A arte de contar mentiras

Tão antiga quanto a humanidade, a mentira é uma experiência que exige esforço considerável.

Linda de arrasar, a executiva chega para a reunião com o presidente e a diretoria da multinacional. É seu dia de apresentação na empresa. nica mulher na diretoria, cruza as pernas e nota um problema: a meia furada no joelho direito. Descruza as pernas e cruza para o outro lado. Não dá certo, o furo continua à mostra. Tenta cobrir com a saia. Puxa daqui, estica dali, mas a maldita não chega lá.

Como um fio que corre puxa o outro, a moça entra em pânico ao ver que, de tanto cruzar e descruzar as pernas – aquilo já vai pegando mal -, o buraco sobre o joelho aumenta, ressaltado pelo cinza da meia e a brancura de sua pele.

Pensa em ir ao banheiro, tirar as meias. Ir ao banheiro justamente agora? Além do mais, todos notariam que de repente tinha perdido as meias, ou coisa pior. Tem de ter outro jeito… Nisso, soa a voz do presidente:

“Dona Maria Eduarda, a senhora está precisando de alguma coisa?”

Ela quer afundar na poltrona, vermelha feito um camarão. Que vergonha!

A vergonha nos faz sofrer. Ela é o sinal de que nossa imagem pública está se quebrando, se não perante os outros, pelo menos para nós mesmos. O presidente nem tinha percebido que a meia de Maria Eduarda estava se rasgando. Queria apenas ser gentil, ao notar que sua nova diretora estava tão irrequieta.

O sofrimento é proporcional ao valor que damos a nossa imagem. Se nos damos muita importância, a vergonha pode nos fazer até cair de cama, em profunda depressão. O motivo pode ser uma coisa menor, e em geral o é. Mas isso pouco importa.

“Depois daquela estréia, faltei no dia seguinte. Fiquei tão arrasada que telefonei para uma amiga. Contei a história e ela me disse, com voz calma e pausada: ‘Pior do que isso, Maria Eduarda, seria um pedaço de alface no dente da frente, se você estivesse num almoço com eles.'”

Foi como se Maria Eduarda voltasse de um coma profundo.

“Se nos damos muita importância, a vergonha pode nos fazer até cair em profunda depressão”

“Comecei a rir e de repente gargalhava, imaginando a cena. Ponhamos os pés no chão: uma meia rasgada é só uma meia rasgada. E você é só uma mulher, não a Mulher Maravilha.”

Na vergonha, o que conta é sua expectativa sobre o julgamento do outro, o que ele está pensando ou vai pensar de você. Ele é o centro de tudo nessa hora, um centro ampliado, porque o outro são todas as pessoas presentes no momento em que se dá a gafe. A pressão é colossal.

João Antonio, outro envergonhado, estava na festa de 85 anos de uma famosa atriz, que havia sido linda na juventude e pelo menos até os seus 45 anos. Aos 85, evidentemente, não era mais nem sombra do passado. Por isso, vivia em constantes surtos de depressão. Uma de suas obsessões era ligar para os editores dos jornais e pedir que recolhessem as fotos que tivessem dela e as remetessem para seu endereço. Rasgaria todas elas, poupando somente as mais antigas – caso contrário, processaria o jornal se ousasse publicar mais uma vez as mais recentes.

Amigos convenceram-na a dar a festa dos 85 e lá foi ela, toda faceira, para a bonita residência de um casal, no Jardim Europa, em São Paulo. A festa corria agradável e, na hora dos presentes, um deles arrancou um “oh!” de admiração: uma estatueta de cristal moldada com seu perfil, único ângulo que ainda fazia justiça à beleza do passado.

A dona da casa começou a passar, de mão em mão, a obra de arte, executada por um escultor de renome. A atriz assistia a tudo embevecida.

João Antonio era o último de uma longa fila de convivas a apreciar a peça. Editor de cultura de um grande jornal, estava acostumado a receber telefonemas regulares da atriz sobre as fotos.

“Não ousei tocar a estatueta, mas cometi a imprudência de mover o braço na sua direção. Era só para exaltar com um gesto a beleza da peça, mas a dona da casa achou que eu queria segurá-la. Aproximou-a de minha mão quando meu braço estava na metade do caminho de ida – e minha mão espalmada abateu a peça em pleno vôo. Deu um rodopio no ar e mergulhou em direção ao piso de mármore gelado.”

Um “ooooh!” uníssono, devastador, ecoou pelo salão, seguido de um silêncio mortal.

“Foi minha maior gafe. Não é que eu quisesse morrer, mas me ferir, me rasgar e depois me matar, de preferência cortando a jugular e sangrando como um porco.”

O que salvou João Antonio de um fim, digamos, tão dramático aos 35 anos de idade foi a reação da atriz. Ela se apoiou em sua bengala, ergueu- se e foi até onde estavam os cacos de sua ex-silhueta. Remexeu-os com a bengala, virou-se para seu algoz, sorriu e voltou-se para o escultor, ali presente e estupefato:

“D., você tem o molde, faça isso outra vez, sim? C’est la vie.”

Um “ooooh!” de alívio, igualmente uníssono, poderoso e reabilitador, ecoou pelo salão. E a festa seguiu madrugada adentro.

No dia seguinte ele ligou para se desculpar com a atriz. “Meu filho”, respondeu ela, “não se incomode com isso, porque um dia seu dia também vai chegar”.

