Volta ao mundo de muletas

Não há lugar inatingível na Terra para o engenheiro agrônomo Luiz Thadeu Nunes e Silva e seu par de muletas, permanentes companheiras depois de um grave acidente de carro. Ele já visitou mais de 110 países nessa condição

Entre as contas de todos os meses, como água, luz e gás, Luiz Thadeu Nunes e Silva paga também, religiosamente, uma fatura pouco comum entre os itens básicos no custo de vida: passagens aéreas. Não porque ele parcele um pacote turístico em 12 vezes para poder viajar no tão esperado mês de férias. Mas sim, para manter um ritmo de oito a dez viagens internacionais por ano a passeio.

Nesse esquema há sete anos, o engenheiro agrônomo conheceu mais de 110 países, dos 194 reconhecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU). E já está com as passagens marcadas para bater sua meta de completar 120, em abril de 2017, quando deverá visitar dez países da Ásia. O projeto surgiu tímida e despretensiosamente por causa de um acidente de carro.

Em 2003, o maranhense voltava de um trabalho no Rio Grande do Norte quando o taxista foi atender o celular, perdeu o controle do carro e bateu de frente com um caminhão. Luiz Thadeu sofreu fratura exposta do fêmur, passou por 43 cirurgias e algumas complicações ao longo de quatro anos de tratamento, no Rio Grande do Norte, Maranhão e em São Paulo. Durante mais da metade desse período – uma temporada de oito meses e outra de 22 meses –, precisou usar fixadores externos da bacia até o pé. “Nessa época, eu me autoexilei, não queria que me vissem com aqueles ferros horríveis. Foi muito traumático.”

Superada essa fase e alguma resistência pessoal, um dos filhos dele, que estava estudando inglês em Dublin, na Irlanda, convenceu o pai a visitá-lo. O agrônomo planejou, então, sua primeira viagem com a esposa por oito países da Europa – ainda sem a pretensão de pôr em prática o que está fazendo hoje. Depois dessa experiên­cia, em que descobriu que a vida de muletas não era tão difícil quanto imaginava, Luiz Thadeu se viciou em viajar.

“Foi a forma que eu encontrei para me recuperar. Compensar o tempo que passei parado fazendo tratamento”, afirma. “Mesmo com a minha dificuldade de locomoção, posso ir a qualquer lugar do mundo. Não existe um destino ao que eu deixe de ir. E sempre procuro levar alguém comigo”, garante. Para se ter ideia, ele e suas muletas já pisaram, num mesmo mês, nos dois extremos habitados da Terra: Ushuaia, na Argentina, também conhecida como “Fim do Mundo”, e Barrow, no Alasca, a cidade mais setentrional do planeta, habitada por pouco mais de 2 mil pessoas.

Turbulências

Apesar de todo o entusiasmo e diversão proporcionados por uma ou várias dessas aventuras, elas não eliminam do dia a dia desse viajante as sequelas doloridas do acidente. Ele convive permanentemente com muitas dores na perna e não toma mais nenhum remédio contra isso, porque descobriu que as medicações acabam afetando determinados órgãos, como estômago e coração, e prefere preservar a saúde que tem. “Aprendi meditação e desenvolvi o autocontrole. A dor vem forte, tem um pico, e depois passa. É o mesmo que dar uma topada”, compara.

Mas suas limitações não são só físicas, ele garante. Também são de bolso e de língua. “Meu dinheiro é regrado, só voo de classe econômica e com as tarifas mais baratas que encontro”, diz. Luiz Thadeu tem no seu computador e no celular todos os principais sites e aplicativos de venda de passagem e hotéis. Vive recebendo alertas de promoções. “Minha cabeça é que nem biruta de aeroporto, fica virando de um lado para o outro atrás do próximo destino. O critério de decisão é simples: se cabe no bolso, eu viajo. Hoje estamos vivendo o melhor dos mundos nessa área de turismo. Eu queria estar nascendo hoje para aproveitar mais, se for ficar melhor ainda daqui para a frente.”

Graças a essas artimanhas, ele conseguiu ir para as cobiçadas – e caríssimas – Ilhas Seicheles, no Oceano Índico, por R$ 1.700 ida e volta, com a Ethiopian Air. A passagem até lá não costuma custar menos de R$ 5.000. O orçamento até permitiu que ele e o filho dessem uma esticadinha às vizinhas Ilhas Maurício, por US$ 300 a mais. Claro que esse roteiro só foi possível porque pegaram também uma promoção de resort – já que a proposta de um ambiente exclusivo nessas ilhas não deixa espaço para hospedagens em conta. “Eu sou campeão de viajar barato, alguém do Brasil até pode viajar tão barato quanto eu, mas não mais”, desafia.

Além da mobilidade reduzida e do “bolso raso”, Luiz Thadeu destaca outra limitação: “Eu não falo nenhuma outra língua, só me viro bem em ‘portunhol’”. Mas quem precisa de outro idioma, se tem mãos? Quando foi para Xangai, na China, ele brinca que falou o “mãodarim” em vez do mandarim. Fez-se entender por gestos o tempo todo. “Depois que entrei numa loja em Mumbai, na Índia, e encontrei um mudo se comunicando com os vendedores, entendi que tenho a obrigação de também fazer isso.” E já emenda outra história: “Na Índia, passei cinco dias com um motorista local que não falava espanhol, e eu não falo inglês. Não nos entendemos nem nos desentendemos nenhum dia, mas não nos perdemos em momento algum.”

