A arte da América ancestral

Conhecer o acervo de peças seculares do museu chileno é reviver a cultura dos povos que habitavam a América Latina antes da chegada dos europeus

São várias peças em ouro, a maioria em ouro maciço, o suficiente para causar espanto e fazer crescer os olhos do mais desapegado dos visitantes. Há mais de 500 anos, era esse mesmo metal que atraía a cobiça dos europeus para uma terra distante que depois chamaram de América. Hoje, de um modo menos aventureiro, o ouro continua a ser cobiçado no mundo todo, mas ali, nas vitrines do Museu Chileno de Arte Pré-Colombiana, a verdadeira riqueza exposta não é o brilhante metal, mas a arte de dezenas de povos que habitavam essas terras antes mesmo da chegada dos invasores estrangeiros.

Um dos mais importantes museus do Chile, localizado na capital, Santiago, foi fundado em dezembro de 1981, por iniciativa de Sergio Larraín García-Moreno, empresário que possuía um grande acervo de peças de várias partes da América e resolveu expor seu patrimônio ao público. Num acordo com a prefeitura da cidade, criaram um museu pioneiro no continente, com o intuito de divulgar e estudar o legado artístico de todos os povos pré-colombianos, independentemente das fronteiras que hoje os dividem em países. Logo na entrada, um grande mapa de toda a América Latina oferece um panorama das centenas de culturas que habitaram o continente. As obras são agrupadas por regiões, por técnicas, por cultura ou mesmo pelo material – tecido, metal e cerâmica, entre outros. Além de peças maias, astecas e incas, amplamente conhecidas, existem outras toltecas, chimus, diaguitas, chavins, mapuches, vicus, nazcas e tiwanakus, só para citar alguns dos povos ali representados, cujas culturas são de extrema importância para se entender nossas origens.

Nesta foto, peças dos povos asteca e maia, que viveram no México. Abaixo, peça em cerâmica utilizada em rituais do povo nazca, do Peru.

O ouro, metal que atraiu os europeus para a América, era a matéria-prima para a arte dos povos ancestrais

Os ambientes desses povos, por exemplo, eram muito decorados, sendo que esse aparato estético e arquitetônico funcionava também como uma divisão de classes sociais, posições hierárquicas e status. Uma das peças que chamam a atenção para esse fato é um baixo-relevo da cultura maia (600 a 900 d.C.), encontrado em escavações de um centro administrativo na península de Yucatán, no México. Medindo cerca de dois metros de altura por um de largura, traz a figura de um guerreiro armado com sua lança e escudo.

Aos pés do guerreiro, encontram-se dois prisioneiros sentados, provavelmente governantes rivais, que, ao serem vencidos, seriam sacrificados. Sim, muitos desses povos foram grandes guerreiros e, inclusive, deram muito trabalho para os espanhóis que invadiam suas terras. Ainda dessa mesma época, chama a atenção um grande incensário, também utilizado nos rituais da cultura maia, uma das primeiras civilizações a conseguir um desenvolvimento social e urbano com hierarquias e controle de grandes povoações. Representa o Deus- Sol, caracterizado por seus grandes olhos e nariz de águia.

O ouro, metal que atraiu os europeus para a América, também fazia parte da arte de muitas culturas, principalmente de regiões que hoje são países como o Peru ou a Colômbia. É espantosa a técnica usada por povos como os diquís e os veraguas, que viveram do século 7 ao 16 e desenvolveram formas muito delicadas de manipulação, talvez as mais finas do mundo pré-colombiano. Uma dessas técnicas utilizava cera para confeccionar objetos minúsculos e repletos de detalhes.

Acima, boneca em cerâmica que representa a sexualidade do povo chavin, que também viveu no Chile. Abaixo, um incensário em forma de totem da cultura maia.

Modelavam as peças primeiramente em cera, que posteriormente era recoberta com argila. A argila era cozida de modo que o barro endurecesse e a cera derretesse, deixando em seu interior o molde que seria recheado com ouro fundido. Ao se quebrar a argila, surgiam peças de incrível minúcia. Duas dessas verdadeiras obras-primas, com pouco mais de quatro centímetros, trazem detalhes dos órgãos sexuais de um homem e as penas de uma águia.

