Testemunhas da história

Concentradas numa área relativamente pequena da Califórnia, as milenares sequoias-gigantes compõem um dos mais notáveis exemplos da grandiosidade da natureza

Elas estão entre os maiores seres vivos do mundo e chegam a ultrapassar 80 metros de altura. Muitas já eram centenárias quando Salomão se tornou rei de Israel, quando Atenas viveu seu esplendor ou quando surgiram os primeiros hieróglifos maias. Seu porte majestoso e suas dimensões gigantescas representam um atrativo todo especial para levas e levas de turistas que vão conhecê-las no oeste dos Estados Unidos. São as sequoias-gigantes, um dos mais impressionantes espetáculos da natureza.

Árvore de montanha (cresce entre 1.400 e 2.150 metros de altitude) que vive em climas úmidos marcados por verões secos e invernos com neve, a Sequoiadendron giganteum está entre os organismos mais antigos da Terra. Pela datação feita a partir dos anéis dos troncos das árvores, a mais velha delas tinha 3.500 anos de idade. As dimensões físicas seguem o padrão extragrande: na natureza, as sequoias-gigantes atingem, em média, entre 50 e 85 metros de altura e diâmetro ao nível do solo de 6 a 8 metros. A casca, sozinha, pode chegar a 90 centímetros de espessura. Cada uma de suas pinhas contém em média 230 sementes. Estima-se que uma sequoia-gigante adulta libere entre 300 mil e 400 mil sementes por ano.

Item de exibição

A árvore era conhecida há séculos pelos miwoks e outras tribos indígenas que habitavam a Sierra Nevada, na Califórnia, mas só começou a causar estardalhaço em 1853, quando se divulgou que garimpeiros em busca de ouro haviam derrubado uma delas no Condado de Calaveras. Atraídos pelo testemunho de um caçador, que avistara o bosque de sequoias-gigantes enquanto perseguia um urso, os mineradores chegaram ao local e levaram três semanas para serrar a base da sequoia, apelidada de “Mammoth Tree” (Árvore Mamute), que tinha 90 metros de altura e idade de 1.244 anos. Parte da casca foi retirada e levada para ser exibida em San Francisco. Dali a novidade se espalhou para o mundo.

A partir de então, a sequoia-gigante virou um concorrido item de exibição. No mesmo ano Nova York pôs à mostra na Broadway aquela parte da casca da Mammoth Tree, com um piano dentro para atrair visitantes pagos. Em 1855, a casca da segunda árvore derrubada, a “Mother of the Forest” (Mãe da Floresta), seguiu para uma mostra em Londres, onde provocou um enorme interesse, que contaminou a Europa. A descoberta poderia ter deflagrado o processo de extermínio das sequoias pelos madeireiros, mas as características do tronco, fibroso e quebradiço, terminaram por desestimular esse uso.

A última empresa que tentou lucrar com o produto fechou suas portas em 1924. Os exemplares mais novos têm madeira mais resistente, e nesse sentido existem cultivos de sequoias-gigantes em lugares como EUA e Europa Ocidental. Mas as árvores mais antigas encontraram no turismo o motivo mais forte para sua sobrevivência. E conseguiram uma vantagem adicional: os cortes iniciais estimularam uma reação preservacionista que levaria à criação dos primeiros parques nacionais americanos, a começar pelo de Yellowstone, em 1872.

Habitat natural

Hoje em dia, encontram-se sequoias-gigantes da América do Norte à Oceania, mas quem deseja conhecê-las em seu habitat natural só pode ir a um lugar: as encostas ocidentais da Sierra Nevada. Ali, numa área total de menos de 145 km2, elas se distribuem em 68 bosques, alguns com mais de 20 mil exemplares, outros com apenas seis. Dois parques nacionais vizinhos, o Sequoia e o Kings Canyon (veja quadro abaixo), concentram a maior parte dessas árvores e são acessíveis por rodovias de impecável padrão de qualidade americano.

O Sequoia National Park fica a cerca de 330 km de Los Angeles e a pouco mais de 420 km de San Francisco. Programando-se bem, dá para encaixar o passeio em um fim de semana, ou até mesmo em um dia. É nesse parque que fica o destaque supremo das sequoias-gigantes: a maior árvore do mundo, a General Sherman (nome que homenageia um dos mais importantes líderes militares dos unionistas durante a Guerra da Secessão). Ela não é a mais alta (83,8 metros), mas a circunferência do tronco faz muita diferença: na base, a General Sherman chega a 31,3 metros, com diâmetro de 7,7 metros.

