Na terra do Deus do Frio

Livia Monami, escritora e fotógrafa italiana, estréia em PLANETA contando sua estadia com o povo dolgan, na República de Sakha, Sibéria.

Uma balok, casa de madeira sobre patins que serve de residência para os nômades dolgans. À noite, a temperatura interna pode chegar a 22 graus centígrados negativos.

As renas são o sustento dos dolgans, mas a maior parte dos rebanhos não pertence a eles, e sim ao governo.

Viajo à procura dos espaços menos habitados da Terra. Sibéria para mim não são os gulags, a União Soviética, as experiências nucleares, os segredos militares, a história e os comentários feitos por aqueles que a temem e a julgam com base em seu passado. Sibéria é apenas e unicamente um imenso espaço vazio, branco, inexplorado, silencioso, onde vou encontrar o deus do frio e, sobretudo, aqueles poucos heróis no mundo que ainda hoje sabem como enfrentá-lo e vencê-lo. Homens e mulheres de sentimentos fortes, cujas mentes de cristal pensam com dignidade e são capazes de ver claro. Deles, sempre aprendo algo mais sobre a arte de viver e como enriquecer minha vida. Desta vez, meu projeto na República de Sakha é viver com os nômades dolgans durante um longo período.

É dezembro. Na capital, Yakutsk, a temperatura é de 53 graus negativos. Respirar é difícil. Apenas quatro horas de luz solar. Há dez minutos caminho na rua à procura de um táxi, quando um taxista estaciona para me conduzir ao hotel. Nossos olhos se cruzam por alguns momentos e, alarmado, ele começa a gritar e me faz sinal para esfregar meu nariz imediatamente. Olho-me no espelho do carro e o vejo totalmente branco. E eu nem sequer tinha percebido! Foi necessário um bom tempo antes que sentisse a circulação do sangue. Graças àquele homem, em poucos segundos aprendo as primeiras regras imprescindíveis do jogo siberiano: controle contínuo das percepções de todas as partes do corpo.

Depois de dias e dias de longas e extenuantes tratativas, o governo da República de Sakha, ex- Iacútia, me concede todos os tipos de autorização necessários para entrar no distrito de Anabar, onde vivem os dolgans, pastores de renas. A chave que me abre todas as portas é: “Não vim aqui para criticar os povos indígenas do seu país… Ao contrário, quero contar para o mundo o quanto eles são valorosos e preciosos… Contar como vivem na vastidão da tundra em meio a milhares de renas.” O ministro, depois de mais de oito horas de colóquio, olha-me fixamente nos olhos e lê sinceridade no meu rosto. A seguir, faz vários telefonemas.

Criança dolgan montada numa rena. A ausência de brinquedos não tira a alegria dos pequenos nômades.

Dois dias depois, eu, Bold e Maria, meus intérpretes e assistentes, partimos de Yakutsk a bordo de um pequeno avião. Cinco horas de vôo e chegamos a Saskylakh. Somos acolhidos pelos moradores da aldeia com uma cerimônia xamânica propiciatória, e depois um motorista nos conduz ao norte num veículo 4×4, guiando 18 horas sobre a superfície congelada do rio Anabar. Chegamos a Yuriung-Khaia, no Mar de Laptev. Dois nômades esperam para nos conduzir ao seu acampamento: as últimas entusiasmantes sete horas de viagem são passadas num rudimentar trenó de madeira puxado pelo mototrenó de Ivan, o chefe da primeira das três famílias que nos hospedarão na tundra durante os próximos quatro meses.

A Sibéria ocupa 67% do território da Rússia e é habitada por mais de 30 grupos étnicos indígenas. A República de Sakha, com cerca de 3.100.000 km2, é a região mais extensa. Toda ela está dentro da zona do permafrost – solo permanentemente gelado. O estrato ativo superficial – aquele que se derrete no verão para se recongelar no inverno – é de cerca de três metros. O estrato mais profundo, que não se descongelou desde a última era glacial, há cerca de 10 mil anos, varia entre 300 metros e 1.500 metros de profundidade. Não por acaso, está lá, no vilarejo de Oimyakon, o “Pólo do Frio” – o lugar habitado mais frio do mundo, onde foram registradas temperaturas de -71º C.

Um grupo de dolgans posa com Livia Monami (no centro, com casaco azul).

