A alma escura do reverendo Jones

Há exatos 30 anos, na Guiana, aconteceu o maior suicídio coletivo do século 20. Novecentos e oito americanos, guiados por um fanático religioso, protagonizaram a tragédia

Templo do Povo, Jonestown, Guiana, 20 de novembro de 1978. Um balde contendo a mistura letal: suco de uva com cianeto.

O maior suicídio coletivo do século 20 aconteceu há exatos 30 anos, a 18 de novembro de 1978. Ele ocorreu num lugar chamado de “Templo do Povo”, a igreja fundada pelo reverendo Jim Jones, primeiro no seu Estado natal, Indiana, Odepois na Califórnia e, a seguir, transferida para a Guiana. Os protagonistas dessa tragédia eram todos norte-americanos: o próprio reverendo Jones, que guiava aquele culto batista “como um pai, e em nome do Pai”, as mulheres, os homens, os adolescentes, as crianças. Todos os 908 membros do culto foram encontrados mortos. A maioria tinha bebido suco de uva com cianeto, um veneno mortal.

Poucas horas antes, alguns membros do culto tinham assassinado com armas automáticas o deputado norte-americano Leo Ryan, que fora investigar as suspeitas de violências cometidas no “templo”; tinham matado os jornalistas e o cinegrafista que estavam ali para visitar e filmar o “paraíso na terra, cheio de palmeiras, tâmaras e mel” que o reverendo Jones prometera a seus fiéis seguidores.

Um jovem jornalista sobreviveu: Ron Javers, enviado pelo jornal San Francisco Examiner. Anos depois, Javers ainda recordava o medo, a desorientação, uma corrida doida selva adentro, a dor e as horas de solidão passadas na floresta, enquanto perdia sangue do ombro perfurado por uma bala. Ele se lembra de ter anotado no caderninho a expressão “falso profeta”, depois de ter conversado, um dia antes, com Jim Jones.

“Como se faz para compreender a tempo se um pastor cativante, que usa um tom paternal ao falar, é um falso profeta? Ele lembrava um pai até quando adotava certos comportamentos despóticos. Ou assim pensavam os seus crentes”, ponderou Javers.

Ron Javers usou a palavra justa: crentes. Fiéis a ponto de morrer pelo líder. Porque, com certeza, os adultos sabiam perfeitamente que iriam morrer ao tomar o veneno. Haviam lhes dito que fariam isso constrangidos pela maldade dos homens ateus que queriam obrigá-los a abandonar o paraíso na terra, montado no calor delirante da Guiana. Um outro paraíso os esperava do outro lado. Bastava atirar-se no abismo da morte em nome de Deus.

Com sua bela voz, tom carismático, grande crucifixo pendurado no peito, sempre vestido com paletós de linho, o reverendo Jones era muito popular na Califórnia nos anos 1970. Embora regularmente ordenado numa congregação batista, Jones era considerado um pastor rebelde que muitas vezes agia fora das normas. Era um estudioso obsessivo da Bíblia. Para ele, era como se o texto bíblico fosse gravado em pedra, uma escritura irremovível e literal que devia ser obedecida nos mínimos detalhes.

Observadores que visitaram o seu templo em San Francisco, como o jornalista italiano Furio Colombo, antes do traslado para a Guiana, lembram que muitos dos seus discípulos eram negros: “Apresentavam um olhar perdido, o semblante cansado e emaciado, crianças com aspecto descuidado, homens que pareciam zumbis, bruscamente alijados da verdadeira vida. Alguns me falaram do sindicato ao qual tinham pertencido, outros da atividade política que tinham abandonado, muitos dos pequenos e grandes ofícios perdidos.”

No púlpito, a pregação de Jones não parecia absurda ou doida. Ele tinha forte carisma, falava com clareza e autoridade. Mas o que parecia inexplicável aos olhos dos observadores era o domínio que exercia sobre seus seguidores, os laços de obediência absoluta que ele sabia construir. Tratava-se de fé ou coação psicológica?

Os Estados Unidos constituem uma das maiores democracias do mundo em termos de liberdade religiosa. A cultura norte-americana como um todo é fortemente exposta às influências provenientes das religiões. Mas, desde a grande tragédia da Guiana, surgiu no país uma maior necessidade de distinguir entre igreja e igreja, entre fé e fé, entre religião e religião. Várias organizações, tanto laicas quanto oficiais, tentam detectar focos de loucura ou de crimes cometidos em nome de Deus.

Desde Jim Jones, a palavra “seita” adquiriu um tom ameaçador e até mesmo pejorativo. Fortaleceu-se nos Estados Unidos a idéia de que é necessário, sim, respeitar-se a fé, mas não todas as suas encarnações.

NÃO É UM TRABALHO fácil. A cada dia surgem novos líderes e suas respectivas neo-igrejas, favorecidos pela lei norte- americana, que – como no caso da lei brasileira – é muito elástica e condescendente no caso de atividades do gênero. Inumeráveis grupos religiosos ou “igrejas” guiados por personagens estranhos, misteriosos ou perigosos ainda se encontram no centro da vida norteamericana, influenciando a população com livros, jornais e revistas, rádios e televisões, e muito, muito dinheiro. Da matriz norte-americana, o exemplo é exportado e se propaga em quase todos os demais países do continente, e também na Europa e na África.

