A incrível história do judeu que trabalhou para os nazistas na Grécia

Exemplo cruel de que identidade não é destino, Vital Hasson foi o único judeu na Europa a ser julgado e executado por um estado por colaborar com os ocupantes nazistas durante a guerra

Cerca de 7 mil homens judeus, que receberam ordens dos ocupantes nazistas de se registrar para trabalhos forçados, reunidos na Praça da Liberdade, em Tessalônica (Grécia), em julho de 1942. Crédito: Museu Memorial do Holocausto dos EUA/German Federal Archives

Aprendi uma lição ao fazer pesquisas para meu livro publicado recentemente, Family Papers: a Sephardic Journey Through the Twentieth Century (“Documentos de família: uma jornada sefardita através do século 20”). Eu havia descoberto a história de um jovem judeu esquecido da história até agora, uma história que me ensinou que nem a filiação cultural, nem a história da família são um indicador confiável do comportamento futuro. Em suma, identidade não é destino, e todos nós podemos cair nas marés da história.

Vital Hasson era natural de Tessalônica, Grécia, uma capital cultural do mundo judaico sefardita e uma cidade que já contava com uma população de maioria judia, que conhecia sua casa como Salônica. Ele veio de uma família de classe média de jornalistas, escritores, educadores e líderes políticos.

Mas Hasson divergiu, fatalmente, dos valores iluminados de sua família.

Hasson ficou intoxicado por um regime populista e escolheu ser arrebatado por sua violência, suas falsas promessas, seu ódio. Ele usou uma posição de poder para degradar os vulneráveis. Ele foi denunciado publicamente pela família por seus excessos. Após a Segunda Guerra Mundial, Hasson foi o único judeu em toda a Europa a ser julgado e executado por um estado, a Grécia, por colaborar com os ocupantes nazistas.

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Casal judeu grego usando a estrela amarela posa em seu apartamento em Salônica, em 1942 ou 1943. Crédito: Museu Memorial do Holocausto dos EUA
‘Menos do que nada’

A família de Hasson, como a maioria dos judeus sefarditas de Salônica, descendia de judeus expulsos da Península Ibérica no século 15 que falavam e escreviam em uma língua judaico-espanhola conhecida como ladino. Durante cinco séculos, eles chamaram de lar o Império Otomano, o sudeste da Europa e Salônica.

Mas antes da guerra ele não era importante, “menos do que nada”, de acordo com uma das dezenas de sobreviventes judeus que posteriormente testemunhariam contra ele.

Quando sua cidade ainda era otomana, nas décadas de 1870 e 1890, seu bisavô apresentou os primeiros jornais em língua francesa e ladina a Salônica, narrando e moldando a modernidade vivida pelos judeus do Sudeste da Europa.

Com o tempo, a guerra redesenhou as fronteiras em torno da família, transformando-os de otomanos em gregos. A emigração os puxou em várias direções, com primos se mudando para Inglaterra, França, Espanha, Portugal, Índia e Brasil. O próprio Hasson mudou-se para a Palestina por um tempo, retornando à sua cidade natal em 1933.

Então, a guerra veio, transformando Hasson de uma pessoa insignificante em uma pessoa importante.

Uma das prósperas famílias judias de Salônica, os Salems, em 1909: Esther e Jacques, atrás; Karsa, Michael e Adolphe, na frente. Crédito: Farrar, Straus and Giroux, “Family Papers: A Sephardic Journey Through the Twentieth Century”/foto fornecida pela autora
‘Depravação’ de Hasson

Quatro gerações da família de Hasson viviam em Salônica quando as forças alemãs ocuparam a cidade, em abril de 1941. Dois anos depois, Hasson assumiu a posição de chefe da polícia judaica de Salônica em circunstâncias ambíguas.

A posição deu a ele autoridade sobre cerca de 200 homens desarmados, todos judeus locais. Um dos primeiros atos de Hasson foi oferecer-se como um caçador de recompensas humano, excedendo sua carga.

Em maio de 1943, ele cruzou da Grécia ocupada pela Alemanha para a Grécia ocupada pela Itália em perseguição aos judeus de Salônica que fugiam dos nazistas, a quem ele era excepcionalmente qualificado para identificar. Seus esforços foram frustrados, mas indicavam até onde ele estava disposto a ir para satisfazer os que estavam no poder.

Quando um gueto foi criado dentro de Salônica pelos nazistas, a profundidade da depravação de Hasson se tornou conhecida. O gueto do Barão Hirsch, uma das duas áreas nas quais todos os judeus estavam concentrados, existiu de março a agosto de 1943, quando os oficiais nazistas concluíram a deportação dos judeus gregos.

