“O Brasil carece de mais incentivos às mulheres na ciência“

Dois prêmios concedidos por sua pesquisa, que avalia os efeitos da mudança climática na região entre a Amazônia e o Cerrado, tornam a bióloga goiana uma referência para jovens cientistas brasileiras

Fernanda Werneck é mestre em ecologia pela Universidade de Brasília e doutora em biologia integrativa pela Brigham Young University (EUA). Desde 2013 é pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (Foto: Arquivo pessoal)

Aos 35 anos, a bióloga Fernanda Werneck já conquistou fama internacional: única pesquisadora brasileira a receber o prêmio Mulheres na Ciência em sua edição 2017, promovido pela L’Oréal em parceria com a Unesco e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), ela também foi uma das 15 agraciadas na edição internacional da premiação International Rising Talents, ocorrida em março em Paris.

O estudo que a levou a essas conquistas avalia, usando lagartos como organismos-modelo, os efeitos da mudança climática na biodiversidade na região de transição entre os dois maiores biomas da América do Sul, a Amazônia e o Cerrado. A pesquisa está sendo aprofundada com financiamento da United States Agency for International Development (Usaid) e colaboração das universidades de Brasília, do Estado de Mato Grosso e da Califórnia em Santa Cruz. Fernanda fala a seguir sobre esse trabalho e o desafio de jovens mulheres fazerem ciência no Brasil.

PLANETA – O que a levou a se interessar por biologia e ecologia?
FERNANDA – Sempre fui fascinada por vários tópicos dentro da biologia, especialmente biodiversidade e evolução. Durante o ensino médio, eu gostava de estudar biologia, adorava as saídas de campo e aulas de laboratório. Então, uma graduação em ciências biológicas veio como uma decisão muito natural. Logo nos primeiros estágios que fiz tive certeza de que queria seguir uma carreira.

PLANETA – A pesquisa que lhe garantiu o prêmio analisa os efeitos da mudança climática na biodiversidade na região de transição entre a Amazônia e o Cerrado. Para tanto, você utilizou lagartos como organismos-modelo. Por quê?
FERNANDA – Em nossos estudos, procuramos identificar os riscos de extinção, a diversidade genética e a capacidade adaptativa de lagartos da Amazônia e do Cerrado, os dois maiores biomas da América do Sul, e da zona de transição (ecótono) entre eles, que coincide com o Arco do Desmatamento, região de maior pressão de destruição da Floresta Amazônica brasileira. O objetivo principal é quantificar a sensibilidade dos lagartos, que dependem de fontes de calor externas para controlar sua temperatura interna, às mudanças climáticas. Muito suscetíveis, esses animais são considerados organismos-modelo para estudos de ecologia e evolução por vários motivos, como por apresentarem alta diversidade, relativa facilidade de amostras, abundâncias relativamente altas em campo, tempos de geração relativamente curtos e grande diversidade de hábitos de vida. Nessa pesquisa, observamos quais são os limites térmicos extremos em que os lagartos conseguem desempenhar suas atividades motoras usuais e, com base nessa informação, estimar modelos que preveem como cenários climáticos futuros de aquecimento global afetarão as distribuições e diversidade genética das espécies estudadas.

Trabalho de campo: o fascínio pela biologia vem de longe (Foto: Arquivo pessoal)
Trabalho de campo: o fascínio pela biologia vem de longe (Foto: Arquivo pessoal)

PLANETA – Quais foram suas conclusões?
FERNANDA – Até o momento, verificamos que populações amazônicas de algumas espécies de lagartos possuem maior flexibilidade nos seus limites térmicos críticos quando comparadas a populações localizadas na transição Amazônia-Cerrado, o que poderia indicar uma maior amplitude adaptativa. É possível que as amplitudes menos variáveis e limites críticos mais altos de populações do ecótono tenham resultado de uma pressão seletiva maior imposta pelo ambiente. Para responder melhor a essas questões, estamos expandindo o enfoque da pesquisa a fim de incluir a coleta de dados genômicos de última geração (Next-gen) e testar o papel de elementos da paisagem do ecótono em determinar a variação da diversidade genética e em selecionar regiões do genoma, o que poderia indicar potencial adaptativo diferencial aos efeitos de mudanças climáticas.

