A agonia do mar morto

Ameaçado por fatores geológicos e (principalmente) humanos.

Markus Soeder, ministro da Saúde e do Meio Ambiente da província alemã da Bavária, examina depósitos de sal no Mar Morto em agosto de 2009, numa viagem dedicada ao exame da delicada situação da água naquela região.

O Mar Morto, símbolo caro às três grandes religiões monoteístas do mundo – cristianismo, islamismo e judaísmo –, pode estar a caminho de se tornar um pequeno e inexpressivo lago, enquanto a letargia política dificulta a tomada de decisões capazes de salvá-lo. O nível da superfície desse corpo d’água encravado entre Israel, Jordânia e Cisjordânia cai em média um metro por ano, e em determinados pontos o litoral já recuou mais de um quilômetro. No atual ritmo, e sem medidas que enfrentem essa tendência de encolhimento, alguns especialistas afirmam que o Mar Morto corre o risco de secar até 2050.

“Ele pode ser confinado em um pequeno lago”, afirmou à agência de notícias AFP o especialista em água jordaniano Dureid Mahasneh, ex-chefe do Departamento do Vale do Jordão. “É provável que aconteça, e isso é extremamente grave. Ninguém está fazendo nada para salvá-lo agora. Resgatar o Mar Morto é uma questão regional, e se você considerar o patrimônio ambiental e a importância histórica ou mesmo a geográfica, é um problema internacional.”

crostas de sal no Mar Morto. Israel e Jordânia têm retirado o produto do leito do lago, uma das atividades que têm afetado o seu nível

Criado pelo mesmo movimento das placas tectônicas que há vários milhões de anos formou o Grande Vale do Rift, na África, o Mar Morto – nome pelo qual é conhecido desde o século 2 d.C. – deve seu atual estado precário a fatores tanto humanos quanto geológicos. Antes parte de um lago muito maior que se estendia até o Mar da Galileia, ao norte, ele perdeu sua ligação com o Mediterrâneo cerca de 18 mil anos atrás – a água desse trecho evaporou, deixando um resíduo de sal em uma bacia desértica na maior depressão da Terra, a 395 metros abaixo do nível do mar.

Desde então, esse corpo d’água vinha mantendo seu equilíbrio por meio de um ciclo natural frágil: recebia a água doce do Rio Jordão e de outros pequenos cursos d’água, originários das montanhas circundantes, e a perdia por evaporação. A propósito, o processo de evaporação, combinado com os ricos depósitos de sal ali encontrados, explica sua extraordinária salinidade – até 33% (o segundo colocado nesse quesito, o Grande Lago Salgado de Utah, nos Estados Unidos, chega a 27%). Em consequência, nenhum ser vivo habita suas águas. Por outro lado, essa grande quantidade de sal impede que os corpos afundem – uma das curiosidades que atraem turistas para a região.

Até a década de 1950, o fluxo de água doce recebido pelo Mar Morto se equiparava com a taxa de evaporação e, assim, os níveis de água mantinham-se estáveis. Nessa época, o lago salgado tinha cerca de 80 quilômetros de extensão e 18 quilômetros de largura, compondo uma superfície de aproximadamente 1.050 quilômetros quadrados. Israel começou a mudar esse quadro em 1960, ao aproveitar uma represa antes usada na produção de eletricidade, a Degania, para coletar água do Alto Jordão e, com ela, abastecer o país.

imagem que ilustra o recuo da água.

Essa estratégia fez o fluxo de água do rio que chegava ao Mar Morto cair drasticamente. Para piorar o quadro, na década seguinte a Jordânia e a Síria passaram a desviar a água do principal afluente do Baixo Jordão, o Yarmouk, para finalidades agrícolas e industriais. A organização não governamental Friends of the Earth Middle East (FoEME) calcula que, durante os últimos 50 anos, a vazão anual do Jordão caiu de mais de 1,3 bilhão de metros cúbicos para cerca de 70 milhões de metros cúbicos.

