma morte por ano ali.

Até o fechamento desta edição, o inquérito policial que apura o acidente de Domingos Montagner ainda não havia sido encerrado, pois faltava a publicação do laudo oficial do Instituto Médico Legal (IML) que confirmará a morte do ator por afogamento (nota da redação: o IML de Aracaju divulgou, na madrugada do dia seguinte ao dia da morte de Domingos, que o ator havia morrido por asfixia mecânica provocada por afogamento, mas essa informação ainda não é a do laudo oficial).

Sucessão de fatores

São vários os fatores que contribuem para as águas serem tão turbulentas em Canindé (veja quadro na página ao lado). “Aquele trecho do rio é muito peculiar”, diz Arisvaldo Mello Junior, professor do departamento de engenharia hidráulica e ambiental da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. “A declividade do rio é muito grande, ele é muito íngreme e corre por uma área de cânion, ou seja, um vale profundo”, afirma.

Um redemoinho na superfície. Esses turbilhões podem ocorrer em qualquer rio do mundo
Um redemoinho na superfície. Esses turbilhões podem ocorrer em qualquer rio do mundo (Crédito: iStockphotos)

Além disso, o local do acidente fica a cerca de dois quilômetros da hidrelétrica de Xingó, que faz parte de um parque gerador com 10.615,13 megawatts de potência instalada (para efeito de comparação, as 20 unidades geradoras de Itaipu somam 14.000 MW de potência instalada). Como a barragem de Xingó é muito alta (cerca de 120 metros de altura), a água descarregada por ela corre a uma velocidade muito grande.

Essa corrente de água encontra, naquela região, um leito de rio cheio de pedras, buracos (ou sumidouros) e tocas. “A água permeia tudo isso e traz um fluxo muito turbulento e multidirecional”, diz Mello Junior. “É necessário ficar alerta a jusante de rio com barragens (jusante é o caminho do fluxo da água, da nascente para a foz). Não convém nadar nesses locais”, diz.

Afunilamento

Outro fator que influencia as correntezas é o estreitamento que o rio apresenta naquela região. “Quando o rio corre por um canal livre, a velocidade é igual em todas as partes. Se um gargalo se forma, a velocidade da água aumenta para que aquele mesmo volume possa passar por um espaço mais estreito. É uma lei da natureza”, afirma o engenheiro José Carlos de Miranda Farias, presidente da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf). O mesmo acontece quando a água precisa passar entre duas pedras, por exemplo.

A questão da energia que a água carrega também entra nessa equação. Conforme explica Luiz Carlos Fontes, professor do departamento de engenharia de pesca e coordenador do laboratório Georiomar, da Universidade Federal de Sergipe, o rio carrega sedimentos, e parte da energia da água é gasta no transporte desses materiais. Esses sedimentos se depositam nas barragens. Então, quando sai delas, a água vem “limpa” e com mais energia, já que não está mais transportando esses resíduos. “A usina de Xingó é como se fosse uma nova nascente do rio São Francisco”, observa Fontes.

Gargalos como os formados por cânions forçam o aumento da velocidade da água, uma vez que o mesmo volume deve passar por um espaço mais estreito
Gargalos como os formados por cânions forçam o aumento da velocidade da água, uma vez que o mesmo volume deve passar por um espaço mais estreito (Crédito: Nitro Imagens)

Descendo o rio rumo à foz, na direção onde fica a prainha de Canindé, essa energia extra da água vai erodindo os buracos no leito do rio, os chamados sumidouros, retirando areia de dentro dos buracos. Essa erosão também ajuda a formar os redemoinhos. O rio São Francisco, na região de Canindé, também é cheio de rochas, obstáculos dos quais a corrente de água tem de desviar para continuar seu caminho até o mar.

“Se a calha do rio, que é a concavidade por onde a água corre, for estreita, e o rio tem muita água, dependendo da inclinação a velocidade vai ser alta e qualquer desvio vai provocar um turbilhonamento na água”, diz o biólogo e oceanógrafo Gabriel Le Campion, professor de ciências biológicas da Universidade Federal de Alagoas. Ou seja, a água bate no obstáculo e gira, e assim surgem redemoinhos. Para entender a formação dos redemoinhos, imagine que o rio seja o ar e um automóvel em deslocamento seja o curso d’água. Quando passa em alta velocidade, o carro movimenta o ar, e essa agitação é capaz de levantar e girar pequenos objetos, como uma folha de papel. É o mesmo mecanismo que funciona no caso dos redemoinhos na água.