Transcorridas As primeiras duas horas de nossa travessia ártica, usamos um apito para chamar Ivan. Ele pára imediatamente. Para reativar a circulação do sangue nas pernas, aconselha-se fazer movimentos no lugar onde se está. Usamos máscaras de neoprene no rosto, grandes óculos e botas. Devemos nos mover, mas sem transpirar. Ivan mantém o rosto descoberto e o frio parece não o atingir. Move-se rapidamente e as vestes de pele permitem sua agilidade.

Nossa nave de madeira navega num mar encantado: embaixo de nós, os patins afiados do trenó cavalgam infinitas ondas de neve. No silêncio do abismo de gelo, toda a Sibéria, a minha Sibéria, aquela que sempre imaginei pulsar dentro de mim, agora está bem aqui, para me surpreender e me raptar. Suspensa entre o céu e a terra, me entrego, pequena, a esse misterioso e branco nada. No acampamento de Ivan encontramos seu filho, Alexei, de 3 anos, sua mãe, Zinaida, de 56 anos, seu pai, Anufri, de 63, e seu irmão Anufri Júnior, de 24. Sua mulher vem de tempos em tempos da aldeia para se encontrar com ele, trazendo sua filha de oito meses, Svetlana. Em um mês, quando a temperatura subir, ela vai novamente se estabelecer na tundra.

O acampamento é composto de três balok, pequenas casas de madeira equipadas com patins para serem puxadas pelas renas. Parece que o modelo delas foram as casas usadas pelos primeiros mercadores russos de peles. Em cada uma podem viver três ou quatro pessoas no máximo. Dentro estão duas ou três camas de solteiro, ou apenas um único grande leito. Uma pequena janela é fechada com pele de rena; há uma pequena mesa, um aquecedor.

Até o banheiro siberiano é uma cabine de madeira suspensa sobre patins. Para arrastá-lo, bastam duas renas. Dentro, há um buraco escavado na neve e faz muito frio. Ele não fecha completamente. Para permanecer ali o tempo necessário, devo vestir chapéu, luvas e casaco pesado. E devo ser rápida, se não quiser que as partes mais íntimas do meu corpo congelem em apenas três minutos. Antes de ir para a cama, evitamos beber chá, tisanas ou qualquer outra coisa que nos obrigue a sair no meio da noite.

Lavar-se é realmente um optional, mas quando, em certo ponto, isso se torna de fato indispensável, mandamos Bold, único homem da expedição, sair da balok. Esquentamos a água sobre o aquecedor e nos lavamos enquanto ele espera lá fora, no gelo. Mas antes é preciso estarmos seguros de que as provisões de gelo e de lenha são suficientes: os dolgans fazem continuamente viagens de três dias para consegui-los.

É noite, hora de acender as velas. Anufri Júnior vem à nossa balok. Pergunto-lhe: “Se você pudesse ir embora, qual lugar gostaria de visitar?” “Paris!”, ele responde sem hesitar. “Por que Paris?” “Uma vez, quando estava na aldeia, vi na televisão um documentário sobre a Torre Eiffel e gostaria de subir até o alto dela para ver todas as luzes de uma grande cidade…”

Quase 100% dos diamantes extraídos na Rússia provêm da República de Sakha

Amanhã é o dia do karal, a contagem das renas. Muitos homens vieram de outros acampamentos para dormir no nosso e ajudar Ivan e sua família. Cada um exprime seu sonho secreto: Ivan quer ver as pirâmides do Egito, Zinaida quer conhecer os lapões e comparar suas próprias renas com as deles…

“Se lhe dessem um emprego num desses lugares, você iria?”, pergunto, cada vez mais curiosa. Silêncio total. Enfim, Ivan levanta a cabeça, transforma-se em porta-voz de todos os outros e me olha nos olhos com desconcertante segurança: “Não, não deixaremos nunca nossas renas.”

São 11 da noite. Nossos hóspedes começam a ir embora. Quando entramos nos sacos de dormir, o fogo do aquecedor já apagou e, como sempre, a temperatura de noite na balok descerá a -22º C.

