Santa desordem

Mesas atulhadas de papéis e aposentos desarrumados não são sinônimo de insucesso – com frequência, aliás, eles podem indicar exatamente o contrário. Mas até na bagunça existe uma certa ordem para a criatividade aflorar

O que pode existir em comum entre Albert Einstein, Steve Jobs, Mark Twain e Mozart? Por incrível que pareça, todos eram desorganizados e bagunceiros. Suas mesas e armários tinham papéis acumulados e, por isso, acreditava-se que eles eram mais criativos. Para os organizados de plantão, seria o caos ver como esses gênios viviam e criavam suas obras de arte.

Todos sabemos que a criatividade não obedece às regras – ela aparece livremente nos momentos em que menos esperamos e estamos mais à vontade. Mozart descreveu assim os momentos em que seu processo de criação ocorria: “Quando me sinto como se fosse completamente eu mesmo, inteiramente só e com boa alegria, digamos, viajando em uma carruagem, ou caminhando depois de uma boa refeição, ou durante a noite quando não consigo dormir. É nessas ocasiões que as minhas ideias fluem melhor e mais abundantemente. De onde e como elas vêm, não sei; tampouco posso forçá-las”.

A partir da esquerda, três exemplos de bagunceiros criativos: Mozart, Albert Einstein e Steve Jobs (Fotos: iStock e Divulgação)

A desordem pode ser boa para alguns, e isso depende exclusivamente de uma referência e vivência pessoal, explica a psicanalista Adriana Barros. “Há pessoas capazes de se encontrar frente a um quarto todo desarrumado, ou de um guarda-roupas sem repartições, ou mesmo de uma mesa de trabalho entupida de papéis, livros, rascunhos, e nada parece incomodá-las”, observa. “Para outros, isso seria a morte. E onde estaria a razão para isso tudo? No nosso interior, na maneira como fomos construindo nossas relações com os outros seres. Não há uma regra específica, uma regra única.”

Durante muito tempo se pensou que a organização era o ponto primordial para melhorar a produtividade e, consequentemente, os processos de criação. Essa ideia tem sido muito questionada. “Só nos faz mal aquilo que nos paralisa, impedindo nosso potencial criativo de se manifestar”, observa Adriana. “Se por exemplo, passo horas e horas organizando minha mesa de trabalho e não consigo partir para a ação criativa, isso pode vir a ser negativo. Tudo aquilo que me impede de ir além, de criar, de alcançar o novo e de me impulsionar para meu crescimento é negativo, prejudicial. Caso contrário, é apenas mais um aspecto desse mundo tão variado, complexo e indescritível do que vem a ser o ser humano, a pessoa ou, poderia dizer, o ser nu-mano, assim como veio ao mundo”.

Bagunça perfeita

Uma pesquisa recente demonstrou que a desordem é uma fonte de criatividade. A constatação tem o respaldo de Eric Abrahamson, professor de Administração da Universidade de Columbia, e David H. Freedman, autores do livro Uma Bagunça Perfeita: Como aproveitar as vantagens da desordem (lançado no Brasil pela editora Rocco). Eles constataram que escritórios assépticos e mesas limpas estão longe de originar as melhores ideias e levar­ a prosperidade às empresas.

Abrahamson e Freedman defendem a existência de uma bagunça perfeita, capaz de garantir a criatividade e, consequentemente, o sucesso de projetos, pessoais e corporativos. Em reforço à teoria dos autores, pesquisadores da Universidade de Minnesota (EUA) concluíram, depois de simular diferentes condições de trabalho, que as pessoas que trabalham em mesas limpas e arrumadas se conformavam mais com as convenções. Por outro lado, as pessoas desorganizadas produziram soluções mais inovadoras e se mostraram mais abertas para experimentar produtos novos.

Mesas limpas e arrumadas são características de pessoas que se conformam mais com as convenções (Foto: iStock)

Um número cada vez maior de especialistas concorda com Abrahamson e Freedman. Entre eles está Daniele Milagres, psicóloga da Clínica & Professional Coach­ e membro da Sociedade Brasileira de Coaching. Ela afirma que o excesso de organização e o planejamento excessivo podem bloquear o processo criativo e da imaginação. Para Daniele, as pessoas que trabalham em mesas cobertas de papéis, livros e documentos podem apresentar resultados muito favoráveis por ter mais habilidade em lidar com os imprevistos que surgem no dia a dia das empresas e mesmo no cotidiano de cada um.

