Sem medo da escola pública

As contas apertaram e muitos pais estão tendo que transferir os filhos para escolas públicas. A boa nova é que a situação que encontram é melhor do que imaginavam e a participação das famílias só tende a melhorá-la. Nessa migração da classe média para o ensino público, os dois só têm a ganhar

O medo da escola que historicamente atormenta algumas famílias tem sido mais sentido hoje em dia, diante da instabilidade financeira. O aumento dos preços, do custo de vida e do desemprego vem empurrando famílias a transferir os filhos de escolas particulares para públicas. Esse grupo assustado, entretanto, vai encontrar outra turma também da classe média que já adota essa alternativa com convicção. Mesmo tendo condições de pagar mensalidades pesadas, eles aprovam a qualidade do ensino público, gostam da proposta educativa governamental e preferem que seus filhos cresçam no ambiente de maior diversidade socioeconômica e cultural proporcionado pela rede pública.

Para quem foi estudante de 1980 a 1990, e para seus pais, que viveram um período crítico da educação nacional, pode parecer difícil entender essa decisão. Depois que a Constituição de 1988 universalizou o ensino, tornando obrigação dos pais manter as crianças na escola, e do Estado oferecer vagas para todas elas, houve um boom de matrículas e a qualidade do ensino público caiu. Antes disso, as escolas do governo eram bem conceituadas, mas de certa forma eram também exclusivas.

Atendiam menos da metade da população em idade escolar e eram frequentadas por aqueles que valorizavam a educação (em geral, uma população de maior nível intelectual e social) – e, muitas vezes, somente por alunos que passavam na prova de seleção. Já a partir da década de 2000, a curva de qualidade do ensino estatal reverteu o sentido de queda e passou a subir segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) (veja o quadro ao lado). “Aquele perío­do foi mesmo muito ruim, mas aconteceu por uma boa causa. Estava-se corrigindo uma exclusão histórica.

Houve problemas de superlotação, escola de lata em São Paulo, o ‘turno da fome’ – que não recebia merenda”, diz Cinthia Rodrigues, jornalista e blogueira na área de educação, gestora do projeto Quero na Escola e mãe de gêmeos de 4 anos. Baseada na experiência de anos cobrindo o tema e, atualmente, conselheira regional de educação do município de São Paulo, Cinthia é categórica ao dizer que a educação pública é melhor que a particular no ensino infantil e fundamental 1 (1º ao 5º ano). Entre os motivos que cita estão carga de trabalho e infraestrutura.

Sobrecarga

Na rede pública dessa faixa, as professoras trabalham até cinco horas com as crianças e têm uma hora para preparar as aulas e a classe, e o espaço físico foi construído dentro das medidas e das necessidades dos pequenos. Já nas particulares, as professoras geralmente estão sobrecarregadas e a estrutura costuma ser uma adaptação de uma casa ou prédio que tinha outros fins. Cinthia acredita que a participação da classe média faria ainda mais diferença positiva na escola pública. “Se toda a classe média viesse, seria ótimo. São pessoas que conhecem outras escolas, outros instrumentos culturais, e teriam mais base para exigir da administração pública.”

Flávia Ribas é outro exemplo dessa convicção. Mesmo tendo estudado sempre em escolas particulares, sua opção para a filha Ana Misha tem sido a rede pública, mesmo podendo pagar uma instituição privada. Moradora de Brasília, no Plano Piloto, Flávia sabe que a região é muito elitizada, de maioria branca, e alvo das escolas particulares. A consultora na área de comunicação, que sempre foi muito ligada à educação, sabe que a capital federal possui também, tradicionalmente, boas estruturas públicas que funcionam e que são de qualidade – tanto a escola quanto a biblioteca infantil que a filha frequenta, por exemplo. “Ana é negra – o pai é angolano – e, na escola pública, ela pode conviver num ambiente de diversidade social e cultural. É também uma forma de protegê-la um pouco.”

Mas a opção de Flávia está em xeque com o anúncio do governo do Distrito Federal, em dezembro, de alterar a disponibilidade das escolas-parque, onde sua filha tinha, uma vez por semana, aulas lúdicas e recreativas – artes visuais, música, teatro e educação física. Menos crianças serão contempladas por esse modelo, criado por Anísio Teixeira, inclusive Ana Misha. Esse era um aspecto muito valorizado por Flávia. “Para mim, aos 7 anos, minha filha precisa aprender a conviver socialmente e não a fazer vestibulinho. Não ter tempo para brincar é um mal do nosso tempo e, dessa forma, a criança está perdendo a oportunidade da infância.”

“Quantidade nem sempre é qualidade. Ter mais conteúdo [como oferecem as instituições privadas] nem sempre é melhor e mais adequado. Temos de respeitar a fase da criança e não antecipar o processo de educação”, reforça Alessio Costa Lima, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e dirigente municipal de educação de Tabuleiro do Norte (CE). Para ele, na hora de escolher uma escola nessa fase infantil é preciso observar a atitude dos profissionais que ali atuam. “Tão importante quanto o aspecto técnico e estrutural é o trato emocional de carinho e respeito, que estimula a criança a estar ali e aprender.”

À beira da reprovação

Acreditando, como grande parte dos brasileiros, que a rede pública é um desastre, a analista de contratos Andréia Donato Ferreira e o marido pensaram em deixar os filhos temporariamente fora da escola quando ficaram desempregados, em meados de 2016. “Mas fui avisada de que isso não é permitido e iria ser procurada pelo Conselho Tutelar. Tivemos de transferir os dois para escolas públicas. Foi desesperador.