O nome dolgan tem origem recente. No final do século 17, quatro clãs da tribo dos evenkis, que vivia nas imediações do rio Lena, na Iacútia, adotaram a língua iacuta (oriunda do grupo altaico de origem turca) e se deslocaram para oeste, no atual Distrito Autônomo de Taimir. Os grupos de nômades que deixaram a Iacútia adotaram a denominação dolgan, do nome de um dos clãs dos quais provinham, mas hoje não se identificam com os evenkis nem com os iacutos. Têm uma língua própria, embora muitos a considerem apenas um dialeto do idioma iacuto. Com exceção dos velhos, falam também russo. São apenas 7.330 indivíduos. Mais de 70% deles vivem na Península de Taimir e o restante ainda mora no distrito de Anabar, na República de Sakha.

Das renas (Rangifer tarandus) os dolgans obtêm peles e sobretudo carne, cujo consumo é muito difuso em toda a Sibéria. No distrito de Anabar há cerca de 20 mil cabeças, 3 mil para cada uma das sete brigadas – os clãs dos pastores de renas. Apesar da queda da União Soviética e do sistema das “comunas”, a maioria das famílias que vivem na tundra recebe um salário diretamente do governo, que ainda hoje é proprietário das renas e visa manter o controle do território dos nômades, riquíssimo em petróleo e em diamantes (99% dos diamantes extraídos na Rússia, que representam um quarto da produção mundial, provêm dessa república).

No entanto, a Federação Russa recentemente aprovou leis que parecem favorecer uma certa independência das populações indígenas. Os dolgans, em teoria, seriam livres para criar associações e constituir cooperativas privadas (a exemplo daquelas dos inuits, no Canadá), por meio das quais poderiam resgatar sua cultura original e salvaguardar a própria economia. Para chegar a isso, os nômades deveriam receber uma ajuda econômica inicial na forma de empréstimos. Mas o governo reduziu os fundos para o desenvolvimento das infra-estruturas sociais e, além disso, ainda não há leis que permitam aos indígenas ter acesso direto aos créditos…

Para chegar incólume ao segundo campo, distante sete horas de trenó do primeiro, Zinaida faz uma surpresa e me empresta suas botas de rena. Meus pés finalmente se sentem em segurança! Aqui tem mais movimento – além das duas mulheres, há três crianças: Sergei e Olga, filhos de Elia e Ana, e Igor, filho de Dimitri e Cátia. Não possuem nenhum brinquedo, mas estão sempre alegres. Correm atrás das renas ou caem por terra, fingindo-se de mortas – devem ter aprendido isso indo à caça com os pais.

Os dolgans amam os espaços abertos. Cada manhã, capturam a laço as poucas renas que permaneceram no campo, atrelam-nas aos trenós e chegam ao rebanho que se afastou, para trazê-lo de volta ao acampamento. Depois, um dia, as renas vão longe demais: é hora de partir. Durante o inverno, os dolgans movem as caravanas a cada 15 dias.

Dimitri permanece fora de casa o dia todo – foi à caça de lobos. Como todos os nômades, ele resiste a até 12 horas seguidas de frio de -46º C. E, difícil de acreditar, quando volta ao acampamento, apenas seus bigodes estão congelados. Está sempre atento, pois os predadores atacam com freqüência o rebanho. Cada vez que morre uma rena, Dimitri deve pagá-la ao governo; para comer, portanto, os nômades caçam renas selvagens ou matam um dos 20 ou 30 exemplares dos quais são proprietários.

Olga cozinha carne de rena. Ela é leve, macia e saborosa. Depois, prepara o pão. O fígado e os rins da rena, crus e congelados, constituem as delícias da tundra. Experimento a cavala straganina, peixe cru congelado. Passo-a no sal. Ótimo! Recupero calor e energia.

Arroz, lentilhas, queijo parmesão e frutas secas são minha reserva de emergência, caso não consiga me adaptar à dieta local. Mas seria inútil. Aqui, não tenho escolha: minha comida vale zero e, se não me alimento como os nômades, me enfraqueço a uma velocidade impressionante.

Observo meu corpo, sei muito pouco sobre minhas reservas. Às vezes perco a cabeça, mando tudo para o inferno e quero apenas dormir depois de uma extenuante jornada de trabalho. Até o ato de comer é cansativo. A seqüência que se deve respeitar é sempre a mesma: cortar o gelo, a lenha, fazê-la queimar no aquecedor, esperar o gelo se dissolver para só então começar a cozinhar. Um tempo às vezes demasiado longo em relação ao cansaço que experimento. Mas o corpo não me pede para comer por simples prazer ou por hábito. O frio me devora cada célula, inclusive as do cérebro, e não é fácil se recuperar. Tenho de ter disciplina. Muita disciplina.

