Sobrevivência na selva

Em sua viagem à Amazônia – sonho de consumo de turistas nacionais e internacionais –, a fotógrafa Samanta Rosa conheceu a floresta bem por dentro, em um curso de sobrevivência dado por ex-militares

O gigante tropical que ocupa quase metade do território nacional, mais conhecido como Floresta Amazônica, é um destino turístico altamente desejado e cada vez mais frequentado por brasileiros e estrangeiros. Mas é comum que os visitantes se decepcionem ao completar o circuito regular de passeios locais: Teatro Amazonas, o encontro das águas dos rios Solimões e Negro, o Museu do Seringal, o zoo­lógico e, a mais recente atração, a Arena da Amazônia. Alguns deles um tanto urbanos para quem se deslocou em busca de selva.

Os hotéis que aos poucos se instalam no interior da floresta são um alento para os mais aventureiros. Chegar a muitos deles já é um passeio em si, por demandarem uma combinação de trajeto fluvial e terrestre que pode levar mais de uma hora, embora não estejam muito distantes de Manaus. Mas é possível ir muito além. Visitar tribos indígenas, nadar com os lendários botos cor-de-rosa e buscar jacarés de barco – inclusive à noite – dão um sabor mais especial em estar na região que concentra um terço das espécies existentes no planeta.

Mas conhecer a Amazônia real­mente por dentro quer dizer se embrenhar na floresta entre árvores de 20 a 50 metros de altura que se fecham nas suas copas, formando imagens aéreas de um verde denso e contínuo. “Não é preciso conhecimento prévio nem preparo específico, só disposição para caminhar e vontade de aprender”, comenta a analista de marketing e fotógrafa Samanta Rosa, que se hospedou no Juma Amazon Lodge, hotel altamente comprometido com a sustentabilidade e a preservação da região e da comunidade local.

Para tornar o passeio seguro, é essencial contratar uma empresa qualificada no assunto. “Sair sem guias altamente preparados é pedir para se perder e não voltar”, alerta. A equipe da Jaguar Jungle Tour, formada por ex-militares do Exército brasileiro especializados em resgate na selva, trabalha há quase 15 anos nesse mercado. “A selva é um grande supermercado, é uma grande farmácia. A selva oferece tudo. E não são os mais fortes que sobrevivem nela, são os mais habilidosos”, destaca Jeffson Araújo dos Santos, idealizador e diretor da Jaguar.

Experiência comprovada

Antes de começar a atuar com turismo, o tenente Araújo, como é conhecido, passou quase dez anos formando soldados em sobrevivência na selva. Quando terminou seu tempo no Exército, iniciou um projeto destinado a dar o mesmo treinamento para funcionários de hotéis da região. Como não encontrou interesse nas empresas para bancar o curso, passou a oferecer o produto ao público em geral. Até o ano passado, 80% dos seus clientes eram estrangeiros, mas houve uma virada em 2016: atualmente, metade dos visitantes é do Brasil, o que ele atribui à crise financeira e à desvalorização do real.

“Como conhecedor do que é sobrevivência de fato nesse ambiente, nunca entro na floresta com um grupo menor do que quatro pessoas, mesmo que seja só um cliente. Se o visitante está somente com um guia e este é picado por uma cobra, por exemplo, é como se os dois tivessem sido picados”, explica. O preparo físico dos clientes determina, por sua vez, a extensão do trajeto, que pode ser de 3 a 5 km (ida e volta), no curso de meio dia, até pouco mais de 20 km, no caso do tempo máximo de treinamento de quatro dias, em que os visitantes dormem em redes no meio da selva.

Os “passeios instrutivos”, como define o tenente Araújo, abordam técnicas básicas de orientação pelo Sol (a bússola mais antiga do ser humano), localização de água potável, obtenção de fogo, identificação dos frutos seguros para consumo, identificação e uso de algumas plantas medicinais e construção de abrigos e armadilhas para animais, além de primeiros socorros, no caso dos cursos mais longos. Outras práticas muito características da região também são ensinadas, como a peconha – escalada de árvores com cipó trançado entre os pés – e a comunicação por meio da sumaúma, árvore conhecida como alto-faltante ou telefone da selva, por emitir um som agudo que ecoa por grandes distâncias.

O mais desafiante para Samanta, entretanto, foi o método indígena de usar formiga como repelente natural. “Você precisa enfiar a mão em um formigueiro e só tirar depois que muitas delas tiverem subido pelo seu corpo. O curioso é que esse tipo de formiga não pica quando está em grupo, só quando estão sozinhas. Dá aflição, mas dá certo”, conta. Depois, basta esfregar as formigas, como se estivesse passando um esfoliante. Conforme as formigas vão partindo, o odor – “um cheirinho agradável”, garante Samanta – fica na pele e repele qualquer outro inseto.

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