A globalização começou de fato há mil anos

Por volta do ano 1000 tiveram início fluxos comerciais tão variados como entre vikings e índios canadenses, muçulmanos do Oriente Médio e nativos da África Ocidental e mercadores malaios e povos da Oceania

“O Encontro de Dois Mundos”, escultura de Luben Boykov e Richard Brixel inaugurada em 2002 em L’Anse aux Meadows que homenageia o contato entre vikings e índios canadenses. Crédito: D. Gordon E. Robertson/Wikimedia

Os navios vikings aportaram na ilha canadense de Terra Nova por volta do ano 1000, no que é agora o sítio arqueológico conhecido como L’Anse aux Meadows.

Pela primeira vez, os dois lados do Oceano Atlântico estavam conectados.

Quando os vikings desembarcaram, o povo indígena imediatamente começou a negociar com eles. Os vikings descrevem esse encontro inicial na “Saga de Eirik”, um épico oral escrito depois de 1264 sobre as viagens nórdicas através do Atlântico Norte, da Groenlândia ao Canadá de hoje.

Os habitantes locais trouxeram peles de animais para o comércio. Em troca, os vikings ofereceram pedaços de tecido de lã tingido de vermelho. Quando o suprimento de tecidos começou a escassear, os vikings cortaram o tecido em pedaços cada vez menores, alguns tão largos quanto o dedo de uma pessoa. Mas os habitantes locais queriam tanto o tecido que continuaram a oferecer o mesmo número de peles no comércio.

Em todo o mundo neste momento, o fascínio por novos produtos levou a 1.000 anos de comércio e interações entre pessoas de diferentes lugares, no que hoje é conhecido como globalização. Eles são o assunto do meu recente livro The Year 1000: When Explorers Connected the World – and Globalization Began (“O Ano 1000: Quando os Exploradores Conectaram o Mundo – e a Globalização Começou”, em tradução livre).

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Uma rede mundial de caminhos

A rápida disseminação do coronavírus e a consequente paralisação social e econômica no mundo mudaram a compreensão de todos sobre os perigos da globalização, incluindo a minha. Uma sociedade que pode obter apenas certos itens necessários de um parceiro comercial fica vulnerável como resultado dessa dependência. No passado, havia limites internos no comércio global que impediam que sociedades anteriores se tornassem totalmente dependentes de bens externos. Esses limites não existem mais hoje.

Cerca de dez anos após sua chegada a L’Anse aux Meadows, os vikings abandonaram seu assentamento, provavelmente por causa de conflitos com os habitantes locais. Mas eles continuaram navegando para o Canadá a fim de obter madeira e levá-la para a Groenlândia e a Islândia, onde as árvores eram escassas.

Encontros semelhantes em todo o mundo ocorreram quando comerciantes e missionários muçulmanos foram do Oriente Médio para a África Ocidental por volta do ano 1000. Ou quando pessoas que falavam línguas malaio-polinésias navegaram da Península da Malásia para oeste até Madagascar, onde se estabeleceram ao redor do ano 1000, e atravessaram o Pacífico até o Havaí e a Ilha de Páscoa entre 1025 e 1290. Um novo sistema de rotas marítimas e terrestres se abriu como resultado dessas expedições. No ano 1000, um objeto ou mensagem poderia viajar por todo o mundo pela primeira vez.

Produção em massa

No ano 1000, é claro, não havia eletricidade nem vapor, mas a produção em massa era possível mesmo assim.

Vaso, tigela e miniatura de celeiro chineses, fabricados entre os séculos 11 e 13, na dinastia Song. A cerâmica chinesa era apreciada em vários países por sua qualidade. Crédito: PericlesofAthens at English Wikipedia/Wikimedia

Na província de Fujian, na China, “fornos dragões”, que se estendiam por mais de 90 metros acima das encostas das colinas, eram abastecidos com madeira, coque ou carvão. Produzindo entre 10 mil e 30 mil vasos em um único cozimento, esses fornos empregavam centenas, possivelmente milhares, de artesãos, que trabalhavam em período integral.