A 36 metros de altura, o diâmetro ainda alcança respeitáveis 5 metros. Calcula-se que a idade dessa árvore varie entre 2.300 e 2.700 anos, e seu peso ronde 1.400 toneladas, o que corresponde a 25 tanques de guerra. O maior galho da General Sherman, que caiu em janeiro de 2006, é outra referência das enormes dimensões desse organismo vivo. Seu diâmetro superava 2 metros, e o comprimento estava acima de 30 metros – medidas maiores que as da maioria das árvores.

A queda esmagou uma parte da cerca instalada ao redor da sequoia e abriu uma cratera na trilha para pedestres, mas não representa motivo para preocupação, de acordo com os especialistas: ela não indica nenhum problema de saúde da árvore, e pode ser simples­mente um mecanismo de defesa contra condições climáticas adversas. Admirar de perto a General Sherman e suas colegas, comprovar nossa pequenez diante de troncos gigantescos e milenares são experiências que marcam a alma. Em tempos de mudança climática, é tranquilizador saber que esses seres seguem vivos e aparentemente a salvo de todas as agressões que o homem é capaz de promover contra a natureza.

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Sucesso no cultivo

Sequoia-gigante em Queenstown, na Nova Zelândia (Foto: Divulgação)
Sequoia-gigante em Queenstown, na Nova Zelândia (Foto: Divulgação)

Na natureza, as sequoias-gigantes são encontradas apenas numa área relativamente pequena da Califórnia, mas outras regiões do planeta têm obtido êxito no seu plantio. Chamam atenção, por exemplo, os resultados conseguidos no sul e no oeste da Europa, onde a árvore chegou há pouco mais de um século e meio. Ela encontrou condições favoráveis nas ilhas britânicas, e um exemplar, plantado no sudoeste da Escócia, media 56,4 metros de altura em 2014, quando completou 150 anos.

Outro país em que a espécie se deu bem foi a Itália, onde o cultivo, realizado entre 1860 e 1905, resultou em árvores cuja altura varia entre 40 e 48 metros. Mas é a França que abriga a maior sequoia-gigante fora dos Estados Unidos. O exemplar, plantado em 1856 na localidade de Ribeauvillé, perto da fronteira com a Alemanha, media aproximadamente 58 metros em 2014. O noroeste e o sul dos Estados Unidos também conseguiram êxito no cultivo. Há vários exemplares em áreas urbanas e rurais dos estados de Oregon e Washington (penetrando inclusive na vizinha província canadense da Colúmbia Britânica).

Já no nordeste dos EUA a árvore enfrenta problemas: clima desfavorável (verões quentes e úmidos) e doenças provocadas por fungos, que fazem o crescimento ficar mais lento. O exemplar mais alto conhecido na região fica na Pensilvânia e alcança 29,1 metros de altura. Existem exemplares robustos de sequoias-gigantes em parques da Austrália e da Nova Zelândia, com idade entre 125 e 150 anos. A árvore também pode ser encontrada na área de florestas temperadas do Chile.


Parque das sequoias

Entrada da trilha que leva à General Sherman (Foto: Pabst Ell)
Entrada da trilha que leva à General Sherman (Foto: Pabst Ell)

As sequoias-gigantes são o grande destaque do Sequoia National Park, o segundo parque nacional americano, criado em 1890. A área de 1.635 km2 (pouco mais de 100 km2 maior que a do município de São Paulo) localizada no leste da Califórnia, no sul da Sierra Nevada, abriga alguns dos principais exemplares do gênero, como a General Sherman, a maior árvore do planeta. É ali também que fica o ponto mais alto dos 48 estados contíguos dos Estados Unidos, o Monte Whitney, com 4.418 metros de altura. Nos domínios do parque existem ainda 200 cavernas de mármore e o Giant Forest Museum, dedicado à história das imensas árvores.

Atraídos sobretudo pelas sequoias-gigantes, mais de 1,5 milhão de turistas visitam a região a cada ano. O Sequoia National Park é vizinho de outro parque nacional, o Kings Canyon, que também possui sequoias-gigantes de destaque, como a General Grant, a segunda do mundo em volume. Bem preservados, os parques – administrados conjuntamente pelo Serviço Nacional de Parques dos EUA – possuem paisagens que mantêm o aspecto de como era a Sierra Nevada antes que o homem branco se estabelecesse na região. Ambos foram designados como reserva da biosfera da Unesco em 1976.

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