Nesses lugares, as seitas se espalham e atuam a seu bel-prazer, encontrando pouca ou nenhuma resistência por parte das autoridades governamentais. Nos Estados Unidos, advogados corajosos foram e continuam indo aos tribunais para tentar combater essas igrejas e seitas que reduzem os seus crentes a meros fantasmas, destituídos de liberdade e de vontade própria. Nem todos foram bemsucedidos nessa cruzada. Alguns, inclusive, pagaram o combate com a própria vida, como foi o caso do deputado Ryan. Ou, há pouco mais de uma década, o caso de um jovem advogado da Califórnia que, ao enfiar a mão na sua caixa do correio, diante da sua casa, foi mordido por uma serpente enviada do Brasil com esse propósito. O veneno dessa cobra, sem antídoto na região, impediu que ele fosse salvo.

Acima, a casa de Jim Jones em Jonestown. Abaixo, sob a liderança do reverendo, um suicídio em massa provocou a morte de 908 seguidores

O corpo que o governo norte-americano alega ser o de Jim Jones. Mas as dúvidas sobre sua identidade ainda persistem.

ONDE ESTÃO AS TATUAGENS?

Filho de um líder da organização racista Ku Klux Klan, Jim Jones se considerava uma reencarnação de Lênin e Jesus Cristo. Estabeleceu a sede do seu primeiro Templo do Povo em Indiana, depois em Ukiah, na Califórnia, para esperar o Armagedon.

Cansado de esperar pela Terceira Guerra Mundial, ele transferiu sua igreja para San Francisco, onde recebeu numerosos prêmios e condecorações humanitárias e se tornou o administrador da Housing Authority.

Em 1977, por razões não esclarecidas, ele se declarou forçado a transferir sua igreja para a Guiana, na América do Sul. Ali, no isolamento da selva, criou sua “cidade de sonho”, Jonestown – ao mesmo tempo que enlouquecia. O nirvana de Jones rapidamente se deteriorou, virando um pesadelo do qual ele só viu uma saída: a morte.

A 18 de novembro de 1978, o deputado Leo Ryan, de San Francisco, passou um dia nos pavilhões da selva investigando denúncias de abusos contra direitos humanos. Quando Ryan, sua comitiva e mais 18 membros do templo que desejam retornar aos Estados Unidos se preparavam para tomar o avião que os levaria de volta, caíram numa emboscada na pista de decolagem. Ryan, três jornalistas e um fugitivo do templo foram mortos. Onze outros ficaram feridos.

Horas depois, o reverendo ordenou a seus seguidores que bebessem uma mistura de suco de uva com cianeto e tranqüilizantes. Todos os 908 fiéis morreram. As crianças em primeiro lugar; os bebês foram mortos logo em seguida, com o uso de seringas. Depois, foi a vez dos adultos. A maior parte tomou o veneno por conta própria; outros foram forçados a fazê-lo. Alguns foram baleados pelos guardas da segurança. Não ficou claro se Jim Jones meteu uma bala na própria cabeça, ou se alguém fez isso por ele. A maior parte dos corpos foi trasladada para os Estados Unidos; muitos não puderam ser identificados.

Jonestown praticamente desapareceu do mapa, saqueada pelos habitantes da região e consumida pelo fogo no início dos anos 1980. Muitos acreditam que Jones pertencia à CIA e que o massacre de Jonestown foi, na realidade, uma experiência de controle mental de massa. Se isso for verdade, o experimento obteve total sucesso. Anos depois, um assassino serial, Henry Lee Lucas, confessou ter entregue pessoalmente o cianeto ao seu “bom amigo, Jim Jones”.

Último detalhe curioso sobre o reverendo: Jim Jones possuía várias tatuagens; o corpo que foi sepultado como sendo o dele, nenhuma.

Soldado americano passa diante de uma pilha de corpos de suicidas, reunidos no pavilhão central de Jonestown.

TODAS ESSAS IGREJAS e seitas, no entanto, continuam existindo, funcionando, como “religiões isentas de impostos”. Continuam a invadir as mentes e os corações, e a “cristianizar” a América Latina, recolhendo fundos imensos, tirando dinheiro até mesmo dos mais pobres e humildes. Afirmam que a “salvação”, até mesmo a física, chega de maneira instantânea, com a obtenção da graça divina. E, para se alcançar a graça, é necessário mergulhar cegamente no culto – além de pagar o dízimo, é claro…

No duelo contra a razão e a cultura, a maior parte das vitórias tem sido conquistada pelas igrejas, inclusive as igrejas mais misteriosas, expostas a gravíssimas suspeitas. Em vão fugitivos e sobreviventes encontraram a coragem para denunciar os abusos que sofreram. Até mesmo as vozes mais alarmadas não conseguiram arranhar as cidadelas desses cultos. Criou-se, em lugar disso, a constelação fanática das igrejas fundamentalistas, que hoje exerce muita influência na Câmara e no Senado dos Estados Unidos. Sem falar do próprio governo de George W. Bush, ele mesmo defensor de idéias bem pouco ortodoxas em termos cristãos.

Jim Jones pereceu junto aos seus seguidores no grande suicídio coletivo da Guiana. Mas o princípio fanático que o animava permanece bem vivo e atuante.

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