Oleiros criavam vasos, garrafas, tigelas e pratos nas rodas de suas olarias e depois os coziam a temperaturas mais altas do que qualquer outro forno do mundo. Os vasos de vidro eram os iPhones de seus dias – mercadorias desejadas por todos porque eram bonitas e fáceis de limpar.

Arqueólogos escavaram mercadorias chinesas em portos costeiros do Quênia, da Tanzânia e das Ilhas Comores ao longo da rota marítima mais percorrida no mundo na época, que ligava a África Oriental, o Oriente Médio e a China.

Domínio completo impossível

A cerâmica chinesa estava entre os bens comerciais mais cobiçados de seus dias, mas os ceramistas chineses nunca conseguiram dominar os mercados estrangeiros da maneira que os exportadores modernos podem.

Dois fatores importantes os impediram de fazê-lo. Primeiro, embora os fornos chineses pudessem produzir milhares de potes em um único cozimento, a produção não era suficientemente alta para inundar os mercados de outros países. Segundo, o transporte de navios no passado era muito menos confiável do que o transporte moderno atualmente.

Historicamente, os navios podiam ser desviados do curso durante tempestades ou afundar quando encontravam rochas. As incertezas do transporte limitaram a quantidade de mercadorias que chegavam aos portos estrangeiros. Minha pesquisa revelou que a cerâmica de exportação da China nunca sobrecarregou os fabricantes locais, que copiavam jarros e vasos chineses.

Dependência de importações

Por exemplo, arqueólogos que escavavam na cidade de Shush, no Irã, encontraram imitações locais de vasos chineses. As imitações eram engenhosas, mas inferiores. Por terem sido cozidos a temperaturas muito mais baixas, eram muito mais frágeis que os vasos chineses e suas pinturas não eram lisas. Apesar de seus defeitos, cópias locais surgiram em sítios arqueológicos ao lado de navios importados da China em vários portos do Oceano Índico, mostrando que os fabricantes locais foram capazes de inovar e se apegar à participação de mercado. Mesmo que o suprimento de cerâmica chinesa fosse cortado, os consumidores locais poderiam obter os bens de que precisavam.

Quando as linhas de suprimentos eram cortadas no passado, as pessoas conseguiam encontrar novas fontes dos bens que desejavam. Os exemplos mais claros foram durante a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial. Quando se tornou impossível importar algo das potências inimigas – e isso poderia acontecer da noite para o dia –, comerciantes engenhosos localizavam novos suprimentos ou criavam um equivalente, como borracha sintética ou os chás artificiais que os alemães misturavam com ervas quando não podiam acessar o chá de verdade.

Avião de carga Beluga, da Airbus: hoje em dia, a capacidade de aeronaves como essa significa que elas podem suprir uma comunidade apenas com bens importados e eliminar toda a produção local. Crédito: Don-vip/Wikimedia

Hoje, a vasta capacidade de aviões de carga e navios modernos significa que eles podem suprir uma comunidade com bens totalmente importados e eliminar toda a produção local. A pandemia de coronavírus fez com que os americanos percebessem o quão dependentes são de países estrangeiros para bens essenciais.

Domesticar a globalização

Em 2018, por exemplo, um estudo confidencial do Departamento de Comércio dos EUA concluiu que a China forneceu 97% de todos os antibióticos consumidos nos EUA. A cerâmica não é tão importante para a saúde das pessoas quanto os antibióticos, mas as importações modernas de todos os tipos podem sobrecarregar os fabricantes locais hoje de uma maneira que não era possível no passado.

Esse é o desafio para o futuro: descobrir como domesticar a globalização para que os produtores locais possam sobreviver ao lado das superpotências de fabricação. O passado nos dá motivos para estarmos otimistas: quando as linhas de suprimento são cortadas, as pessoas conseguem criar fontes alternativas.

 

* Valerie Hansen é professora de História da Universidade Yale (EUA).

** Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui.

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