O fator humano

Os geólogos estão cada vez mais próximos de validar o início do Antropoceno, a idade do homem, marcada entre outros aspectos pela poluição do ar e da terra

No “dia” que condensa os 4,6 bilhões de anos da história geológica da Terra, o homem moderno só aparece quando faltam três segundos para a meia-noite, mas sua capacidade de alterar ecossistemas tem se mostrado indiscutível. Tão grande é o impacto de suas ações que, há alguns anos, um grupo de geólogos começou a discutir se não seria hora de estabelecer uma época específica para o Homo sapiens.

Com gente habituada a lidar com etapas que podem durar centenas de milhões de anos, é compreensível que nenhuma mudança surja de repente, mas o processo tem avançado e deu mais um passo importante no fim de agosto, durante o Congresso Geológico Internacional realizado na Cidade do Cabo (África do Sul). Em uma apresentação no evento, o geólogo inglês Colin Waters, da British Geological Survey e secretário do Grupo de Trabalho do Antropoceno (AWG, na sigla em inglês), disse aos colegas que já existem evidências suficientes para encerrar a atual era geológica, o Holoceno (que durou cerca de 12 mil anos), e reconhecer uma nova, o Antropoceno – a “idade recente do homem”.

Entre essas evidências estão elementos radiativos originários de testes nucleares, a elevada concentração de gás carbônico na atmosfera, os altos níveis de nitrogênio e fosfato no solo (resultado do uso de fertilizantes na agricultura) e a poluição causada por plástico, alumínio e concreto. Duas outras, mais inusitadas para os geólogos do futuro, são a proliferação mundo afora de galinhas domésticas e de vasos sanitários.

Mudanças perenes

O termo “Antropoceno” não é novo: foi criado nos anos 1980 pelo biólogo norte-americano Eugene Stoermer e popularizado a partir de 2000 pelo químico holandês Paul Crutzen, vencedor do prêmio Nobel de 1995. Para alguns cientistas, a palavra soa excessiva, um reflexo da soberba da raça que tem “apenas” 200 mil anos de idade. Mas Jan Zalasiewicz, geólogo da Universidade de Leicester (Inglaterra) e presidente do AWG, rebate o argumento: “Uma crítica do Antropoceno como geo­logia é que ele é muito curto. Nossa resposta é que muitas das mudanças são irreversíveis”.

Agricultura intensiva (ao lado) e consumo disseminado de frango (acima): sinais da atuação humana
Agricultura intensiva (ao lado) e consumo disseminado de frango (acima): sinais da atuação humana

Os 35 cientistas do AWG passarão entre dois e três anos para determinar quais sinais dessas mudanças são os mais fortes e nítidos e definir um local para o início do Antropoceno. (Não são datas que definem divisões geológicas, mas um limite específico entre camadas de rocha – ou, no caso do Holoceno, uma fronteira entre duas camadas de gelo em um núcleo extraído da Groenlândia e hoje armazenado na Dinamarca.) Na mira estão, por exemplo, lugares onde se formam camadas anuais de sedimentos de lama ao largo da costa da Califórnia, sedimentos em lagos, núcleos de gelo da Antártida, corais, anéis de árvores e até camadas de lixo em aterros sanitários.

Uma vez que tenham sido montados, esses dados serão formalmente apresentados a um grupo seleto de estratígrafos (geólogos especializados no estudo da formação e disposição dos terrenos estratificados, aqueles que se apresentam em camadas sucessivas) e o Antropoceno poderia ser adotado oficialmente em poucos anos. Para Zalasiewicz, isso pode acontecer ainda antes de 2020. “Se tivermos muita sorte e alguém surgir com, digamos, um núcleo de um exemplo clássico de sedimentos laminados em um ambiente marinho profundo, acho que três anos são um intervalo possivelmente viável”, avalia.

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