Mapa de Salônica em 1942-43, com a localização dos guetos judeus. Crédito: Museu Memorial do Holocausto dos EUA
‘Leão solto de uma gaiola’

Dentro das paredes de madeira do gueto, que eram cercadas por arame farpado e torres de controle, mais de 2 mil mulheres, homens e crianças judias estavam amontoados em 593 quartos. As doenças e o crime aumentaram.

Um oficial da SS alemã de 23 anos era tecnicamente responsável pelo gueto do Barão Hirsch. Mas Hasson parece ter recebido grande amplitude para executar as ordens nazistas no local. As lembranças das ações de Hasson, que giram em torno de testemunhos de sobreviventes em grego, hebraico, ladino e inglês, são um pesadelo.

Hasson, dizia-se, passava pelo gueto em uma carruagem puxada por cavalos e fazia seus companheiros judeus varrerem as ruas. Ele se pavoneava, usando as botas brilhantes dos ocupantes para derrubar portas e pessoas. Ele roubava dos presos, carregando pelo gueto uma sacola aberta na qual mulheres e homens colocavam as joias ou o dinheiro que conseguiam guardar. E ele identificou jovens a serem introduzidos em trabalhos forçados.

Nas palavras de uma sobrevivente, uma mulher chamada Bouena Sarfatty, “ele era como um leão solto de uma gaiola”.

A esposa de Vitaly Hasson, Regina Hasson, seu pai, Aron Hasson, e irmã, Julie (nascida Hasson) Sarfatti, em 1946, em Salônica. Crédito: Farrar, Straus e Giroux, “Family Papers: A Sephardic Journey Through the Twentieth Century”/foto fornecida pela autora

Hasson reservava uma crueldade especial para meninas e mulheres. Ele as forçava a se despirem, vasculhava seus órgãos genitais em busca de dinheiro escondido, tosava seus cabelos, estuprava-as e as vendia para outras pessoas.

Para protestar contra seu casamento forçado com Dino, irmão de Hasson, que por muito tempo nutriu uma obsessão pela jovem, Sarika Gategno usou o mesmo vestido por três meses e não consumiu nada além de álcool e cigarros.

Salônica sem judeus

De março a agosto de 1943, os supervisores nazistas dirigiram 19 transportes de judeus de Salônica, totalizando 48.533 almas, partindo da estação de trem adjacente ao gueto Barão Hirsch. Um desses trens seguiria para o campo de concentração de Bergen-Belsen; 18 para Auschwitz.

A viagem para Auschwitz durava entre cinco e oito dias estafantes. Quase todos os judeus de Salônica levados para lá foram para as câmaras de gás na chegada.

Em 2 de agosto, uma deportação especial levou as famílias da liderança da comunidade judaica de Salônica (incluindo a polícia judaica) para o campo de concentração de Bergen-Belsen. Antes de sua própria deportação, nesse mesmo trem para Bergen-Belsen, o pai de Hasson renegou publicamente seu filho, que ainda permaneceu em Salônica.

Em agosto de 1943, Salônica, como a Grécia como um todo, foi virtualmente esvaziada de judeus pelos nazistas.

Em julgamento

O próprio Hasson planejou fugir para o leste com sua esposa, filha e amante grávida em agosto de 1943.

Várias vezes nas dramáticas e confusas semanas e meses que se seguiram, ele foi reconhecido por refugiados judeus de Salônica (na Albânia, na Itália e no Egito) e preso por representantes aliados. Mas, em meio ao caos da guerra, Hasson repetidamente escapou ou foi libertado.

Finalmente, após a libertação da Grécia em outubro de 1944, os britânicos o capturaram e devolveram Hasson à Grécia para julgamento. No verão de 1946, aquele julgamento, um evento sensacional que atingiu a cidade de Tessalônica e a diáspora judia de Salônica, resultou em um veredito de culpado. Hasson foi condenado à morte e executado.

Judeus de todo o espectro político, de Bernie Sanders a Benjamin Netanyahu, afirmam buscar inspiração na tradição judaica para explicar e impulsionar seus valores políticos.

Mas a herança cultural não determina necessariamente o comportamento ou o destino de uma pessoa. E a história judaica não deve ser higienizada. O que a história de Hasson ensina é que, nas circunstâncias certas, as políticas de ódio são sedutoras, mesmo para aqueles que de outra forma poderiam ser o alvo.

 

* Sarah Abrevaya Stein é professora de História, diretora de Sady e Ludwig Kahn do Centro de Estudos Judaicos Alan D. Leve, Universidade da Califórnia, Los Angeles (Ucla).

** Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original aqui.

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