A neurociência da selvageria

Cortar cabeças, mutilar e torturar são atos extremos impensáveis para a maioria dos indivíduos. Mas um coquetel com as doses certas de fatores que desencadeiam a selvageria pode transformar qualquer pessoa em um extremista

No momento, todos apontam o dedo acusador para o Estado Islâmico (EI) – facção extremista que atua sobretudo na Síria e no Iraque –, acusando-o de crimes inomináveis. Essa organização tem praticado o genocídio de dezenas de milhares de “infiéis” que habitam aqueles territórios, bem como tem levado suas mulheres e filhos à escravidão. Sem falar nas terríveis execuções que lhe servem de propaganda, levadas a cabo ao vivo e em cores diante de câmeras de vídeo e televisão, e espalhadas em seguida mundo afora, como se fossem um espetáculo macabro no qual pes­soas ajoelhadas são degoladas ou mortas com um tiro na nuca. Graças a esses militantes “açougueiros”, muitos ocidentais tendem a considerar o EI como o único afloramento do fundamentalismo religioso registrado na história da humanidade.

No entanto, em julho de 1995, forças bósnias e sérvias ostensivamente cristãs invadiram a cidade de Srebrenica e massacraram implacavelmente mais de 8 mil muçulmanos, homens, mulheres, velhos e crianças. E quem não se lembra dos relativamente recentes genocídios da etnia tutsi em Ruanda, perpetrado por homens da etnia hutu; o homicídio em massa de cidadãos do Camboja por militantes do Khmer Vermelho; o genocídio de milhões de judeus, ciganos, homossexuais e deficientes nos campos de concentração nazistas? Isso para citar apenas alguns dos vários crimes contra a humanidade cometidos nas décadas passadas. A lista das selvagerias cometidas por grupos humanos contra outros grupos humanos é longa e deprimente.

Na mesma sintonia

Quais serão, portanto, as origens e as causas da selvageria, se ela não pode ser atribuída a uma única religião ou ideologia? Segundo o neuropsicólogo britânico Ian Robertson, professor do Trinity College de Dublin e autor do recente best-seller The Winner Effect: The Neuroscience of Success and Failure (O Efeito Vencedor: A Neurociência do Sucesso e do Fracasso), a primeira parte da resposta pode ser muito simples: selvageria gera selvageria. Robertson explica que insensibilidade, agressividade e falta de empatia são respostas comumente dadas por pessoas que foram vítimas de tratamentos duros por parte de membros de outros grupos ou organizações.

Nos campos de concentração nazistas, por exemplo, muitos dos mais cruéis eram prisioneiros transformados em guardas, os famosos kapós, termo alemão que equivaleria ao brasileiro “caciques”. Pessoas que foram abusadas sexualmente quando crianças – especialmente meninos – são mais suscetíveis de se tornar abusadores sexuais quando chegam à fase adulta, embora isso aconteça apenas com uma minoria. As vítimas, em outras palavras, muitas vezes respondem ao trauma sofrido tornando-se eles próprios atacantes.

O choque, o espanto e o terror dos bombardeios de Bagdá, a capital do Iraque, e a sua subsequente invasão, em 2003, desencadearam na cidade e em todo o país uma explosão da violência e a ruptura total da lei e da ordem. Poucos iraquianos escaparam aos efeitos da selvageria da qual, além dos bombardeios e demais operações militares que atingiram civis, faziam parte atentados como o dos automóveis-bomba que explodiam na entrada dos mercados e os assassinatos por emboscada de membros de facções religiosas e políticas rivais.

Estimativas conservadoras afirmam que, entre 2003 e 2011, cerca de 114 mil iraquianos foram mortos e centenas de milhares ficaram feridos ou mutilados. Agora, como consequência desses traumas, uma minoria dessas vítimas da violência – quase todas do sexo masculino – é hoje propagadora e executora da selvageria que atormenta as populações de cidades como Mossul.

A submersão no grupo

Para Robertson, porém, a vítima que se torna carrasco não constitui a única explicação para tanta ferocidade. “Quando o Estado se quebra e afunda, levando consigo a lei, a ordem e a sociedade civil, resta apenas um recurso para a sobrevivência: o grupo”, ressalta. “Não importa se ele é definido pela religião, raça, política, tribo ou clã, ou pelo autoritarismo dominante de um chefe de gangue, a sobrevivência dos indivíduos e das famílias depende da segurança mútua oferecida pelos membros do mesmo grupo.”

