A incrível jornada transatlântica da poeira do Saara até as Américas

Entre a primavera e o início do outono no hemisfério norte, um gigantesco volume de poeira saariana cruza o Atlântico, trazendo benefícios e malefícios para o continente americano

Poeira do Saara viaja rumo às Américas: o fenômeno é a maior fonte de partículas de poeira no ar da Terra. Crédito: Crédito: Joshua Stevens/Nasa/Modis/EOSDIS/LANCE & GIBS/Worldview

Todos os anos, os ventos elevam cerca de 800 milhões de toneladas métricas de poeira no norte da África. É, de longe, a maior fonte de partículas de poeira no ar do planeta. A poeira é frequentemente visível do espaço durante a primavera, o verão e o início do outono no hemisfério norte, quando enormes nuvens de ar seco e poeirento do deserto do Saara (a chamada Camada de Ar Saariana) sopram para oeste sobre a faixa tropical do Oceano Atlântico.

Em junho de 2020, os satélites capturaram essas imagens de um “surto” da Camada de Ar Saariana em andamento. A imagem no alto, adquirida em 18 de junho com a Earth Polychromatic Imaging Camera (EPIC) da Nasa no satélite DSCOVR, da NOAA, mostra a escala da pluma em relação aos continentes que fazem fronteira com o Oceano Atlântico.

Poeira sobre Cabo Verde: padrões relacionados aos picos vulcânicos do arquipélago. Crédito: Joshua Stevens/Nasa/Modis/EOSDIS/LANCE & GIBS/Worldview

Nesse mesmo dia, o espectrorradiômetro Modis, no satélite Terra, da Nasa, adquiriu uma visão detalhada da poeira sobre o arquipélago de Cabo Verde. Essas ilhas, localizadas a cerca de 570 quilômetros da costa oeste da África, estão frequentemente no caminho das nuvens de poeira.

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Papel ecológico

O verão do hemisfério norte normalmente traz um volume maior de poeira sobre as ilhas, mas ela também tende a flutuar mais alto na atmosfera do que em outras estações. Ainda assim, os picos vulcânicos são altos o suficiente para alterar o fluxo de ar e produzir padrões na poeira. Observe o padrão em forma de V no lado a sotavento (o lado oposto ao lado do qual sopra o vento) das ilhas. O fenômeno é semelhante à esteira em forma de V que se vê atrás de um barco em um lago ou de uma rocha em um riacho.

Poeira em 18 de junho, segundo o GEOS-5. Crédito: Nasa

O mapa acima mostra a poeira em 18 de junho, conforme representado pelo Modelo do Sistema de Observação da Terra Goddard, Versão 5 (GEOS-5). Esse modelo atmosférico global usa equações matemáticas para representar processos físicos. O mapa mostra a espessura óptica do aerossol, uma medida da quantidade de luz que os aerossóis dispersam e absorvem e uma referência do número de partículas no ar. As cores laranja e vermelho indicam condições extremamente nebulosas.

As partes mais grossas da pluma parecem se estender por cerca de 2.500 quilômetros através do Atlântico.

A poeira africana pode afetar a qualidade do ar em locais tão distantes quanto as Américas do Norte e do Sul, se misturada ao ar próximo ao solo. Mas ela tem um papel ecológico importante, como fertilizar solos na Amazônia e construir praias no Caribe. As condições secas, quentes e ventosas associadas aos surtos da Camada de Ar Saariana também podem suprimir a formação e intensificação dos ciclones tropicais.

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