Trifon tem 73 anos e é o mais famoso caçador de raposas brancas da República de Sakha. Tem um rosto inteligente e marcado pelo tempo, os olhos claros falam com uma simples olhada… Vive no terceiro acampamento, com o filho Nicolas e o neto. Perdeu a esposa há muitos anos. Não há mulheres nesse acampamento, os três nômades fazem tudo sozinhos. Trifon tem muito orgulho do seu passado, mas deve se sentir muito só… Todas as noites ele entra na nossa balok e a atenção que lhe damos o faz muito feliz. Vemos isso em seus olhos, que brilham quando lhe preparamos uma refeição ou escutamos com interesse suas histórias de caça, suas aventuras na tundra… Sorri e se comove como uma criança. Gostaria de ficar mais tempo com ele. É como ter ao lado um herói do qual não se cansa nunca de ouvir os relatos e os feitos extraordinários. Seu filho Nicolas tem dificuldade para aceitar o papel desse pai importante que tarda em passar o comando. Ele já tem 30 anos e, como todo nômade verdadeiro, há tempos já aprendeu a encarar os perigos da tundra.

Certo dia, sou tomada pelo entusiasmo de um belo pôr-do-sol, pela chegada de Trifon, que volta de uma caçada, pela imagem maravilhosa que vejo no visor da minha câmera fotográfica. Num instante, esqueço tudo que havia aprendido de importante até então. Estou na Sibéria, na tundra, meu termômetro hoje marca -53º C, o vento gélido me corta o rosto; devo usar a máscara de neoprene, as luvas… “Só um minuto, dou uma corrida e volto, caso contrário Trifon vai embora e perco aquela foto!”, digo a Maria, que, na balok, tenta me convencer a não sair sem aquelas proteções. Nada a fazer. Já estou longe.

Dolgan pastoreia renas na tundra siberiana. Os nômades conseguem resistir ao ar livre por 12 horas seguidas, a uma temperatura média abaixo de 40 graus centígrados negativos.

Cometo um erro. Dois minutos e meio, somente dois minutos e meio! Maria contou o tempo em que estive fora. Agora estou na balok a chorar, tenho metade do rosto congelado. Passam duas horas e meu rosto incha, inclusive ao redor dos olhos…

Estou preocupada, amedrontada. À noite, pergunto a Trifon qual é o melhor método para que meu rosto volte a ser normal. Ele me responde para não o tocar em absoluto, para não fazer nada: o líquido acumulado desaparecerá sozinho, a pele do nosso rosto é delicada e bem irrigada e se reconstitui rapidamente. “Você verá”, me tranqüiliza, “em cinco dias tudo estará normal”. Para me distrair, mostra todas as peles que capturou com suas armadilhas. Compro 16 peles de raposa branca; uma desculpa para lhe dar algum dinheiro, que servirá para comprar remédios.

Hoje é apenas o primeiro daqueles cinco longos dias em que nada tenho a fazer senão esperar. Às 3 da manhã ainda não consegui pegar no sono. Saio da balok. No céu escuro aparece o traçado de uma longa linha branca horizontal. De repente, essa linha cai mais e, ao cair, tinge de branco o espaço percorrido. Empina para o alto, traçando uma infinidade de formas. Enormes. Luminosas. Em toda a parte os “fantasmas” dançam no céu. Há anos os nômades contemplam esse fenômeno. Maria, minha intérprete da Iacútia, vem a mim. Diz que as auroras boreais mais mágicas são as que aparecem em verde e vermelho. Mas ela não sabe que, nessa noite esplêndida, eu já me sinto uma maga…

Onde fica

Divisão federal da Rússia, a República de Sakha (ex-Iacútia) tem uma área de 3.103.200 km2 (pouco menos do que a soma dos territórios do Amazonas, do Pará e do Tocantins), que se estende por três diferentes fusos horários. Cerca de 40% dessas terras estão acima do Círculo Polar Ártico e a temperatura já atingiu -70º centígrados. A população é pequena: segundo o censo de 2002, ela não chega a 950 mil pessoas, das quais cerca de 214 mil moram na capital, Iakutsk. Os iacutos representam a maioria da população (45,54%), seguidos dos russos (41,15%). Os dolgans somam apenas 1.272 pessoas, ou 0,13% do total.

 

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