A intrigante relação entre as mulheres alemãs e o nazismo

Material estudado recentemente sugere que as alemãs votaram em Hitler e seus seguidores mais pelo que propunham para questões como a pobreza, e não pela suposta grandeza da ideologia nazista em si

Jovens alemãs aparecem na revista de propaganda "Das Deutsche Mädel" (edição de maio de 1942) desfilando em "territórios alemães 'reconquistados' no Leste". Crédito: German Federal Archives

A ascensão de Hitler e do Partido Nazista na década de 1930 veio com o voto de milhões de alemães comuns – homens e mulheres.

Mas, além de algumas figuras de destaque, como a guarda do campo de concentração Irma Grese e a “assassina do campo de concentração” Ilse Koch, pouco se sabe sobre as mulheres comuns que abraçaram o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, mais comumente conhecido como Partido Nazista. Os poucos dados que temos sobre mulheres nazistas comuns foram subutilizados, esquecidos ou ignorados. Isso nos deixou com uma compreensão incompleta da ascensão do movimento nazista, que é quase exclusivamente focado em membros masculinos do partido.

No entanto, mais de 30 redações sobre o assunto “Por que me tornei nazista”, escritas por mulheres alemãs em 1934, estiveram abandonadas nos arquivos da Hoover Institution em Palo Alto (EUA) por décadas. Essas redações só foram descobertas há três anos, quando três professores da Universidade do Estado da Flórida (EUA) providenciaram a transcrição e tradução delas. Desde então, elas foram disponibilizadas digitalmente, mas não receberam muita atenção.

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Movimento poderoso

Como estudiosos dos estudos do Holocausto, crimes contra a humanidade e comportamento político, acreditamos que os relatos dessas mulheres dão uma ideia do papel feminino na ascensão do Partido Nazista. Eles também apontam até que ponto as atitudes das mulheres em relação ao feminismo diferiram após a Grande Guerra – uma época em que as mulheres estavam obtendo ganhos em independência, educação, oportunidades econômicas e liberdade sexual.

O movimento feminino alemão esteve entre os mais poderosos e importantes do mundo por meio século antes de os nazistas chegarem ao poder em 1933. Escolas de segundo grau de alta qualidade para meninas existiam desde a década de 1870. As universidades alemãs foram abertas para mulheres no início do século 20. Muitas mulheres alemãs se tornaram professoras, advogadas, médicas, jornalistas e romancistas.

Em 1919, as mulheres alemãs conseguiram o direito ao voto. Em 1933, as mulheres, das quais havia milhões a mais do que os homens – Berlim tinha 1.116 mulheres para cada 1.000 homens – votaram aproximadamente nas mesmas percentagens que os homens para os candidatos de Hitler e nacional-socialistas.

Desfile de mulheres da Liga das Jovens Alemãs em Graz (na Áustria ocupada pelos nazistas), em fevereiro de 1938. Crédito: Oesterreichische Nationale Bibliothek, Bildarchiv
‘Todos eram inimigos de todos’

As redações descobertas na Hoover Institution dão uma ideia de por que algumas delas o fizeram.

A insatisfação com as atitudes da era de Weimar, o período entre o fim da Primeira Guerra Mundial e a ascensão de Hitler ao poder, fica clara nos escritos das mulheres. A maioria das autoras de redações expressa aversão a algum aspecto do sistema político. Uma chama o direito de voto das mulheres de “uma desvantagem para a Alemanha”. Outra descreve o clima político como “descontrolado” e que “todos eram inimigos de todos”. Margarethe Schrimpff, uma mulher de 54 anos moradora dos arredores de Berlim, descreve sua experiência:

“Assisti às reuniões de todos… os partidos, dos comunistas aos nacionalistas; em uma das reuniões democráticas em Friedenau [Berlim], onde o ex-ministro colonial, um judeu chamado Dernburg, falava, eu senti o seguinte: este judeu teve a audácia de dizer, entre outras coisas: ‘Do que os alemães realmente são capazes de; talvez criação de coelhos.’

