Você precisa escolher um lado?

O brasileiro não foge à luta para definir quem está certo ou errado na política, na religião e em tantos outros temas. Na atual disputa, porém, os dois lados saem perdendo. O convívio com a diferença só tem a somar

Entre ser “coxinha” ou “petralha”, dentro da política nacional. Entre ser intruso ou local, na questão dos imigrantes, mundo afora. Entre ser vegetariano ou carnívoro, no quesito alimentação. Entre ser Batman ou Super-Homem, na identificação com os super-heróis de sempre. Entre tantos issos ou aquilos que a atualidade oferece, você já decidiu de que lado está? Não responda agora, porque a pergunta que vem a seguir é ainda mais importante: você já parou para pensar se realmente precisa escolher um dos dois lados que se apresentam como as verdades da vez?

“Às vezes, o melhor lado é o de fora. Especialmente em momentos de polarização”, provoca o historiador, antropólogo e filósofo Leandro Karnal. Mas ele complementa que é nesses momentos que as pessoas acham mais importante tomar partido. “Concordar com os pressupostos básicos de A ou B é aderir a toda a semântica de comunicação de cada grupo. Quando alguém diz C, sai do código semântico e deixa o outro perturbado porque ele não consegue sequer ingressar nessa linguagem”, explica.

Entre diversos exemplos de polaridade, é como se o mundo atual se dividisse entre o bem ou o mal, sendo o bem sempre o lado em que você está e o mal, a posição do outro – claro! Essa visão maniqueísta costuma facilitar a vida, por um lado, pois basta seguir fielmente a doutrina escolhida e sentir o conforto de pertencer a um grupo. Mas, por outro, reduz a riqueza que a vida oferece quando se mantém uma postura mais aberta à diversidade de ideias.

A polarização política no Brasil (fotos acima) tem contaminado a população com intolerância e deixado rastros de violência verbal e física (abaixo)
A polarização política no Brasil (fotos acima) tem contaminado a população com intolerância e deixado rastros de violência verbal e física (abaixo)

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“Devemos ser capazes de apreciar a diferença e manter uma distância saudável entre as próprias ideias e as opostas. Isso significa manter a motivação de que as pessoas possam ser felizes do modo delas, e de que não seremos nós quem lhes ensinará como ser felizes”, analisa Bel Cesar, psicoterapeuta sob a perspectiva do budismo tibetano e mãe do lama Michel Rinpoche. O problema, resume Bel, é praticar uma atitude corretiva na qual intervimos no espaço alheio sem um acordo prévio de ambas as partes.

Isso vale para política, religião, saúde, criação dos filhos, sexualidade, alimentação e vários outros temas. Para cultivar um espaço saudável entre aqueles que vivem de modo diferente, é necessário que cada pessoa mantenha certa curiosidade sobre as razões do outro e procure compreender o que o leva a pensar e agir de uma determinada maneira. “É importante lembrar que o nosso bem-estar depende também do bem-estar comum. Sinto falta disso na nossa sociedade”, comenta Bel.

Duelo nacional

De fato, essa postura está em falta entre muitos brasileiros hoje em dia, sobretudo quando a questão é política. Conversas, mesmo entre pessoas que se gostam, têm atingido tons elevados e terminado, muitas vezes, em violência verbal e física. O sangue quente de rivalidade, visto em manifestações de rua a favor e contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff, alastrou-se para dentro das casas e empresas.
Há cerca de um ano, amigos têm cortado relações devido a orientações políticas e famílias têm se quebrado em pedaços (veja quadro “Guerras virtuais”).

Mais recentemente, a ruptura chegou também aos relacionamentos profissionais. Em Porto Alegre, a pediatra Maria Dolores Bressan enviou mensagem para a suplente de vereadora pelo PT e militante do partido há 16 anos, Ariane Leitão, mãe de um de seus pacientes, “declinando, em caráter irrevogável” da função de médica da criança. Já a capa vermelha do iPad e algumas roupas da jornalista Cristiana Lôbo, apresentadora do canal por assinatura GloboNews e comentarista da Rede Globo, têm sido motivo de reclamação de telespectadores – a escolha por essa cor denotaria que ela é favorável ao PT.