Flexibilidade

“A bagunça pode ser um meio de descoberta, inovação e mudanças por meio de novas conexões e formas de utilizar os materiais disponíveis”, afirma a psicóloga. “Certas organizações possuem tantas regras e normas que acabam impedindo que bons negócios se fechem, ou burocratizam tanto as ações que acabam tornando os procedimentos mais lentos. Uma forma de aproveitar melhor a desordem é flexibilizar o tempo, a organização, as oportunidades diante dos improvisos que surgem ao longo do dia.” Podemos utilizar a desordem a nosso favor no sentido de nos libertarmos de comportamentos tradicionais, gerando novas percepções.

Paulo Fernandes, CEO da ABlab, agência especializada em marketing digital, extraiu boas expe­riências de uma nova maneira de produzir e lidar com a organização ou a desorganização no trabalho. “A desordem tira a pressão dos processos e convenções de ambientes profissionais. Diminui o impacto dessa pressão nos colaboradores e times técnicos e de negócios. A menor pressão tem por consequência imediata um aumento na criatividade dos colaboradores, que passam a mirar menos entregas focadas em prazos e mais entregas com foco em eficiência, produtividade e performance.

Prazos mais flexíveis, ausência de hierarquia, liberdade na tomada­ de decisão, ausência de código de conduta e de vestimenta liberam espaço no ‘banco de estresse’ do ser humano, que passa a trabalhar mais leve”, afirma. O sucesso do modelo adotado na ABlab é visível nos números: com apenas dois anos de história, a start­up tem atualmente 40 colaboradores e fatura mais de R$ 4 milhões por mês.


Como ganhar com a desordem

Para tirar o melhor proveito da desordem positiva, a psicóloga Daniele Milagres indica quatro passos importantes. Siga-os e se dê bem.

1) Mantenha o diálogo
É importante conversar com seus colegas de trabalho ou mesmo com as pessoas que moram com você. Ignorar a situação não irá resolvê-la – vocês precisam enfrentá-la com respeito e muita conversa. A bagunça pode causar sensação de estresse e ansiedade nas pessoas naturalmente organizadas. Por outro lado, ter alguém constantemente reclamando dos hábitos menos organizados pode gerar o mesmo efeito de desconforto. “Separe um tempo para conversar e definir claramente quais os objetivos e deveres de ambas as partes, comprometendo-se com os resultados, cada um na sua forma particular de lidar com as coisas”, aconselha Daniele.

2) Respeite os espaços comuns e individuais
Os espaços comuns devem seguir as regras de organização do local; já os espaços individuais, como salas ou baias, bem comuns nos ambientes corporativos, podem seguir a lógica de organização de cada indivíduo, sempre com limites. Por exemplo, pôr água em uma garrafa de vodca, na mesa por onde passam clientes, pode transmitir uma postura pouco confiável do funcionário. Outra coisa importante é manter os espaços limpos – algumas pessoas confundem sujeira com bagunça. “Trabalhei em uma empresa onde alguns colaboradores levavam suas xícaras de café para a estação de trabalho e ficavam dias sem lavar a xícara, que muitas vezes se tornava uma verdadeira cultura de fungos. Um ambiente limpo é essencial para a saúde e o bem-estar de todos”, diz Daniele.

3) Evite procrastinar
Procure fazer uma lista de prioridades para o dia seguinte, coisas que você precisa fazer independentemente dos imprevistos que possam aparecer. “A procrastinação, adiar as tarefas para depois, deixa sua energia estagnada e impede a obtenção de suas metas”, explica a psicóloga.

4) Tenha uma agenda flexível
Defina os horários em que você está mais disposto a fazer as tarefas menos interessantes e que exigem mais energia; assim, haverá mais tempo para as atividades mais estimulantes. “Pessoas organizadas demais podem se tornar muito rígidas e inflexíveis, não conseguindo lidar com situações fora dos seus padrões; já pessoas com desprezo pela organização também podem desenvolver transtornos”, avalia Daniele.

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