A um passo do abraço

Cuba e Estados Unidos ensaiam a convivência de paz após 50 anos de guerra fria, enquanto os cubanos aprendem a viver com liberdade. A visita de Obama a Havana e o show dos Rolling Stones mostraram que o diálogo está vencendo a hostilidade

O sinal da TV ia e vinha, a imagem era ruim, piscava insistentemente, mas em 22 de março de 2016 não havia uma única família em Havana que não estivesse com os olhos grudados na tela. Quase ninguém trabalhou naquele dia histórico. Muitas ruas do centro antigo da capital de Cuba estavam fechadas, crianças não foram à escola. Era mais do que um feriado comum no calendário. O último dia da visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, à ilha comunista foi certamente o mais importante e o mais esperado pelos cubanos. No palco do Gran Teatro de Havana, Obama falou pela primeira vez ao povo do país vizinho e disse, finalmente, a que veio: “Cultivo uma rosa branca”.

Em seu poema mais famoso, José Martí (1853-1895), o grande líder da independência cubana, fez essa oferenda de amizade e paz tanto a seus amigos quanto a seus inimigos. “Hoje, como presidente dos Estados Unidos da América, ofereço saudação de paz ao povo cubano”, prosseguiu Obama. Era o início do discurso de meia hora, transmitido ao vivo para toda a ilha. Com o tea­tro lotado, Obama selou o início do fim da guerra fria entre EUA e Cuba, assegurou que defenderia o fim do embargo e, sobretudo, deixou claro que a reaproximação entre os dois países é um caminho sem volta. Evidentemente, há muito ainda a ser feito – e a eleição de um republicano como presidente americano, em outubro próximo, pode destruir as esperanças de reaproximação.

Um dia antes do discurso, durante uma coletiva em que (de forma surpreendente) aceitou responder a perguntas de jornalistas, Raúl Castro, o presidente cubano, mostrou-se aberto a esse diálogo, embora ressaltasse diferenças históricas na condução da política e da economia entre eles. Diante da TV, novamente, muitos cubanos mal acreditavam no que viam e ouviam. Sobretudo quando o ditador, num gesto ainda mais improvável, levantou o braço do presidente americano, ao final da coletiva. “Aquilo é coisa do Raúl. Ele costuma fazer isso. Nada de mais”, disse Guillermo Gómez, 68 anos, revisor aposentado de um jornal local.

Simplicidade aparente

Não é tão simples assim. Ainda que pareça (e seja) muito mais aberto que o irmão Fidel, Raúl Castro continua comandando com pulso firme o país que até há pouco tempo mandava para a cadeia cidadãos por simplesmente portar dólares americanos. Mas foi ele quem aceitou reabrir o diá­logo com os EUA, negociando o acordo que selou, em 2014, o fim do rompimento diplomático de cinco décadas. Cuba hoje respira ares de mudança e desejo por mais liberdade. Em alguns lugares públicos de Havana já existem pontos de Wi-Fi e as pessoas podem usar a internet durante uma hora mediante a compra de um cartão (preço: 2 pesos conversíveis).

Diferentemente de antes, quando 100% dos imóveis pertenciam ao estado, agora casas podem ser alugadas e as pessoas podem ter seu próprio negócio. Especialmente depois de assistirem ao diálogo de seu líder com o principal “inimigo” da pátria, muitos cubanos se sentem livres para falar e até criticar o regime “Ganho mais do que um médico e um engenheiro”, diz o motorista Elier Benet. “Agora, com essa abertura, temos esperança de que a economia melhore.” O retorno do diálogo também permitiu que as remessas de dinheiro para Cuba sejam ilimitadas. Muitos cubanos que têm parentes fora reforçam o orçamento com essas doações. Alguns conseguem abrir negócios na ilha com a ajuda da família exilada.

Mais do que isso, agora eles também podem ir e voltar quando quiserem. Os voos foram liberados, o correio também. “Acho que Obama e Raúl já mudaram a história para eles. Para os EUA, sem dúvida foi uma virada. Para os cubanos, não sabemos”, conta, ainda desconfiada Mariuska Alvarez, a sorridente motorista de uma “baleia” Pink conversível. Ela ganha a vida fazendo passeios turísticos pelo centro histórico, mas não pôde trabalhar na semana da visita do presidente americano, porque as ruas estavam interditadas.

Stones e a revolução

Foi Obama, vieram os Rolling Stones. A chegada dos ingleses coroou a semana histórica e inesquecível para os cubanos. O show da banda, gratuito, batizado de “Concerto da Amizade”, pareceu a celebração desse momento de reaproximação e de mudanças. Na plateia, gente do mundo inteiro, bandeiras de diversos países e um clima de paz e amor e… amizade. A artista plástica Mabel Poblet considera que as duas visitas foram “uma virada” também para a arte cubana. “Meu trabalho é baseado na história e na realidade do meu país. Fico contente que isso aconteça nesse momento”,­ afirma.

Mabel preparava a série “Pátria” quando foi anunciado o retorno das relações diplomáticas entre os dois países. Uma das obras que fez, composta por recortes de fotografias do Mar do Caribe, reflete a difícil travessia dos cubanos fugitivos. O trabalho foi vendido na última SP-Arte, na Bienal em São Paulo. “Penso que o que está acontecendo é que os EUA puderam comprovar que Cuba não é capaz de mudar os seus princípios por nada”, diz a advogada aposentada Ana Belkis Alejo, de 74 anos. “O povo passou muita necessidade e nunca baixou a cabeça. Dinheiro não compra nossa dignidade”, conclui.

O orgulho e a resistência dos mais velhos, embora pacífico, contrasta com a vontade dos jovens de conhecer e usufruir o novo. Eles se orgulham de ser revolucionários, mas dizem que a revolução já faz muito tempo. E os tempos mudaram, como alertou Mick Jagger, parafraseando Bob Dylan. “Com dinheiro em Cuba se vive muito bem. Só queremos viver melhor”, diz Jorge Peres, 50 anos, cinco filhos, quatro netos, engenheiro mecânico e motorista de “bicitáxi”. Enquanto esperam por mais, eles seguem fazendo o que sabem e o que podem. “É um povo lindo e solidário.

Quando houve o terremoto no Haiti, Cuba enviou seus médicos, enquanto os EUA mandaram a Marinha”, afirma o italiano Rodolfo Del Pane, que faz trabalho voluntário numa ONG num pequeno vilarejo da ilha. “Os cubanos têm uma alegria de viver que é só deles. Apesar de todas as dificuldades econômicas”, diz o embaixador do Brasil em Havana, Cesário Melantonio. “Obama teve a grandeza de reconhecer que a antiga hostilidade não faz mais sentido.” O reatamento “não será fácil”, observou o presidente americano no fim do seu discurso. “Haverá reveses. Levará tempo.”

Mas já é possível vislumbrar uma bandeira branca entre Havana e Miami, apesar da pendência sobre Guantánamo (a baía no leste de Cuba que os americanos arrendaram perpetuamente em 1903 e onde instalaram uma base naval, dentro da qual está a prisão que abriga os acusados de participar dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA). Ao fim e ao cabo, como dois irmãos que brigam e rompem durante muito tempo, basta que um aceite e dê o braço a torcer. E o outro também tenha a grandeza de erguer o braço com sinceridade. Os tempos estão mudando.

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