“Penso até hoje naquelas palavras e ainda não cheguei a uma conclusão, se ela estava aceitando minhas desculpas ou me rogando uma praga”, diz João Antonio, 62 anos, aposentado. “Foi uma lição de vida. A vergonha dói porque é um autojulgamento sem direito a defesa.”

O sentimento de culpa é o day after da vergonha. A culpa eterniza a gafe e é isso que nós queremos: sofrer para pagar pelo que fizemos. Faz parte de um processo pelo qual queremos, inconscientemente, nos destruir depois dos fatos, nos aniquilar.

No concurso Miss Universo de 2008, a candidata dos Estados Unidos esborrachou- se nos últimos degraus da escadaria de acesso ao palco, repetindo a cena da candidata do mesmo país no ano anterior. Vexames fazem parte da vida e não têm hora para acontecer. Ao contrário dos raios, podem cair duas vezes no mesmo lugar.

“O sentimento de culpa é o day after da vergonha. A culpa eterniza a gafe e é isso que nós queremos: sofrer para pagar pelo que fizemos”

Quanto sofremos? Depende do modo como nos vemos. E do quanto de bela figura queremos fazer. Depende ainda do grau de submissão que acabamos impondo a nós mesmos diante de alguém. Aí está montado o cenário perfeito para um vexame de grandes proporções. O sofrimento, depois, será atroz.

Uberaba é um bem nutrido homenzarrão de 1,90m, recém-promovido a gerente da corretora onde trabalha. No almoço oferecido pelo presidente da empresa, em vez de um inocente bife grelhado, pede tortelones verdes ao sugo, uma delícia. Bem que o garçom avisou ao trazer o guardanapo: “É para o senhor”, disse, gentil. E insistiu, depois de servir o prato: “O senhor não vai pôr o guardanapo?” Mas o alerta foi ignorado. E a fatalidade aconteceu.

No terceiro bocado, um tortelone despencou do garfo e mergulhou em queda livre no prato. Levantou um tsunami de molho, que atingiu em cheio o peito de Uberaba e lançou estilhaços nos pratos em frente. Por sorte, não espirrou no presidente, ao seu lado.

“Nunca mais pedi tortelones, molhos, essas coisas”, ele conta. “Agora, como bife com farofa e batata cozida. É mais seguro.” E ri de se dobrar. “Mas só meu anjo da guarda sabe o que passei naquela hora e depois. Tive enxaqueca, dor na coluna, nevralgia, palpitação, labirintite, tudo de fundo nervoso.”

Rir de si mesmo é um grande remédio. Repõe as coisas no seu devido lugar, faz com que nos vejamos na exata medida do que somos – seres falíveis, imperfeitos. O riso nos devolve à condição humana.

Nesse particular, é imbatível uma senhora chamada dona Carmela, cuja história é contada por Cláudia Matarazzo, sua sobrinha, em Gafe não é pecado (Editora Melhoramentos):

“Minha tia Carmela sempre contava, dando muita risada, o que lhe aconteceu, recém-chegada ao Brasil, no chá em que reuniu pela primeira vez as novas amigas. Logo depois da guerra, cansada das dificuldades da Itália devastada, ‘zia’ Carmela se mudou de mala e cuia para cá. Em São Paulo, em pouco tempo havia feito muitas amizades, pois, apesar de falar mal o português, acabava sempre dando um jeito de se fazer entender em italiano.

“Ela usava e abusava daquela inconfundível mímica com as mãos, sem a qual, provavelmente, todos os italianos se veriam condenados a um eterno e melancólico mutismo. Finalmente, depois de algum tempo, Carmela resolve que já é hora de retribuir o afeto e a acolhida que vem recebendo. Assim, apesar de a casa ainda estar em reforma (naquele mesmo dia o encanador estaria colocando as torneiras em seu banheiro), convida um grupo de amigas para o chá.

“Eram todas senhoras muito compostas, e o chá transcorria tranqüilamente, quando Carmela é chamada pela copeira para verificar se o serviço do encanador estava feito a contento. Ela sai e volta em alguns minutos arrastando um constrangido encanador, falando com seu sotaque carregadíssimo e gesticulando em direção a Cleonice, a copeira:

“Ma come o signore me faz uma coisa dessa, seu Giuzé? Eu falei tanto pra o senhor me botá o cu na água quente e o senhor vai lá e me coloca o cu na água fria?

“Silêncio estupefato, apenas interrompido por um engasgo ocasional com os sequilhos. Tia Carmela nem percebe, pois está indignada, e volta a sua ira para Cleonice.

“E você, Cléo, onde estava? Custava ir lá dentro ver se o seu Giuzé estava colocando mesmo o cu na água quente em vez de na fria? Agora ele vai ter de fazer tudo da capo! Io no entendo come as pessoas no percebem que a letra fu vai na torneira fria e a cu vai na torneira quente! Madonna, mas será que é cosi difícil?

“Vinte suspiros de alívio foram ouvidos por toda a sala. Por um momento, aquelas senhoras tão distintas pensaram todas que estavam acolhendo em seu seio uma italiana tresloucada com tara por encanadores. Mas era apenas um mal-entendido. Acalmados Carmela e o encanador (que ouvia tudo mudo, de olhos esbugalhados), elas se apressaram a explicar que as letras do alfabeto aqui eram pronunciadas de forma diferente: era bê, cê, dê, éfe e assim por diante, inclusive o quê, de quente”.

Vida longa a dona Carmela, aqui e na eternidade, porque sabia rir de si mesma!

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