“Caros leitores, não pensem que o sexo forte demasiadamente representado saltou e disse a esse judeu aonde ir. Longe disso. Nenhum homem fez um som, eles ficaram quietos. No entanto, uma mulher miserável e frágil do assim chamado ‘sexo fraco’ levantou a mão e rejeitou vigorosamente os comentários descarados do judeu; ele havia, entretanto, supostamente desaparecido para participar de outra reunião.”

Material ignorado

Essas redações foram coletadas originariamente por um professor assistente da Universidade de Columbia, Theodore Abel. Ele organizou um concurso de redações com prêmios generosos com a cooperação do Ministério da Propaganda nazista. De quase 650 redações, cerca de 30 foram escritas por mulheres, e Abel as deixou de lado, explicando em uma nota de rodapé que pretendia examiná-las separadamente. Mas ele nunca o fez. As redações dos homens formaram a base de seu livro, Why Hitler Came To Power (Por que Hitler Chegou ao Poder), publicado em 1938. Essa obra continua a ser uma fonte importante no discurso global sobre a ascensão nazista ao poder.

Resumindo as descobertas de Abel, o historiador Ian Kershaw escreveu em seu livro sobre a ascensão de Hitler ao poder que elas mostraram que “o apelo de Hitler e seu movimento não se baseava em nenhuma doutrina distinta”. Ele concluiu que quase um terço dos homens foram atraídos pela indivisível ideologia da “comunidade nacional” – Volksgemeinschaft – dos nazistas. Uma proporção semelhante foi influenciada por noções nacionalistas, superpatrióticas e românticas alemãs. Em apenas cerca de um oitavo dos casos o antissemitismo era a principal preocupação ideológica, embora dois terços dos ensaios revelassem alguma forma de antipatia pelos judeus.

Quase 20% dos casos foram motivados apenas pelo culto a Hitler, atraídos pelo próprio homem. Mas os ensaios revelam diferenças entre homens e mulheres no motivo do encantamento com o líder nazista.

Culto a Hitler

Para os homens, o culto da personalidade parece centrar-se em Hitler como um forte líder que se dirige a uma Alemanha que se define por aqueles que ela exclui. Não é surpreendente que as próprias mulheres, à beira da exclusão, fossem menos cativadas por esse componente do nazismo. Em vez disso, os ensaios femininos tendem a se referir a imagens religiosas e sentimentos que confundem piedade com o culto a Hitler. As mulheres pareciam estar mais comovidas com as soluções propostas pelo nazismo para problemas como a pobreza do que com a suposta grandeza da ideologia nazista em abstrato.

Em sua redação, Helene Radtke, uma esposa de 38 anos de um soldado alemão, descreve seu “dever divino de esquecer todas as minhas tarefas domésticas e de prestar meu serviço à minha terra natal”.

Agnes Molster-Surm, dona de casa e professora particular, chama Hitler de seu “Führer e salvador dado por Deus, Adolf Hitler, para a honra da Alemanha, a fortuna da Alemanha e a liberdade da Alemanha!”

Como um evangelho

Outra mulher substituiu a estrela em sua árvore de Natal por uma fotografia de Hitler cercada por um halo de velas. Esses homens e mulheres compartilharam a mensagem do nacional-socialismo como se fosse um evangelho e se referem aos novos membros do partido como “convertidos”. Uma dessas mulheres descreve os primeiros esforços para “converter” sua família ao nazismo como caindo “em solo pedregoso e nem mesmo o menor rebento verde de compreensão brotou”. Mais tarde, ela foi “convertida” por meio de conversas com seu carteiro.

As redações não servem apenas como curiosidades históricas. Servem também como um alerta sobre como as pessoas comuns podem ser atraídas para a ideologia extremista em um momento de crise social. Linguagem semelhante foi usada para descrever o clima político atual nos Estados Unidos e em outros países. Talvez, como alguns fazem hoje, essas mulheres acreditassem que todos os males de sua sociedade poderiam ser resolvidos com a restauração de sua nação a um estado de glória anterior, não importando o custo.

 

* Sarah R. Warren, Daniel Maier-Katkin e Nathan Stoltzfus são, respectivamente, doutoranda, professor de Criminologia e Justiça Criminal e professor de Estudos do Holocausto na Universidade do Estado da Flórida (EUA).

** Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons.Leia o artigo original aqui.

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