O futuro da internet

Há 25 anos a internet revolucionou o cotidiano do planeta. Agora, um novo estudo americano enfrentou a capciosa tarefa de prever como será a próxima década da rede mundial.

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Em apenas 25 anos de existência a internet mudou a vida das pessoas de todas as partes do mundo, deu uma nova dinâmica aos negócios e vem redesenhando a forma de fazer política. Nem mesmo Tim Berners- Lee, o físico e cientista da computação britânico que concebeu a World Wide Web (WWW), em 1980, no Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (CERN), em Genebra, imaginou, nos sonhos mais audaciosos, tamanho impacto. Mas, sem dúvida, sua decisão original de não cobrar royalties e de defender uma rede aberta, padronizada e neutra garantiu que a internet pudesse chegar a ser o que é hoje.

Em janeiro passado, o Pew Research Center, com o apoio da Universidade Elon, do Estado norte-americano de North Carolina, decidiu tentar prever o futuro da rede. Nada menos do que 2.558 especialistase desenvolvedores de tecnologia da informação foram consultados. As respostas abertas oferecem um verdadeiro exercício de futurologia para os próximos dez anos. 

Veja o que esperar daqui para a frente e as 15 principais tendências de desenvolvimento da web identificadas pelo estudo. Elas não aparecem em ordem de prioridade, mas estão reunidas sob a conotação que carregam – oito trazem perspectivas positivas, seis apresentam tons bastante preocupantes e uma é neutra. 

Saúde sob monitoramento

A “realidade aumentada” (resultante da interação entre objetos virtuais e a imagem de um ambiente real) e a “tecnologia de vestir” (pulseiras, relógios de monitoramento e óculos-computadores) serão usadas para se obter feedback instantâneo na área da saúde. Sensores espalhados pelas residências e pelo ambiente de trabalho, assim como dispositivos de medição dos sinais corporais em contato com a pele, afetarão o estilo de vida e detectarão riscos à saúde e doenças, além de ajudar a adequar a dosagem de remédios. 

Mais cidadania, menos ignorância

A disseminação da internet vai reforçar as relações pessoais e aumentará o nível cultural dos indivíduos. Por representar uma forma de comunicação barata com qualquer pessoa, independentemente de onde ela se encontre geograficamente, deve reduzir a falta de conhecimento sobre o mundo. A posição, ditada pela tevê, de espectador da “aldeia global” será substituída pela postura de “aldeões ativos”,
graças à evolução da web. 

Internet = eletricidade

Na próxima década, a web vai estar tão incorporada às atividades do dia a dia, tão onipresente (ubíqua), que será invisível, como a eletricidade. Normalmente, lembramos da nossa dependência de energia elétrica quando ela falta e não é possível usar o elevador, a tevê ou acender a luz. Em dez anos deixará de existir a concepção de “conectar-se”. Vários aparelhos do cotidiano estarão todo o tempo online. 

Mil e uma internets

A internet se multiplicará em muitas “internets”. A web será fragmentada em diferentes redes com formas de acesso, sistemas e princípios diferentes, ditadas por motivos de segurança, políticas públicas, regras corporativas e pela constante busca do ser humano por formas melhores de fazer as coisas. A rede global continuará a existir, mas seus conteúdos vão trafegar em diferentes “canais”. 

Consciência e atitude ampliadas

Três tecnologias tornarão as pessoas mais conscientes do mundo e de si mesmas. São elas: a possibilidade de explorar grandes volumes de dados (o mecanismo conhecido como “big data”); os dispositivos do dia a dia conectados à rede, como relógios e geladeiras (o diálogo tecnológico da chamada “internet das coisas”); e os programas capazes de desenvolver raciocínios quase humanos (a inteligência artificial). 

Sala de aula democrática

A disseminação do conhecimento e da cultura em um nível nunca imaginado torna viável a democratização da educação em qualquer lugar do planeta. Uma revolução educacional possibilitada pela internet promete garantir mais oportunidades para o aprendizado com menos gastos em infraestrutura física e menor demanda por professores. 

Inteligência coletiva sem fronteiras

O crescimento da “ubernet” (uma superinternet superpotente) diminuirá a relevância das fronteiras tradicionais, físicas e sociais. Deverão surgir “nações” de pessoas com os mesmos interesses, que estarão além do controle exercido pelos governos territoriais. Problemas globais como a mudança climática, acidentes transnacionais e a prevenção de questões globais de saúde serão solucionados graças aos novos “superpoderes” individuais e coletivos. 