O resultado disso é que, atualmente, apenas 5% do volume natural de água do Jordão é despejado no Mar Morto. (Israel fica com 60%, enquanto Jordânia e Síria desviam os outros 35%.). Mesmo essa porcentagem acanhada não está livre de problemas: segundo a FoEME, é esgoto em vários estágios de tratamento, o que acarreta desequilíbrios nos ecossistemas naturais localizados no entorno. Além disso, especialistas garantem que a maioria das nascentes no Vale do Jordão que deságuam diretamente no Mar Morto está atualmente represada.

Por fim, a queda dos níveis de águas subterrâneas e os efeitos das atividades turísticas, industriais e de mineração na área contribuem para agravar ainda mais a situação. No sul do Mar Morto, por exemplo, Israel e Jordânia construíram piscinas de evaporação maciça para extrair sal e fosfato. Enquanto isso, hotéis de luxo erguidos às margens do lago – destinados a turistas interessados no ar rico em oxigênio, nas paisagens bíblicas e nos supostos poderes curativos da lama e dos minerais ali presentes – ficam, melancolicamente, cada vez mais distantes dele.

Atrativos como a alta salinidade, que impede as pessoas de afundar, e as supostas propriedades curativas da lama ali encontrada fazem do Mar Morto um dos redutos turísticos mais visitados daquela parte do mundo. Mas os hotéis que recebem esses visitantes consomem água que originariamente chegaria ao lago salgado, prejudicando ainda mais o seu nível.

Calcula-se que, nas últimas cinco décadas, o Mar Morto perdeu um terço de sua superfície. Seus cerca de 80 quilômetros de extensão transformaram-se em 67 quilômetros hoje. De acordo com a FoEME, o nível do lago caiu dos 395 metros abaixo do nível do Mediterrâneo, em 1960, para 422 metros, em 2009, e esse número deve aumentar ainda mais: simplesmente para manter suas atuais dimensões, o Mar Morto precisaria de um aporte adicional de 160 bilhões de galões de água por ano, mas recebe apenas 10% disso.

E não se deve desprezar os efeitos do aquecimento global. “A mudança climática afetou tudo”, disse Dureid Mahasneh à AFP. “É uma guarda-chuva para vários problemas, incluindo escassez pluviométrica. Nada está sendo feito a sério para combater as alterações climáticas. São necessárias soluções integradas e sustentáveis.”

SÓ 5% DO VOLUME NATURAL DE ÁGUA DO RIO JORDÃO CHEGA AO MAR MORTO. É ESGOTO EM VÁRIOS ESTÁGIOS DE TRATAMENTO

A alternativa mais comentada atualmente é a de um duto ligando o Mar Vermelho ao Mar Morto. O projeto, baseado num estudo do Banco Mundial e orçado em cerca de US$ 2 bilhões, trata do transporte de 2 bilhões de metros cúbicos de água por ano, através de uma tubulação de 200 quilômetros, para produzir água doce e gerar eletricidade, bem como elevar o nível do Mar Morto.

Aprovado em linhas gerais pelos três principais envolvidos – Israel, Jordânia e Autoridade Palestina – em 2005, o plano não demorou a pousar nas gavetas dos burocratas. A falta de vontade geral certamente foi influenciada pelas complicações políticas e econômicas enfrentadas na área, além de questionamentos técnicos.

Alguns ambientalistas lembraram, por exemplo, que a água do Mar Vermelho provavelmente alteraria a química peculiar do Mar Morto. “Estamos lidando com pelo menos dois ecossistemas sensíveis e diferentes: o Mar Morto e o Mar Vermelho”, ressaltou Munqeth Mehyar, presidente da FoEME, à AFP. “Precisamos também manter a mente aberta sobre outras alternativas possíveis.”

Para ele, a preferência é recuperar o Rio Jordão: “Estamos trabalhando duro para reabilitá-lo, através do aumento e da manutenção do seu fluxo, a fim de salvá-lo e salvar o Mar Morto. Não posso afirmar que podemos evitar que o nível do Mar Morto caia mais, mas penso que podemos controlar o problema, e a cooperação de todos os lados é um dever.”

Fragmento de um pergaminho do Mar Morto: testemunho da importância histórica da região.

Mahasneh, por seu lado, é favorável ao plano: “O projeto Morto-Vermelho é como um plano de salvamento – não há outra opção. Mas não será uma tarefa fácil, por motivos políticos e econômicos.”

