“A escola virou um jogo, cuja meta é passar de fase”, Antoni Zabala

Crítico ferrenho dos métodos tradicionais de ensino, o reconhecido pedagogo e educador catalão Antoni Zabala sugere uma revisão completa na forma de educar e no currículo escolar

Um dos responsáveis pela grande transformação do currículo escolar na Espanha pós-Franco, o catalão Antoni Zabala dirige hoje o Instituto de Recursos e Pesquisas para a Formação e o Campus Virtual de Educação da Universidade de Barcelona (Foto: Divulgação)

Didático, direto e provocador, Antoni Zabala costuma responder a perguntas sobre os caminhos da educação para o século 21 com exemplos práticos e propondo muita autorreflexão. E nunca deixa de apontar a direção das soluções com base em conhecimentos científicos que não existiam antes, ciente de que elas são polêmicas. Entre elas, defende que muita teoria integrante dos currículos escolares há décadas não tem mais lugar na atualidade. E que, em vez de determinar conhecimentos a serem aprendidos em cada idade, é preciso respeitar as individualidades de cada um, para que os alunos realmente aprendam e desenvolvam as habilidades necessárias para o futuro. Autor de vários livros, palestrante e consultor de escolas e ministérios da educação de diferentes países da América Latina, Zabala conversou com PLANETA em setembro, quando veio ao Brasil para o 2º Seminário Critique de Educação, que lançou em São Paulo o grupo de escolas Critique.

PLANETA – Quais os avanços atingidos na educação na Espanha com a mudança que o sr. e colegas fizeram no currículo escolar pós-ditadura de Franco, nos anos 1980?
ZABALA – Por sair de uma ditadura para a democracia, pudemos quase partir do zero, no âmbito do planejamento. A reforma que fizemos no papel foi acertada. Mas as escolas continuam ensinando o que ensinaram para mim. Não conseguimos implantar a reforma na prática, porque ela implica uma transformação na cultura profissional, nos governos e na sociedade. O maior desafio é fazer a mudança nas estruturas existentes. Porque é uma mudança de paradigma muito grande ligada a dois aspectos básicos. O primeiro deles: quais são as necessidades das crianças deste século, tendo em conta que estão sendo formadas para os anos 2040-2060? O que um estudante vai precisar lá na frente? Não temos muito claro até que ponto a física, a matemática, as ciências que ensinamos até hoje serão necessárias. A mudança está sendo chamada de ensino de desenvolvimento para as competências da vida. A outra mudança está ligada aos conhecimentos científicos que temos hoje sobre a forma como as pessoas­ aprendem. Sabemos que cada um aprende em seu estilo, com ritmo próprio e segundo suas capacidades e interesses distintos. E isso influencia nas mudanças das escolas. Se nos ativermos aos temas tratados por PLANETA, saberemos que, certamente, nos anos 2040-2050 os cidadãos terão problemas ambientais e de sustentabilidade. Não temos tanta certeza se vão ter problemas de equação de segundo grau, morfossintaxe ou de outras coisas que ensinamos hoje. Essas duas mudanças estão sendo enfrentadas no mundo inteiro: como passar do ensino de alguns conhecimentos relacionados a matérias específicas – física, matemática, ciências, etc. – para o ensino de conhecimentos e competências válidos para a vida.

“Uma coisa é saber gramática bem e outra é saber se comunicar bem e se relacionar com o receptor da mensagem” – Não se sabe até que ponto a matemática ensinada hoje será necessária (Foto: iStockphotos)

PLANETA – Há quem diga que isso seria baixar os níveis de ensino.
ZABALA – Uma coisa é saber gramática e outra é saber se comunicar bem, fazer um discurso em distintos níveis – coloquial, formal, científico – e se relacionar com o receptor da mensagem. Uma coisa é saber escrever e outra coisa é saber gramática, como morfossintaxe. Além disso, uma coisa é o nível do que ensinamos e outra, o nível do que se aprende. Você estudou equações matemáticas, certo? E para que lhe serviu? Para passar de ano. Mas você não sabe para o que serve na prática. A escola se transformou em um jogo, em que o objetivo do estudo é passar de fase – ou seja, de ano. Quando você pergunta a uma criança por que está estudando algo, ela diz: “Pra passar de ano”. Depois de passar, o que interessa não é aprender, é passar para a próxima fase, o próximo ano. Pois agora sabemos que você nunca vai aprender para usar posteriormente aquilo que não sabe para que serve. O objetivo do ensino não é saber morfossintaxe, é saber se comunicar; não é a álgebra, é a resolução do problema. Para melhorar a comunicação é necessária a teoria. Mas o importante não é a teoria em si, é saber usá-la.