Ouvimos tanta coisa ruim.” Um semestre após a mudança, hoje novamente empregada, Andréia garante que não tira mais o filho menor do ensino infantil da Escola Estadual Prof. João Clímaco da Silva Kruse, na zona leste de São Paulo. “Ele se adaptou muito bem e sente que a escola é mais produtiva que a particular. As atividades extracurriculares têm preços acessíveis. E a união de pais e mestres ajuda a manter as coisas funcionando bem, porque o governo não dá tudo o que seria preciso.” Já com o filho que está no 3O ano do ensino médio não é a mesma coisa. “Sentimos uma queda na qualidade. Nesses seis meses ele não aprendeu quase nada.

Descobrimos que tem escola ruim e boa na rede pública, assim como na rede particular”, desabafa. Os maiores problemas da Escola Estadual Gabriel Ortiz, segundo a família, são: os professores faltam muito e vários não dão prova, só trabalho; a estrutura está comprometida – o ventilador não funciona em várias salas, por exemplo – e os alunos em geral têm pouco interesse nos estudos. “Pelas reuniões a que fui, pude ver que os pais não têm controle sobre os filhos. E que a escola não tem o engajamento de pais e mestres, como acontece na outra.”

Adequação aos novos tempos

A experiência dessa família levanta duas questões essenciais: a necessidade da mudança no ensino médio para se adequar aos novos tempos e a participação da família na construção e manutenção de um ensino melhor. “A relação do adolescente com a escola e com os professores é um grande desafio hoje”, comenta Maria Salete Silva, que já foi secretária da educação em Salvador e conselheira em educação da Unicef.

Por isso, ela considera de extrema importância a definição de uma nova “base nacional curricular”, que deve mudar as séries mais questionadas quanto a qualidade e infraestrutura atualmente no país, do 6º ano ao fim do ensino médio, geralmente da rede estadual. “Creio que essa mudança é necessária. Minha preocupação é justamente não transformar essa base numa lista de conteúdo que vai cair numa prova. De qualquer forma, isso não pode ser decidido por meio de uma Medida Provisória, por mais que tenha profissionais sérios por trás. É preciso um debate maior que envolva a sociedade.”

Esse envolvimento também é essencial no dia a dia da escola.­ “Existem várias escolas públicas com Ideb muito bom. Mas, com certeza, o que levou àquele resultado foi muito mais do que o resultado de uma prova”, afirma. Os maiores diferenciais para o bom desempenho de uma escola são: participação da família, vincula­ção com a sociedade (alunos fazendo cartazes para armazém do bairro, por exemplo), direção comprometida e professores com oportunidade de formação e mais valorizados. Foi isso o que Maria Salete constatou ao lado de sua equipe, quando coordenou a publicação Aprova Brasil-Unicef, em 2005.

Referências nacionais

Esses fatores são determinantes para explicar como escolas públicas em áreas de baixo índice de desenvolvimento humano (IDH) conseguem se destacar e se tornar referência de ensino em nível nacional. “A ideia de você interferir para qualificar a escola do seu filho é essencial. A educação é um direito, não é um serviço contratado, visão que tem muito a ver com o mundo da escola privada. Se os pais não usam a escola como um depósito de filho e participam na construção desse direito – e não na dimensão de consumidor –, fazem toda a diferença”, explica Salete.

Olhando pelos dois lados, Catarina Camargo dos Santos, professora da rede pública e coordenadora de escola particular em Pindamonhangaba (SP), também vê uma diferença na gestão democrática do ensino que favorece a rede pública. “Os pais interessados podem se candidatar ao conselho escolar. E esse grupo eleito contribui em muito para solucionar casos mais sérios de aluno indisciplinado, professor do qual reclamam muito, desenvolvimento de atividades extracurriculares, etc.” Esse é um espaço que as instituições particulares não costumam abrir. Afinal, espera-se que os pais estejam de acordo com o “pacote fechado” que oferecem quando matriculam seus filhos nelas.

Aproximar a sociedade das escolas é o objetivo do Quero na Escola, do qual Cinthia Rodrigues é gestora. Por meio do site do projeto, alunos e funcionários da rede pública do Brasil inteiro pedem o que querem aprender fora do currículo ou melhorias para a escola, e voluntários surgem de toda parte para atender esses desejos. Os casos já são numerosos e vão desde andar de bicicleta até aulas de feminismo e grafitagem do pátio. “Assim damos voz e protagonismo aos alunos e quebramos esse estigma de que escola pública é ruim”, explica.


Bem no ranking

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De 2005 a 2015, todos os estados do Brasil melhoraram as condições do ensino público, de acordo com os dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), uma iniciativa do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A cada dois anos, o Ideb avalia os resultados dos alunos de 5º e 9º anos da rede pública na Prova Brasil, comparada com o índice de aprovação de cada escola. As melhorias foram gerais, não ficando somente nas regiões tradicionalmente mais ricas do país.

O Ceará, por exemplo, é o estado que mais evoluiu, passando de 2,8 (2005) para 5,7 (2015), na pontuação de 0 a 7, um ritmo de crescimento quatro vezes superior à média nacional. Mais recentemente, outra avaliação veio mostrar que a diferença de qualidade entre os dois tipos de educação no Brasil está ficando menor. Divulgado em meados de dezembro, o resultado do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), estudo que avalia a aprendizagem de alunos de 15 anos em 70 países e territórios, apontou que os estudantes brasileiros matriculados em escolas particulares se saíram apenas um pouco melhor que seus colegas da rede pública.

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