Em setembro de 2009, o governo jordaniano anunciou que tocaria unilateralmente a obra dos dutos. Mas a decisão ainda não é definitiva, conforme ressalvou à AFP o ministro do Meio Ambiente do país, Khaled Irani: “Vamos esperar e ver os resultados do estudo de impacto ambiental. Podemos não avançar com o projeto se ele for criar uma grande confusão com o ecossistema, mas se pudermos trazer água para o Mar Morto e manter a mesma qualidade ecológica que ele tem, por que não?”

Representante de um dos dez países mais secos do mundo, com 92% do território ocupado pelo deserto, Irani não esconde a importância do tema para seu governo, mas lembra que essa deve ser uma responsabilidade compartilhada: “Precisamos ter certeza de que sempre existe água corrente fluindo para o Mar Morto. Ele é único em muitos aspectos, não apenas para a Jordânia, mas também para os israelenses e palestinos.”

A força da vida num ambiente hostil

Curiosamente, os ecossistemas vinculados ao Mar Morto possuem um vigor que surpreende. Existem na região seis oásis, alimentados por fontes de água doce e aquíferos, nos quais crescem espécimes locais de plantas, peixes e mamíferos, como o leopardo e o íbex (uma espécie de cabra selvagem). Cerca de 500 milhões de pássaros, de pelo menos 300 espécies, como cegonhas e pelicanos, têm ali um ponto de parada durante sua migração bianual entre a Europa e a África. No entanto, o encolhimento do Mar Morto tem alterado esse quadro, provocando mudanças na posição dos oásis. Segundo algumas previsões, esses terrenos férteis em meio ao deserto podem ser extintos nos próximos anos.

Tesouros de três grandes religiões

Não é por falta de pedigree histórico e religioso que o Mar Morto corre o risco de virar um lago inexpressivo. Eventos importantes para o cristianismo, o islamismo e o judaísmo ocorreram naquela região. Jesus, por exemplo, teria viajado da Galileia ao Mar Morto para ser batizado no Rio Jordão. Na fortaleza de Masada, cerca de mil judeus optaram por se suicidar em vez de render-se às tropas romanas, em 73 d.C.

Para alguns muçulmanos, Moisés (considerado um profeta no islamismo) estaria sepultado numa mesquita no topo de uma colina, perto da principal estrada que leva a Jerusalém. No século 5, ascetas oriundos da Ásia Menor ocuparam numerosas cavernas na região, onde construíram mosteiros como Mar Saba (o mais antigo habitado continuamente no mundo). E em 1947, a busca a uma cabra perdida no Deserto da Judeia levou pastores beduínos a encontrar, em uma caverna em Qumran (na costa norte do corpo d’água), as relíquias conhecidas como os Pergaminhos do Mar Morto.

O flagelo dos sumidouros

Quem passa pelas margens do Mar Morto tem de se precaver com um problema incômodo derivado do volume cada vez menor de água no lago: o surgimento de grandes buracos, que prejudicam agricultores, hotéis e indústrias instalados na região. Apenas numa única localidade, Ghor Haditha, no sul do Vale do Rio Jordão, há mais de 100 desses sumidouros. “Esses buracos são bombas-relógio – podem aparecer a qualquer momento e engolir tudo”, afi rmou à AFP o pesquisador Fathi Huweimer, da organização não governamental Friends of Earth Middle East (FoEME).

Um desses buracos, com 20 metros de largura e 40 metros de profundidade, inviabilizou a pequena fazenda de Izzat Khanazreh em Ghor Haditha. Cheia de rachaduras, a terra fi cou imprestável para a agricultura e forçou Khanazreh a trabalhar para outros fazendeiros. Outro sumidouro apareceu sob uma fábrica com 60 funcionários e obrigou seus proprietários a deslocá-la, disse Huweimer.

O risco de ser tragado por esses buracos é considerável. Com uma dose de humor negro, os habitantes locais dizem que há um consolo para quem tiver essa experiência: seu nome será dado ao sumidouro que o engoliu.

dois exemplos dos buracos que têm surgido ao redor do Mar Morto. De acordo com ativistas da oNG FoEME, os sumidouros podem aparecer a qualquer momento e engolir tudo. Eles representam um prejuízo considerável para as atividades agrícolas, industriais e turísticas na área.

 

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