Reflorestamento de valores

Em seu novo livro, Não Há Tempo a Perder, Amyr Klink mostra como os bastidores de suas viagens pelo mundo podem ajudar a entender mais sobre o Brasil atual e a melhorá-lo

Ele já viajou por todo o planeta, mas seu tema preferido hoje é o Brasil. “Eu poderia morar em qualquer lugar do mundo, mas quero viver no Brasil que eu construir. Tudo aqui tem oportunidade de melhorar.” Não se engane, essa não é a introdução de um discurso ufanista.

O empresário e navegador Amyr Klink é bem crítico em relação ao povo brasileiro, como fica evidenciado em seu recém-lançado livro (em parceria com Isa Pessoa) Não Há Tempo a Perder (editado pela Foz/Tordesilhas), que aborda os bastidores das suas viagens, o antes e depois delas. A metralhadora giratória do autor não poupa o impressionante rol de mazelas do Brasil, como a sujeira, a limitação de ideias, a burocracia e a corrupção.

“O Pedro Hertz, da Livraria Cultura, foi muito criticado por dizer que o brasileiro tem índole de ladrão, mas concordo plenamente com ele”, diz o navegador. “Em cada ação, estamos sempre querendo tirar o nosso. Furar a fila do cinema, parar o carro em cima da faixa, pilhar um caminhão acidentado… Esse não é o país que eu quero.”

Lastreado em seus estudos e vivências nos quatro cantos do planeta, Amyr Klink sublinha que sempre é possível mudar para melhor. “Dois países que hoje são referência ambiental, Austrália e Nova Zelândia, destruíram muito patrimônio nessa área. Em termos éticos, a Austrália era o país dos degredados da Inglaterra, e a Nova Zelândia, o país dos degredados desses degredados… E olhe a cultura de fazer bem feito que esses países têm agora.”

Reconhecendo-se um leigo na área, Klink é cauteloso ao falar dos problemas causados pelo aquecimento global. “Tem havido modificações de dez anos para cá, como mudança na direção dos ventos, mas em relação a gelo e degelo, por exemplo, acho que o período é muito breve para concluirmos qualquer coisa.” Segundo ele, há questões muito mais gritantes a tratar, como processos de urbanização, deterioração das cidades, legislação ambiental que fecha os olhos para todos os tipos de equívocos.

“Saneamento deveria ser uma questão estratégica no Brasil e não é. Dá vergonha ver que em Maceió, por exemplo, a principal praia está totalmente contaminada por esgoto. E achei ótimo o desastre da Samarco, porque finalmente mataram o rio Doce. Ele foi torturado por anos, mas ninguém fazia nada a respeito. Agora que a Samarco aterrou o rio, algo vai ter de ser feito.”

O empresário no Brasil é um herói por tentar fazer negócios e gerar empregos em um ambiente tão hostil, ressalta Klink. “Com a nossa burocracia, tudo é difícil de fazer. Qualquer obra pública depende de molhar a mão de político, algo que não faço. Mas podemos mudar isso. O agronegócio brasileiro, por exemplo, está sendo feito direito e anda com as próprias pernas.”

O tema sustentabilidade, para o navegador, está muito menos ligado à preservação da floresta (embora ele mantenha muitas áreas virgens adquiridas pelo seu pai até hoje) do que ao reflorestamento de valores de cidadania, algo básico para as mudanças desejadas. “Escrevo livros e dou palestras onde posso falar o que quero. Essa é a minha forma de fazer política. Sinto que hoje há um inconformismo que considero saudável.”

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