O muro que separou militantes a favor e contra o impeachment na votação de 17 de abril na Câmara do Deputados simbolizou a intolerância que marca a divisão política no país
O muro que separou militantes a favor e contra o impeachment na votação de 17 de abril na Câmara do Deputados simbolizou a intolerância que marca a divisão política no país

Conversas sobre temas controversos devem envolver uma intenção verdadeira das partes de ampliar suas­ visões, recomenda a psicóloga Bel Cesar. Senão, será pura discussão, ou seja, uma disputa contaminada pela raiva e pela luta de poder para ver quem consegue se impor melhor e convencer o outro de que é ele quem está errado. “Quando temos pouco conhecimento de nossas vulnerabilidades e de nossa força interior, toda diferença surge como uma ameaça, algo que nos perturba porque não sabemos lidar com ela”, explica Bel.

Karnal reforça a ideia lembrando as considerações do imperador romano Marco Aurélio, no segundo livro da série “Meditações”, escrito antes do ano 200: “Hoje eu vou encontrar um insensato, um agressivo, um vaidoso, e nenhum deles vai me vencer. Se a paz for minha, ninguém me tira”. O filósofo-historiador destaca que é preciso se conhecer para não se abalar. “O problema é que as pessoas são mal resolvidas”, aponta. Por isso, ele acredita que o diálogo está ficando cada vez mais difícil. “As pessoas não querem debater ideias, querem colocar os outros na gaveta correta. Não têm mais a vontade de ouvir, só querem saber de que lado o outro está para poder classificá-lo, como bem definiu o psicólogo Contardo Calligaris em coluna na Folha de S. Paulo.”

Karnal, também ele professor, conta que, ao falar sobre religião, surge sempre uma mesma e única pergunta: “Querem saber qual é a minha religião para poderem me adjetivar e me colocar num nicho, dentro do qual eu funcione”. Adjetivar, para ele, é o fim do debate. Isso porque, ao adjetivar, está-se classificando o outro e jogando por terra a possibilidade de uma conversa mais inteligente sobre qualquer questão. O apelido de “coxinha”, por exemplo, denota que a pessoa é da elite branca conservadora.

Seguindo o cardápio político, “sanduíche de mortadela” ou “petralha” indica alguém que apoia todo e qualquer crime que se cometa. Karnal é árduo defensor e divulgador do conceito da “tolerância ativa” – tão necessária e pouco praticada nos dias de hoje –, de que não basta aturar opiniões diferentes, mas valorizar a diversidade de credos, culturas e etnias, porque é isso que garante a riqueza do mundo. Ao lado da colega Elaine Moura, ele preparou livros didáticos para estimular o ensino dessa atitude em sala de aula.

O poder do exemplo

Mesmo em ambiente escolar, entretanto, vêm acontecendo episódios delicados dessa novela. Um menino de 8 anos, que usava camiseta com a bandeira da Suíça (toda vermelha e com uma cruz branca na frente), foi ameaçado por colegas. As crianças de idade próxima à dele afirmavam que o garoto era “petista” e deveria “ser espancado” e “jogado na rua”. “A criança repete as atitudes que vê. Dependendo da idade, muitas nem têm condições de refletir sobre o tema envolvido”, comenta Cassiana Versoza-Carvalhal, professora do departamento de psicologia geral e de Análise do Comportamento da Universidade Estadual de Londrina (PR).

A infância é a melhor época para desenvolver uma postura tolerante, mas os pequenos dependem dos adultos de hoje para aprender essa lição em família ou na escola. Um caso clássico mostra que ainda existe muita intransigência sendo disseminada. É comum, quando a criança conta que aprendeu na escola algo contrário ao que os pais acreditam, ser proibida de falar disso dentro de casa outra vez. “Se o pensamento diferente sempre for tratado assim, vai se tornar aversivo”, diz Cassiana.