PLANETA – Especialmente aqui, que temos o vestibular. Os alunos passam ao menos três anos decorando conteúdo para passar na prova do ensino superior.
ZABALA – Esse é um problema quase mundial. O problema é que essa prova determina todo o conteúdo de ensino dos países. Mas tem alguma prova para saber se o aluno sabe argumentar, se expressar verbalmente, negociar? Não. Essas provas são basicamente de respostas escritas ou múltipla escolha. No vestibular não há expressão oral, em toda a escola brasileira não se ensina a falar. E qual é o instrumento mais potente que temos na vida? É falar na vida cotidiana, argumentar, expor, dialogar.

PLANETA – Nos Estados Unidos costuma-se trabalhar mais essa questão.
ZABALA – De fato, porque o mundo anglo-saxão é mais pragmático. Os paí­ses latinos, de raiz católica, estão muito influenciados pela reforma luterana. Como consequência disso, nossa base de pensamento vem do filósofo grego Platão, que nos diz que o importante são as ideias, as teorias, e não o que vemos, porque a realidade é defeituosa – como define o “mito da caverna”. E quando ensinam a teoria, ela está dissociada do seu uso. O mundo anglo-saxão é mais aristotélico [do filósofo grego Aristóteles], para quem o importante é a prática. Os livros didáticos de inglês trabalham todas as competências básicas do idioma: falar, ler, escutar e escrever.

“Ou ensinamos a cada aluno em função das suas características individuais, ou ele não aprende” – Tecnologia: importante recurso de ensino (Foto: iStockphotos)

PLANETA – O que mais sabemos sobre como as pessoas aprendem?
ZABALA – Atualmente sabemos que ou ensinamos a cada aluno em função das suas características individuais, ou os alunos não aprendem. Ou ensinamos algo com base em seus conhecimentos prévios, ou não aprendem. Ou compartilhamos de seus interesses, ou não aprendem. Ou ensinamos o que eles entendem como funcional, ou não aprendem. Ou propomos atividades que fazem com que eles pensem, ou não aprendem. Além do mais, os conhecimentos científicos sobre como as pessoas aprendem apontam que não existe aluno de primeiro, segundo ou terceiro ano – há João, Pedro, Maria, Teresa… Existem alunos, mas não grupos de alunos. Cada um é diferente, tem suas habilidades, talentos, valores, família, experiências distintas. Se eu quero que aprenda, tenho que partir disso. Fazendo um paralelo com a medicina: não existem enfermidades, existem enfermos.

PLANETA – Como se faz isso em classe?
ZABALA – Pode-se fazer mudando a forma de organizar os centros de ensino, reorganizando as aulas e os papéis dos envolvidos. Há fórmulas e soluções. São mais caras, mas o mais importante não é o dinheiro, é o ensino. Um professor de uma escola pública do Brasil que dá aula na área rural tem grupos mistos. O que ele faz? Dá atividades diferentes para cada um. Mas quando dá aula numa cidade maior, dá tudo igual para todos, esquece que deveria dar coisas diferentes para cada um. Na Catalunha já temos várias turmas que não são separadas por idade. São várias salas misturadas. Isso permite que os alunos possam aprender dos maiores e que os maiores ajudem os menores. Eles aprendem a ser colaborativos, interagir mais, dialogar.

PLANETA – Que tipo de material se usa nesse caso?
ZABALA – A indústria editorial precisa ajudar na personalização e no acompanhamento de cada aluno fazendo materiais diversificados para que o professor possa dar a cada um o que é mais indicado para ele. Mas as editoras continuam fazendo livros didáticos iguais para todos. E sem a indústria editorial não é possível transformar a escola. Vou usar uma metáfora médica. Temos que ter uma farmácia diversificada, componentes variados, para que o médico possa atender diferentes tipos de pacientes – diabéticos, hipertensos e tal. Não pode haver apenas um pacote para gripe. Mas quando você visita a biblioteca, só encontra um pacote fechado para gripe, outro para diabete. A indústria diz que faz o que o mercado pede. É como um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Sem ajuda do governo, da sociedade e sem o apoio da indústria editorial, a mudança na educação fica mais difícil.

PLANETA – A tecnologia seria uma saída para essa questão?
ZABALA – Com a tecnologia ao nosso alcance, podemos oferecer a cada um os conhecimentos apropriados a suas características. Há programas informáticos que se amoldam ao ritmo e estilo de cada um, e eles vão ficar cada vez melhores. E a tecnologia lhe mostra o que você já aprendeu de conhecimento. Mas não é por meio de máquinas que vamos aprender a ser solidários, colaborativos, tolerantes, saber nos expressar, entender, resolver problemas sociais, ter consciência sobre a sustentabilidade e meio ambiente, etc. Nem tudo se resolve pela tecnologia.

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