2012: Morre Curt Meyer-Clason, tradutor de obras ibero-americanas para o alemão

Tradutor de obras de autores latino-americanos para o alemão, Curt Meyer-Clason foi figura relevante na divulgação da literatura do continente na Alemanha. Ele morreu aos 101 anos em 13 de janeiro de 2012 em Munique.Em texto que antecede a correspondência entre Curt Meyer-Clason e João Guimarães Rosa, publicada no ano de 2003, consta ser “significativo o rol de autores, entre poetas e prosadores, cujas obras Curt Meyer-Clason traduziu para o alemão”, entre eles Machado de Assis, Mário de Andrade, João Guimarães Rosa, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, João Ubaldo Ribeiro, Clarice Lispector, Oswald de Andrade e os poetas concretistas. Além disso, Meyer-Clason ainda traduziu e organizou antologias de autores latino-americanos.

Ele foi também responsável por transpor para o alemão obras de autores de língua espanhola, como Jorge Luis Borges, Pablo Neruda, Juan Carlos Onetti e Gabriel García Márquez, entre outros. “Um dos melhores e mais conhecidos tradutores do presente”, escreveu o diário Süddeutsche Zeitung ao noticiar sua morte, ocorrida em Munique em 13 de janeiro. Ao todo, Meyer-Clason traduziu mais de 150 livros.

“Ele tinha uma personalidade carismática, com uma trajetória brilhante”, estampou o jornal de Munique, cidade onde o tradutor viveu durante muitos anos. Ali, em sua casa, recebeu incontáveis vezes renomados intelectuais alemães e estrangeiros: “de Heinrich Böll, passando por Günter Grass e Hans-Magnus Enzensberger, até Martin Walser”, cita o Süddeutsche Zeitung.

“Amante da vida e dos livros”

Já idoso, Meyer-Clason lembrava sua juventude entre “mulheres, gravatas e jogos de tênis” – uma época na qual ele próprio dizia ter sido um dandy, antes de se voltar para a literatura latino-americana e assumir o papel de mediador cultural da mesma nos países de língua alemã.

“Graças a ele, a literatura ibero-americana conquistou seu lugar e seus leitores na Alemanha. Um mérito considerável, visto que, no país, costuma-se apreciar até um romantismo pálido, mas não a sensualidade explícita”, analisa o diário Die Welt, em texto intitulado O amante da vida e dos livros, por ocasião da morte do tradutor. Foi ele, continua o jornal, que conseguiu “transpor para uma forma alemã adequada o romance opulento e operístico Cem Anos de Solidão, de García Marquez”.

Passado polêmico

O tradutor, que optou tardiamente pela profissão, nasceu na cidade de Ludwigsburg, no sudoeste alemão, a 19 de setembro de 1910, e acabou se envolvendo “por acaso” com a literatura. Em janeiro de 1937, migrou para o Brasil, onde trabalhou inicialmente como comerciante, desfrutando de uma vida luxuosa, até ser preso, em 1942, acusado de espionagem. Nos dois anos em que passou no presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, é que teve despertados seu amor pelos livros e seu interesse pela literatura brasileira.

Apesar de toda a admiração que causava seu nome no meio literário, pairou sempre a dúvida sobre a veracidade ou não das acusações de que tinha sido espião do regime nazista, algo que ele próprio revidou até a morte. “Seu romance autobiográfico Equador (1986) não responde a todas essas questões, embora forneça impressões a respeito de sua vida barroca e excessiva”, escreve o Süddeutsche Zeitung.

Em abril de 1954, Meyer-Clason regressou à Alemanha, de onde continuou a cultuar a literatura brasileira, debruçando-se a seguir sobre o trabalho de tradução. Em 1969, assumiu a direção do Instituto Goethe em Portugal, que se tornaria mais tarde um local lendário, já que o instituto alemão, na época, acabou se transformando em um nicho para os intelectuais portugueses sob o regime de Salazar.

Grande Sertão: Veredas

Mas é por sua tradução de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, que Meyer-Clason se tornou conhecido entre estudiosos e leitores brasileiros. É célebre a frase em que o escritor brasileiro diz que “a tradução e a publicação em alemão me entusiasmam, por sua alta significação cultural, e porque julgo esse idioma o mais apto a captar e refletir todas as nuances da língua e do pensamento em que tentei vazar os meus livros”.

Mais tarde, Guimarães Rosa viria ainda a repetir em sua correspondência com o tradutor: “Estou certo de que não me engano. De que a tradução alemã vai ser a de maior rigor e valor, a tradução-mãe, a tradução-base. Ela é que virá nos dar, mundialmente, a nós dois, maiores aplausos”.

“Evitar o lugar-comum”

Em entrevista à equipe do documentário Outro Sertão, em fase final de produção, sobre os anos em que Guimarães Rosa viveu na Alemanha, declarou Meyer-Clason: “Em uma de nossas primeiras conversas, ele me disse: minha linguagem quer ser pesquisada. Ela é terrena, mística. Se minha linguagem pode ser traduzida, não deverá haver traços [na tradução] de uma cidade grande, de uma linguagem vulgar. Se for assim, minha obra estará sendo traída a partir da primeira palavra”. Por isso, relatou Meyer-Clason, o principal pedido de Guimarães Rosa era que o tradutor “evitasse o lugar-comum”.

Traduzir Rosa foi, nas palavras de Meyer-Clason, “a grande experiência da minha vida, se é que posso dizer isso. Pude me distanciar de mim mesmo e me aprofundar nele, especialmente no ritmo de sua prosa, na magia da construção das frases”.

“Papel cumprido”

É exatamente este ritmo da prosa de Guimarães Rosa que Berthold Zilly, professor do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim e especialista em literatura brasileira, atualmente professor visitante da Universidade Federal de Santa Catarina, tentará transpor para o alemão em nova tradução de Grande Sertão: Veredas – necessária, segundo diversos especialistas, devido às deficiências da tradução de Meyer-Clason. Zilly diz ser “natural” que a tradução de uma obra como Grande Sertão: Veredas seja feita em várias etapas.

Mas Meyer-Clason, segundo ele, cumpriu seu papel “pioneiro e de grande importância. Ele era sobretudo um conhecedor, admirador e amigo dos brasileiros e seus escritores, que não poderiam ter tido na Alemanha um melhor porta-voz, divulgador e defensor ferrenho”.

Para Zilly, Meyer-Clason “não só escrevia muito bem, como também falava bem. Em 1994, quando o Brasil foi tema central da Feira do Livro de Frankfurt pela primeira vez, ele fascinou o público falando da sua relação dele com Guimarães Rosa. Claro que se pode criticar algumas estratégias dele como tradutor, como por exemplo uma espécie de aplainamento do estilo, de modo que todos os autores traduzidos, independentemente do seu estilo e temperamento, parecem tender a escrever de modo parecido, no alemão meyer-clasoniano. Mas ele, de qualquer forma, conseguiu divulgar muitíssimas obras das literaturas ibéricas nos países de língua alemã. Sem ele, esses autores talvez ainda fossem desconhecidos na Europa Central”.

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