A melhor atitude, segundo ela, seria que os adultos perguntassem o que a criança aprendeu e explicassem o que a família pensa sobre o tema e por que motivos. “Se a diferença de ideias for tratada com naturalidade e todos puderem passar um momento gostoso de diálogo, a criança vai querer sempre conversar com quem pensa de outra forma para aprender coisas novas”, aponta. Para Cassiana, a rivalidade vivida hoje é exemplo claro da referência nacional do futebol que está sendo transposta para a política.

O ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski (direita) em cerimônia em que o Conselho Nacional de Justiça aprovou cotas de negros para concursos no Judiciário: a política de cotas ajuda a deflagrar a intolerância
O ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski (direita) em cerimônia em que o Conselho Nacional de Justiça aprovou cotas de negros para concursos no Judiciário: a política de cotas ajuda a deflagrar a intolerância

“Não interessa se o gol foi roubado, o torcedor do time que marcou o tento vai alfinetar e até ofender o rival. Na política, já não importa se o partido fez coisa errada”, compara. Mas, a professora alerta que não é preciso “comprar um pacote fechado” de uma linha, concordando com tudo o que ela prega. “Posso ter posição crítica de cada tema, ser a favor do impeachment, por exemplo, mas discordar do juiz que liberou as gravações”, exemplifica.

Para se manter uma visão mais equilibrada, a professora sugere que as pessoas se informem sobre os temas que estão sendo debatidos em diferentes fontes, inclusive antagônicas. “O natural é buscar notícias que reforcem o que eu já penso. Mas é bom ler sobre os argumentos defendidos por outros pontos de vista também.” Isso vale para política, religião, saúde, criação dos filhos, sexualidade, alimentação e vários outros temas.

Batalha campal

Outra forma de estabelecer um bom diálogo, segundo Cassiana, é conversar cara a cara. “É o que menos tem acontecido hoje, por causa das redes sociais, mas é muito importante perceber as consequências no outro do que estou dizendo.” O distanciamento proporcionado pela tecnologia joga mais lenha na fogueira das discussões: por trás do celular ou do computador as pessoas não se preocupam tanto com a forma como dizem as coisas.

A internet chega a despersonificar o outro, porque muitas vezes não se sabe de fato quem ele é. E deixa espaço para encaixar o outro no estereótipo criado de quem pensa de maneira diferente de si. “Isso não cria espaços de diálogo, mas sim um ambiente de desabafo. Por esse motivo, as redes sociais potencializam o clima de intolerância vivido hoje”, afirma Cassiana. Por outro lado, é graças a essa nova ferramenta que as pessoas estão mais informadas da pluralidade do mundo e engajadas nos debates de todo tipo. A internet é, ao mesmo tempo, o elemento da vida pós-moderna que ajuda a criar discursos surdos e aquele que veio quebrar o paradigma das verdades absolutas.

A conversa face a face, que as redes sociais têm inibido ultimamente, é um recurso para estimular o diálogo
A conversa face a face, que as redes sociais têm inibido ultimamente, é um recurso para estimular o diálogo

Uma prova de que tudo traz em si aspectos positivos e negativos, e de que a visão maniqueísta é empobrecedora e reducionista. A internet tem o mérito de ter quebrado o monopólio da informação e de derrubar a autoridade que ditava verdades da classe mais alta e mais bem informada. Para Karnal, as tecnologias talvez estejam moldando um tipo de debate que não é mais filosófico. “A própria linguagem do computador pode estar reforçando isso na cabeça das pessoas, segundo um aluno meu trouxe à tona outro dia”, comenta. Afinal, a linguagem do computador não tem “talvez” nem “quem sabe”. Não, ela é sempre binária, “zero” ou “um”. “Apaga” ou “não apaga”.