PLANETA – Há risco de extinção de espécies?
FERNANDA – A velocidade das mudanças climáticas e do aquecimento global é um aspecto importante de por que estudar o aspecto genético. Em respostas às mudanças climáticas, as espécies podem ter algumas respostas além de só serem extintas. Por exemplo, algumas espécies podem mudar suas distribuições de acordo com a adequabilidade da temperatura. Se, ao longo do tempo, as temperaturas mais altas vierem para o sul e a espécie precisar de temperaturas mais altas, os animais conseguirão seguir as temperaturas adequadas a ela. Mas, para essas espécies seguirem tais ambientes climáticos, precisam ter várias características, como um considerável potencial de dispersão e tempo suficiente para tal. Outra resposta seria passar por processos adaptativos, que é o que pretendo quantificar. Se as populações têm uma diversidade genética que permita que certos indivíduos possam ser selecionados, precisamos ter diversidade e conectividade de paisagem para que eles cheguem às regiões com temperaturas ideais. Queremos entender qual a resposta que as espécies podem ter, mas, se as mudanças climáticas forem tão rápidas a ponto de não dar tempo de haver um processo seletivo ou mudança nos padrões de distribuição, poderá ocorrer um colapso populacional capaz de causar a extinção local de populações e mesmo a perda de diversidade. O risco de que as populações de lagartos passem por colapsos existe; buscamos quantificá-los e avaliar os potenciais impactos na diversidade evolutiva.

PLANETA – Qual é a importância de conquistar esses prêmios como o da L’Oréal-Unesco?
FERNANDA – Os prêmios L’Oréal-Unesco-ABC para Mulheres na Ciência e International Rising Talents For Women In Science incentivam e reverenciam o trabalho de mulheres cientistas em diversas áreas do conhecimento no Brasil e no mundo. É uma grande honra e um reconhecimento muito importante para minha carreira, além de uma oportunidade única de promover o papel das mulheres em diversas áreas da ciência e comunicar sobre a pesquisa que desenvolvo com meus estudantes e colaboradores para diversos setores da sociedade. Acredito que, com o prêmio, posso ajudar a dar maior visibilidade às contribuições que as cientistas latino-americanas fizeram para a pesquisa de biodiversidade e evolução neotropical, e espero também inspirar jovens estudantes.

Em laboratório: trabalhar fora do Brasil nunca foi opção (Foto: Divulgação)
Em laboratório: trabalhar fora do Brasil nunca foi opção (Foto: Divulgação)

PLANETA – Como é fazer ciência no Brasil hoje?
FERNANDA – De modo geral, a região Norte, assim como o restante do país, ainda carece de mais incentivos às mulheres na ciência. Incentivos e ações podem passar por discussões abertas sobre o desequilíbrio de gêneros na ciência, divulgação de estatísticas relevantes (por exemplo, instituições deveriam divulgar os números de pesquisadoras em cargos efetivos, número de projetos financiados e bolsas de produtividades nos quais pesquisadoras foram contempladas, etc.), orientação para se detectar e abordar o viés de gêneros, promoção de cargos que respeitem os direitos de maternidade e incentivos que facilitem a permanência da mulher na ciência.
Fiz meu doutorado pleno nos Estados Unidos entre 2007 e 2012. São ambientes distintos, mas de modo geral a questão de desequilíbrios de gêneros me parecia mais conhecida e discutida lá, onde várias universidades e instituições possuem fóruns e grupos de trabalho incentivando e promovendo o papel de mulheres na ciência. Mas, apesar de todos os desafios envolvidos com o desenvolvimento da pesquisa no Brasil, nunca considerei a possibilidade de trabalhar no exterior. Sinto que aqui e posso fazer uma grande diferença desenvolvendo pesquisa de qualidade e contribuindo para a qualificação de futuras gerações de cientistas.

PLANETA – Quais são os principais obstáculos ao trabalho de jovens cientistas no Brasil hoje?
FERNANDA – Não é fácil os jovens cientistas estabelecerem um ‘lugar ao sol’ porque, em geral, assumimos cargos de pesquisadores e/ou professores sem um suporte para iniciar nossos laboratórios e linhas de pesquisas. Muitas vezes, nem mesmo a infraestrutura básica está disponível para os recém-contratados. Além disso, com os enxugamentos por que muitas instituições passam, é comum que jovens cientistas recém-contratados tenham de assumir muitas responsabilidades administrativas e de ensino que tomam grande parte de suas cargas horárias e dificultam o desenvolvimento da pesquisa em um momento crítico de suas carreiras. E como a maior parte das instituições carece de contratações mais frequentes em várias linhas de pesquisa, a entrada de novos pesquisadores é essencial para que o ambiente acadêmico-científico seja sempre rico e renovado.

PLANETA – Como você avalia a participação das mulheres na ciência brasileira hoje?
FERNANDA – Muitas meninas têm interesse e entram em cursos em áreas de ciências, mas, ao longo da progressão da carreira (ou seja, mestrado, doutorado, pós-doutorado), um maior número de mulheres muda de área ou assume posições que dificultam sua progressão a posições de liderança científica. Atingir sucesso na carreira científica, geralmente dominada pelos homens, é um desafio para as cientistas do mundo inteiro.

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