Conexão direta com a política 

Quanto maior for a porcentagem da população conectada, maior será a consciência política e o ativismo. Com o uso crescente de dispositivos móveis e de aplicativos de compartilhamento de informações, as pessoas ganharão mais voz, podendo expressar seus descontentamentos. Com a maior facilidade de articulação entre elas, tanto mudanças pacíficas quanto revoltas (como a Primavera Árabe) irão acontecer com frequência, permitindo a formação de sociedades mais transparentes e participativas.

Meios para praticar o mal

Apesar de a web ter transformado o dia a dia das pessoas nos últimos 25 anos, a natureza humana permanece a mesma – para o bem e para o mal. Discriminação, bullying, estupidez, assédio, pornografi a, truques sujos e crime existem no mundo real e no virtual. A internet oferece ferramentas para quem quiser fazer da vida dos outros um inferno. Com o anonimato e a ausência decontato cara a cara, a maldade pode ganhar mais espaço e escala.

Perigos da disparidade

A disparidade entre “os que têm” e “os que não têm” pode ser potencializada pela internet, gerando mais confl itos. As redes sociais tendem a amplificar o ressentimento e, possivelmente, a violência, pois extravasam e espalham o sentimento de fracasso e as queixas de maus-tratos dos segmentos menos privilegiados econômica, social e culturalmente. Quanto maiores as possibilidades da internet, tanto pior para quem estiver fora dela. 

Privacidade, artigo de luxo

As pessoas continuarão – a contragosto – trocando sua privacidade por conveniência e ganhos imediatos. Quanto mais dados a rede coletar durante a navegação, melhor ficarão as previsões da Web sobre os interesses de cada um. Assim, ela entregará informações deduzidas a partir de indicadores dos diferentes perfis traçados. O risco é que, assim, seja desestimulada a busca autônoma de conhecimento. A privacidade acabará restrita a uma elite tecnológica, que saberá como preservá-la.

Mudança de paradigmas

A maior parte das pessoas ainda não se deu conta das mudanças geradas pelas redes de comunicação. Mas elas serão mais perceptíveis e perturbadoras no futuro. A compreensão sobre a condição humana e a vida social e política tende a mudar, mas não se sabe como. O grande impacto da web já é perceptível, mas vai se acelerar.

Instrumento de controle de massas

Pressionados pelas mudanças virtuais, governantes e empresas tentarão reafirmar seu poder apelando para a necessidade de segurança e moral social. Em alguns casos, terão sucesso, porque muitos parecem dispostos a navegação livre – com seus riscos intrínsecos – por ambientes mais estruturados e regulados. Governantes e corporações devem se tornar mais eficientes em usar a rede como um instrumento de controle político e social. 

Adaptabilidade à prova

O ser humano e as estruturas sociais talvez não respondam rápido o suficiente aos desafios apresentados pela reorganização induzida pela rede. Ainda é pequena a atenção dada ao aspecto geopolítico da internet. Da mesma forma que podem unir extremos do mundo, as mídias digitais prometem criar rachas nas relações entre e dentro dos Estados. Albert Einstein dizia que“as nossas tecnologias superaram a  nossa humanidade”.

A melhor maneira de prever o futuro é inventá-lo

Segundo o Pew Research Center, este é mais um conselho do que uma tendência: as escolhas feitas hoje moldarão o futuro. As possibilidades são enormes. Há esperanças positivas. Com essa mesma tecnologia que pôs a vida de cabeça para baixo, pode-se construir um mundo novo. 

 

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Lado negro da força

Os trilhões de páginas encontradas pelo buscador Google formam só uma parte “superficial” da internet, visível a todos. Ela representa cerca de 20% de tudo o que está na rede. Onde estão os outros 80%? Resposta: em diferentes camadas ocultas. Uma delas guarda informações secretas de governos e redes fechadas de organizações e universidades, por exemplo. Outras formam oporão da internet e escondem um mundo obscuro, conhecido como “Deep Web”, cujo conteúdo é imoral, ilegal e grotesco. São os sites de pedofilia, os fóruns sobre canibalismo, de venda de remédios controlados, tráfico de drogas, armas, encomenda de crimes, clubes de tortura e vídeos de assassinatos reais. O acesso é feito por meio de um único navegador específico que garante anonimato ao internauta tornando-o praticamente impossível de ser rastreado. O risco é todo do usuário. Na verdade, acessar o submundo da Deep Web, por si, já é praticamente um crime. 

 

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