O acesso a um grande volume de dados faz as pessoas confundirem informação com formação, na visão de Karnal. Para ele, a rede é o paraíso da opinião sem base. Com a vantagem de que nem é preciso enfrentar o ônus do debate – basta bloquear as pessoas discordantes. E ter uma opinião passou a ser sinônimo de obrigação de emiti-la, de acordo com o filósofo. “As pessoas passaram a considerar a sua opinião tão válida quanto a do especialista. Com a diminuição da autoridade superior, nós tornamos possível que tudo seja questão de opinião”, expõe. Na sua experiência em sala de aula, os alunos cada vez mais interpretam que há subjetividade em tudo o que professor está dizendo. “Pode chegar o dia em que eu vou dizer ‘a Bastilha caiu em 14 de julho de 1789’ e vão dizer: ‘eu não concordo. Essa é uma forma de ver a história’”, brinca.

Bandeira branca

A fartura de informações e de opinião do mundo atual contrasta com o momento de escassez, que são as bases da intolerância. “Num momento de escassez, a intolerância aumenta”, analisa Dulce Pandolfi, professora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. Na Europa em crise econômica, por exemplo, torna-se um problema conviver com o outro – que é o imigrante. “Quando o espaço está menor, o outro já não cabe. Não quero que ele chegue ao mesmo lugar que eu.”

Isso também se aplica à sociedade brasileira, que se acomodou no berço esplêndido do “mito da cordialidade” e deixou de debater questões importantes de intolerância. A professora dá o exemplo do racismo contra o negro. “Antes da política de cotas, ninguém era racista. O negro não incomodava ninguém, porque estava à parte. No momento em que os negros assumem um lugar na sociedade, a discriminação aparece mais”, compara Dulce.

O problema vem do fato de que o ser humano é muito etnocêntrico. Falta compreensão da diversidade às pessoas. “Por que toda mulher tem de usar véu ou não deve usar véu? Por que todas as culturas têm de comer com garfo e faca? Há culturas em que as pessoas comem com a mão, outras com dois pauzinhos”, exemplifica. O convívio com a diferença só tem a somar.

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Guerras virtuais

Pesquisa aponta uma atitude mais engajada do brasileiro diante dos debates políticos do momento Se existe algo positivo na situação política nacional atual é que o brasileiro está falando mais sobre o tema, revelou uma pesquisa do Instituto QualiBest, feita em março com 800 pessoas a partir de 17 anos moradoras de todas as regiões do Brasil, com predomínio das classes B e C.

“Isso é muito para um país onde as pessoas normalmente não se interessam por política”, comenta Daniela Malouf, sócia diretora do instituto. Boa parte dessas discussões ocorre nas redes sociais. Para Daniela, a presença maciça da internet na vida dos brasileiros é um diferencial importante entre a atual crise e outras que já aconteceram no país. “Está mais fácil se inteirar e se posicionar sobre os assuntos”, afirma.

Além disso, o distanciamento encoraja a expressão de opiniões mais controversas. Segundo Daniela, as pessoas ficam muito mais inibidas em pesquisas presenciais, por exemplo, do que naquelas feitas por meio de chats na internet. (Juliana Tiraboschi)

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Condescendência papal

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O papa Francisco continua a mostrar que, mesmo sem passar por reformas doutrinárias profundas, o catolicismo pode tratar o diferente com mais tolerância. No documento Amoris Laetitia (“Alegria do amor”), divulgado em abril, a situação de divorciados e homossexuais recebe uma atenção que o Vaticano lhe devia há muito tempo. Os divorciados, por exemplo, devem saber “que são parte da Igreja, que não estão excomungados”, porque “ninguém pode ser condenado para sempre, pois esta não é a lógica do Evangelho”.

Segundo o texto, essas pessoas devem “estar mais integradas às comunidades cristãs”, e para tanto é preciso avaliar, caso a caso, “quais formas de exclusão devem ser ultrapassadas”. Já a pessoa homossexual “deve ser respeitada em sua dignidade e acolhida com respeito, com o objetivo de evitar ‘qualquer marca de injusta discriminação’ e, particularmente, toda forma de agressão e violência”.

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