Rapidez e obstáculos

Qualquer rio pode, em tese, formar redemoinhos como o que provocou a morte de Domingos Montagner. “Isso geralmente acontece próximo às margens, onde o fluxo da água é desviado por um obstáculo ou por alterações do perfil do leito”, diz Le Campion. “Mas os rios que têm velocidades de escoamento mais elevadas e obstáculos como rochas tendem a formar vórtices mais ativos”, afirma. O problema, no entanto, é que os vórtices não são sempre visíveis. Em diversos casos eles ficam escondidos, debaixo da lâmina d’água da superfície.

Outra questão foi levantada em uma matéria do site The Intercept, publicada duas semanas depois da morte de Montagner: a possibilidade de que um aumento na vazão do rio provocado pela usina de Xingó no momento em que o ator nadava teria influenciado no acidente. Segundo dados da Chesf levantados na reportagem, a vazão passou de 814 m3/s às 13 horas de 15 de setembro para 913 m3/s às 14 horas e 970 m3/s às 15 horas. Porém, os três pesquisadores entrevistados por esta reportagem acreditam ser muito pouco provável que esse aumento de vazão tenha sido suficiente para aumentar o risco de nadar naquele local de forma significativa.

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Turbilhões por aí

Saiba onde mais os redemoinhos se formam, no Brasil e no mundo

“Qualquer rio pode formar vórtices, pois são processos temporários dinâmicos”, diz o biólogo e oceanógrafo Gabriel Le Campion, professor de ciências biológicas da Universidade Federal de Alagoas. Um exemplo é o rio Ivaí (PR): na confluência de suas águas com as do rio Paraná, ele apresenta o mesmo fenômeno de instabilidade hidrodinâmica com formação de redemoinhos, por causa das diferenças de densidade e pelo atrito entre as correntes dos dois rios. “Fenômeno similar também é encontrado na junção dos rios Negro e Solimões, popularmente conhecido como o encontro das águas”, diz Le Campion.

Outros exemplos de rios onde se formam redemoinhos

Brasil
• Rio Jacaré Pepira, Brotas (SP)
• Rio Parnaíba (PI)
• Rio Mambucaba, Paraty (RJ)
• Rio de Contas, Itacaré (BA)
• Rio Jaguari, Extrema (MG)
• Rio Xingu (PA)

Mundo
• Rio Yangtze (China)
• Rio Brahmaputra (Índia)
• Rio Tista (Índia)
• Rio Jamuna (Bangladesh)
• Rio Vermelho (EUA)
• Rio Mississippi (EUA)
• Rio Niágara (EUA-Canadá)
• Rio Squamish (Canadá)
• Rio Fraser (Canadá)
• Rio Daugava (Letônia)

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Sobrevivendo ao rio

Saiba como tomar um banho de rio com segurança e se salvar caso seja pego por alguma correnteza ou redemoinho

• A primeira providência, antes de entrar em um rio, é reconhecer o terreno. Pergunte a moradores locais onde é mais seguro nadar e observe se há correntezas ou redemoinhos visíveis da superfície. Às vezes, as correntezas ficam abaixo da superfície; por isso, é importante se informar.

• Nunca pule em um rio antes de ter certeza absoluta sobre sua profundidade e características. Você pode bater em uma rocha, pedaço de madeira ou outros objetos.

• Se estiver nadando e sentir um redemoinho puxando-o, mergulhe (não muito profundamente) e nade na direção contrária. Imagine que um redemoinho é um liquidificador em movimento. A parte superior e mais larga do copo do liquidificador seria a parte do redemoinho mais próxima à superfície. Se você mergulhar alguns centímetros, pode escapar do redemoinho por uma área dele onde o diâmetro é menor. “Alguns redemoinhos podem sugar até pequenas embarcações”, diz o coronel Regnaldo Dória de Freitas, comandante geral do Corpo de Bombeiros Militar de Sergipe.

• Se for pego por uma correnteza, nunca tente nadar contra ela. “Encha um pouco os pulmões e flutue, de barriga para cima e com os pés em direção à correnteza”, ensina o coronel Regnaldo. Faça isso até ser direcionado para a margem. Nunca boie com a cabeça em direção à correnteza, pois ela pode bater contra alguma rocha ou outro objeto.

• Se for praticar esportes aquáticos, como rafting ou boia cross, use adequadamente os equipamentos de segurança, como coletes salva-vidas e capacetes.

• Quando frequentar rios em terrenos em declive ou com cachoeiras, fique atento às chamadas trombas d’água. Às vezes chove na cabeceira do rio, o que faz seu volume aumentar rapidamente; em outra região mais para baixo, pode nem estar chovendo ainda e os banhistas não perceberem o que está acontecendo. Fique atento aos sinais: marque visualmente onde está o nível da água. Se ele começar a aumentar, saia da água e avise as outras pessoas. Fique atento também se começarem a aparecer folhas e sujeira na água e se o barulho de água descendo se manifestar.

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