Do inglês, ele explica que só aprendeu umas coisinhas estratégicas: how much? (“quanto custa”) e write (“escreva”), para poder entender a resposta sobre o preço, porque não adianta a pessoa dizer o valor se ele só sabe contar até dez na chamada “língua universal”. Luiz Thadeu aprendeu também a diferença entre AM (antes do meio-dia) e PM (depois do meio dia). “Assim não me perco com dinheiro nem com horário”, argumenta. A única frase inteira que faz parte do seu repertório é Take a picture, please (“tire uma foto, por favor”), que vem sempre acompanhada do gesto de mostrar a câmera, celular ou tablet – ele confessa que não gosta nem sabe usar o bastão de selfie.

Muitas das suas lembranças fotográficas dessas aventuras pelo planeta são registradas por lambe-lambes dos lugares turísticos. “Eles são incríveis. E eu volto com as melhores fotos do lugar, em qualquer lugar do mundo, pagando US$ 20-30. Vale muito a pena.” Às vezes ele ousa um pouco mais. Já fez um ensaio fotográfico pelas ruas de Nova York. O serviço foi mais caro, US$ 200, mas ele não se arrepende e elogia o trabalho realizado. “O fotógrafo de rua passou o dia todinho comigo. As fotografias ficaram show de bola.”

Portão de embarque

Hoje com 56 anos e muitas experiências na bagagem, Luiz Thadeu dá palestras gratuitas, principalmente para crianças nas escolas do seu estado, o Maranhão. “Quero mostrar para os outros que mesmo uma pessoa como eu, com as limitações que tenho, pode ir longe. Alguém com as pernas boas, que tem uma graninha guardada e fala inglês, então, pode se virar pelo planeta afora.”

Nas suas palestras, ele destaca que é preciso ter prioridade: não dá para pagar uma festa boa para os amigos, trocar o carro e viajar. “Quem quer tudo não vai conseguir fazer nenhum dos três. Não dá para viajar preo­cupado, com gerente do banco me ligando.” Por cerca de 30 anos, a prioridade de Luiz Thadeu foi poupar, quando ainda nem tinha o objetivo de rodar o mundo. Mas não pense você que agora ele saiu gastando tudo o que tinha economizado. “Transformei dinheiro em imóveis, que me mantêm, e com a minha renda do trabalho eu pago meus sonhos.” A vantagem é que pode trabalhar remotamente e tem flexibilidade de horário na empresa que mantém com um dos filhos.

Só uma dessas propriedades foi vendida, em 2009, quando Luiz Thadeu começou de fato a planejar conhecer 120 países. “Vendi um terreno por quatro vezes o valor que eu tinha pago, era num momento de boom do mercado do Maranhão. E na época o dólar estava a R$ 1,65.” Esse bom negócio permitiu que o projeto decolasse. “Mas continuo trabalhando como engenheiro agrônomo, faço e envio meus projetos pelo computador e depois fiscalizo.” As longas escalas que costumam baratear as passagens são muito bem utilizadas por ele para dar conta das entregas.

Atingir a meta dos 120 países, entretanto, não quer dizer o fim da fase de viagens para Luiz Thadeu. Quanto mais conhece do mundo, parece que mais sua lista de desejos aumenta. Para o segundo semestre do ano que vem, a ideia é dar uma volta ao mundo – um pacote oferecido por certos grupos de companhias aé­reas. Ainda está decidindo se fará o itinerário no sentido horário ou anti-horário. “Vou pisar nos cinco continentes e tomar banho em todos os oceanos numa só viagem”, já sonha.

Depois, Luiz Thadeu quer conhecer a Mongólia, percorrer a Transiberiana (ferrovia que liga Moscou, na Rússia, a Pequim, na China), fazer a Rota da Seda, pelos países da ex-União Soviética, e um mochilão pela América Central, de muletas e tudo. E seu entusiasmo não para aí. “Como nasci e moro numa ilha, São Luís (MA), botei na cabeça que vou visitar todas as principais ilhas do mundo”, anuncia. A lista começa com o arquipélago de Kiribati, que corre o sério risco de desaparecercom o aumento do nível do mar. Ele já tem o contato de um morador da ilha de Kiritimati, o primeiro lugar do planeta onde nasce o sol.

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Fronteiras fechadas

Embora Luiz Thadeu Nunes e Silva use muletas há 13 anos, o maior problema que passou nas suas andanças pelo mundo – em seu desembarque em Beirute, no Líbano – nada teve a ver com essa limitação. “Ninguém da família ou amigos pôde ir comigo”, lembra. Como sempre faz para facilitar o processo de chegada, pediu uma cadeira de rodas e apresentou seu passaporte com uma coleção de carimbos, o que costuma abrir as portas dos países que visita. “Mas invocaram porque eu estava sozinho. Perguntaram onde eu ia ficar e ligaram para confirmar minha reserva no hotel.”

Mesmo com a confirmação, não liberaram sua entrada e passaram a ser mais diretos. “Perguntaram para mim onde estava escondida a droga.” Foram momentos muito tensos, mas Luiz Thadeu não se conteve quando o policial começou a cheirar suas cuecas. “Tive um acesso de riso, o que deixou o policial superirritado. Não existem cães farejadores lá, e eles mesmos têm de fazer isso.”

Sem detectarem cheiros suspeitos, os policiais deram água para o brasileiro e não o deixaram ir ao banheiro. Após algum tempo, olharam sua pupila. Pegaram de novo o voucher, confirmaram o hotel e começaram a rir, liberando-o em seguida. “Mais tarde descobri que quem leva droga dentro do corpo grita de dor com a bexiga cheia e fica com a pupila dilatada. Eles tinham pegado naquele dia quatro brasileiros com drogas. Acharam que eu era mais um do grupo.”

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