Orgulho e evolução

A ciência revela que tanto o orgulho genuíno, surgido de feitos elogiados pela comunidade, quanto a arrogância, o auto- engrandecimento à custa dos outros, têm explicação na história evolutiva

Muitos arrogantes e orgulhosos genuínos tornam-se líderes (Foto: Eclipse_images)

Ter orgulho é algo negativo? Para quem vê nele o oposto de humildade, a resposta é sim. Em termos evolutivos, porém, o orgulho é uma emoção positiva e necessária para crescermos, afirma a psicóloga americana Jessica Tracy, professora associada da Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e autora do livro Take Pride: Why the Deadliest Sin Holds the Secret to Human Success (“Orgulhe-se: Por que o pecado mais mortal é o segredo do sucesso humano”, em tradução livre, lançado em 2016 pela Houghton Mifflin Harcourt). Ao estimular cada pessoa a extrair o melhor de si, ele estimula a criatividade e o altruísmo e tem impulsionado a humanidade a sobreviver e progredir em sociedades cooperativas.

A postura típica do orgulho – cabeça para trás e um leve sorriso – é reconhecida em todos os povos da Terra, diz Jessica. Ela evidencia que o indivíduo se destaca em um universo de valores aceito pela sociedade e, graças a essa perícia, vira modelo para crianças e adultos. É também um incentivo para trabalharmos duro a fim de sermos reconhecidos por nossa comunidade. “O orgulho faz com que nos preocupemos com o modo como os outros nos veem e – tão importante quanto – como vemos a nós mesmos”, afirma Jessica. “Isso faz com que queiramos nos sentir bem em relação a nós mesmos e nos certifiquemos de que os outros nos olham, nos admiram e nos veem como competentes e poderosos.”

De acordo com a psicóloga, aqueles que vivenciam regularmente o orgulho tendem a ser “extrovertidos e amigáveis, agradáveis, calmos e livres de ansiedade, criativos e populares” e “em geral são orientados para a comunidade, o que significa que valorizam seus relacionamentos e amizades”. Em um dos estudos que ela cita para nos mostrar como o orgulho nos afeta em termos sociais e comportamentais, os pesquisadores induziram os alunos participantes a sentir orgulho dizendo-lhes que suas notas em um teste cognitivo maçante haviam sido altíssimas. Mais tarde, esses alunos despenderam em um trabalho voluntário, relativo a um problema distinto, o dobro do tempo gasto pelos estudantes não induzidos a sentir orgulho pela pontuação obtida. Para os pesquisadores, o orgulho impulsionou o primeiro grupo a perseverar no trabalho.

Relações tensas

A face escura do orgulho vem quando ele surge despido de mérito e com os contornos da arrogância, diz Jessica: é o húbris, o autoengrandecimento à custa de outros, baseado no esforço para superar a insegurança interna. Segundo ela, inflar a própria importância, pleitear crédito por feitos alheios, intimidar os outros ou agir de modo hostil e agressivo contra quem o questiona indica que o orgulho virou arrogância e oculta uma personalidade narcisista ferida. Mais vulneráveis à vergonha, aqueles que manifestam húbris “tendem a ter relações tensas e poucos amigos próximos.”

Donald Trump: personificação do arrogante, segundo Jessica Tracy (Foto: AFP)
Donald Trump: personificação do arrogante, segundo Jessica Tracy (Foto: AFP)

Para Jessica, o novo presidente americano, Donald Trump, personifica bem o arrogante, pois se vangloria de coisas que não fez e reage agressivamente contra quem coloca suas realizações em dúvida. Como, então, ele venceu a eleição? Em seus estudos, a psicóloga descobriu algo favorável a Trump: os membros do grupo que exibem tanto orgulho genuíno quanto arrogância são frequentemente indicados como líderes. (Não fosse assim, o húbris seria eliminado na história evolutiva, explica ela.) Em geral, os arrogantes se saem melhor em trabalhos de grupo que exigem raciocínio dedutivo, mesmo que os membros desse grupo tendam a não gostar dele. Já os líderes que exibem orgulho genuíno têm mais sucesso em tarefas relacionadas a criatividade ou inovação e tendem a ser mais benquistos pelos que os cercam.

Jessica afirma que a arrogância deixa pistas, como sentir a necessidade de viver segundo as expectativas alheias e mentir ou trapacear para ganhar admiração. Foi essa a trajetória, por exemplo, do ciclista americano Lance Armstrong, que se dopou sistematicamente para vencer. Para evitar esse risco, diz a psicóloga, cada um deve sempre manter o equilíbrio quando for elogiado. Deve ainda ter consciência das ocasiões em que dá crédito exagerado a seus feitos e moderar as manifestações emocionais de orgulho diante dos entes queridos.

“Quando começamos a receber os benefícios externos do nosso orgulho autêntico – sejam eles aumento do status, fama ou fortuna –, torna-se extremamente fácil esquecer que esses resultados são consequências indiretas de se esforçar para ser um certo tipo de pessoa”, ressalta Jessica. “A tentação de esquecer… e, em vez disso, fazer o que for necessário para obter essas recompensas – mesmo que isso signifique trapacear, mentir ou fingir – é forte.”

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