Outra demonstração artística de grande valor está na tecelagem, principalmente da região dos Andes Centrais, como do Peru e do Chile. Ali a arte das tramas alcançou um alto nível estético e técnico. Suas origens datam de mais de dez mil anos atrás, com grupos de pescadores e caçadores-coletores, que chegaram a cultivar o algodão antes mesmo de muitas plantas alimentícias. Eles também usavam as fibras de animais como lhamas e alpacas (ou de seus ancestrais), muito comuns na região. As estampas confeccionadas por esses povos eram uma forma de comunicar acerca de sua identidade étnica, sua classe social e política e até mesmo mediar a passagem da vida para a morte.

Fundado em 1981, o museu abriga peças de inestimável valor artístico, cultural e histórico

Exemplos dessa trama simbólica são vistos em uma das salas do museu, que possui uma iluminação e umidade controladas, para não danificar os tecidos. Ali, à meia-luz, estão expostos fardos funerários dos povos parakas e nazca, entre eles uma múmia, toda enrolada em tecidos multicoloridos, cheios de significados místicos. Tecnicamente, essas peças também representam um outro avanço: o uso do tear.

Nascido por volta de 1400 a.C., o tipo de tear utilizado por esses povos andinos acelerou ainda mais o desenvolvimento da arte têxtil, permitindo a criação de novas tramas e desenhos mais complexos. No que diz respeito à tecelagem, o Museu Chileno de Arte Pré-Colombiana possui um dos mais completos e preservados acervos do mundo, o que se deve em parte ao fato de a maioria de suas peças ter sido encontrada nas regiões áridas do Peru e do Chile, onde a baixa umidade ajudou na preservação.

No sentido horário, acima, vasilha asteca em que se bebiam substâncias alucinógenas; múmia feita com tecidos da cultura parakas; cerâmica representando os mascadores de coca da Colômbia; e peça mapuche de pedra representando um machado de guerra.

Um dos pontos altos da visita ao museu chileno é conhecer parte da cultura ancestral desse país, ali representada pela arte de povos como os diaguitas, aconcáguas, chicorros e mapuches. Como nossos índios, estes últimos ainda vivem (e resistem) espalhados pelo país. Atualmente estima-se que cerca de um milhão de mapuches integrem a população do Chile.

Dentro do museu, o que se percebe é que uma das principais características da cultura ancestral chilena é o trabalho com argila. A cerâmica diaguita, que tem sua origem no século 9, apresenta com freqüência desenhos geométricos, cujo teor é relacionado com as imagens obtidas após o consumo de plantas alucinógenas. O desenho de algumas vasilhas expostas parece repetido; no entanto, basta observar mais de perto para se notar variações mínimas e sutis que demonstram o grande apuro artístico.

Se a tecelagem era usada para comunicar aspectos do mundo social dos povos pré-hispânicos, no caso do Chile não poderia ser diferente, principalmente entre as culturas que habitaram a região norte do país. Empregaram tais significados em tocas, chapéus e gorros. Um ótimo exemplo é um gorro de quatro pontas do povo tiwanaku, da região de Arica, que representa graficamente o poder exercido por esse império que durou de 700 a 1100 d.C.

Mas uma das grandes atrações do museu pertence mesmo à cultura mapuche: os chemamulls, grandes estátuas esculpidas em madeira, usadas durante o velório de seus mortos. Tamanha é a importância cultural dessa peças que até as primeiras décadas do século 20 os mapuches do sul do Chile ainda as usavam como um dos componentes essenciais de seus rituais funerários. Tal como seus ancestrais, colocavam a estátua de madeira junto ao defunto para que parentes e amigos ali pronunciassem seus discursos.

Na etapa final da cerimônia, o chemamull era colocado junto à tumba do falecido para indicar o lugar onde ele permaneceria enterrado. Para os mapuches, esse ritual era extremamente necessário, pois a morte era (e é) vista como um elemento de equilíbrio entre as forças que controlam o universo.

Séculos depois, esses grandes totens expostos no museu de Santiago demonstram justamente o poder ancestral dos primeiros habitantes do Chile. Fora dos museus, os mapuches ainda seguem lutando para manter sua cultura. Defendem a terra que era deles antes da chegada dos europeus. Por sorte e para a felicidade de quem visita esse museu, estes últimos não conseguiram destruir tudo.

SERVIÇO

Situado na Rua Bandera, 361, o Museu Chileno de Arte Pré-Colombiana (Museo Chileno de Arte Precolombino) fica bem no centro de Santiago, próximo à Praça de Armas e ao metrô do mesmo nome. Funciona de terça a domingo, das 10h às 18h. Site: www.precolombino.cl

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