A guerra cria vínculos muito fortes entre as pessoas de um mesmo grupo, os quais suavizam e tornam mais suportáveis o medo e o estresse que o indivíduo sente quando o Estado se esfacela. Eles também oferecem autoestima para as pessoas que se sentem humilhadas pela perda do seu lugar e status social numa sociedade relativamente ordenada. “À medida que isso ocorre, a identidade individual e a do grupo se fundem e as ações pessoais se tornam cada vez mais uma manifestação concomitante do desejo individual e do desejo grupal”, afirma Robertson.

Nessas condições, as pessoas podem fazer coisas terríveis, que nunca haviam imaginado fazer. A consciência individual quase não tem vez ou lugar no interior de um grupo tomado pelos sentimentos da guerra, do combate, do medo, da vingança e da sobrevivência. Isso acontece porque o indivíduo e o grupo estão unificados, e assim permanecerão enquanto a ameaça externa perdurar. São os grupos que se mostram capazes de selvagerias extremas, muito mais do que qualquer indivíduo isolado.

Podemos ver isso nos rostos dos jovens militantes masculinos do EI, quando eles correm com seus caminhões e tanques de guerra, quando agitam suas bandeiras, sorrisos abertos no rosto, punhos cerrados levantados, quando acabaram de trucidar infiéis que recusaram se converter ao Islã. Para Robertson, o que podemos ver nessas situações é “uma exaltação bioquímica produzida pela produção exagerada do hormônio oxitocina e do hormônio masculino dominante, a testosterona. Muito mais do que a cocaína e o álcool, essas drogas naturais influem no comportamento, induzem ao otimismo e energizam a ação agressiva por parte de todo o grupo”. 

Ele prossegue: “Devido ao fato de que a identidade individual submergiu quase totalmente na identidade grupal, o indivíduo estará muito mais pronto a se sacrificar no campo de batalha – ou num suicídio como homem-bomba – pela causa grupal. Por quê? Porque se eu estiver totalmente fundido ao grupo, viverei no grupo até mesmo quando o ‘eu’ individual morrer”.

O outro como objeto

Quando a pessoa submerge no grupo, seu nível de oxitocina no sangue aumenta muito. Como consequência, nesse indivíduo costuma aflorar, simultaneamente, uma tendência maior a demonizar e desumanizar os que estão fora do grupo. Esse paradoxo corresponde às atitudes altruís­tas que podem ser observadas no interior do grupo: ele torna mais fácil anestesiar qualquer empatia para com os membros de outro grupo e vê-los como simples coisas ou objetos. Perpetrar coisas terríveis aos objetos é bom e lícito porque eles não são humanos.

Robertson aponta como exemplo de situações desse gênero a assustadora realidade da carnificina mutuamente perpetrada por membros das seitas islâmicas xiita e sunita no Iraque e na Síria. No seio do grupo, sobretudo quando ele é definido por sectarismo religioso, o tribalismo é estimulado, bem como a tendência a descarregar as tensões por meio da agressão aos grupos rivais. Para esse estudioso, até mesmo quando a agressão contra o outro grupo é de tipo autodestrutivo – como podemos observar tragicamente na atualidade no Oriente Médio –, grupos caracterizados pelo sectarismo religioso pregam um grau de agressão contra seus opositores que costuma estar ausente nos grupos não religiosos.

O papel da Vingança

Por outro lado, a vingança – um valor forte na cultura árabe – também desempenha um papel na perpetuação da selvageria. Obviamente, a retaliação a ações vingativas gera mais selvageria, criando um ciclo infernal interminável. Além disso, ao mesmo tempo que é um poderoso motivador, a vingança também é sempre decepcionante, porque logo faz emergir a evidência de que, ao se vingar de alguém, longe de se aplacar a angústia e o ódio, o que se consegue é aumentar e perpetuar esses sentimentos.

Finalmente, as pessoas irão perpetrar coisas selvagens se seus líderes lhes disserem ser necessário e aceitável fazê-lo. Particularmente, quando essas pessoas fundiram os seus próprios selfs (sua identidade profunda) ao self do grupo. O genocídio em Ruanda foi acionado por uma série de transmissões radiofônicas nas quais alguns líderes hutus incitavam os membros do seu grupo étnico a desencadeá-lo. Por causa desse estímulo, as pessoas desse grupo se transformaram em assassinos selvagens dos tutsis, os membros do outro grupo étnico regional que, até a véspera, tinham sido seus amigos, vizinhos e colaboradores.

O Exército soviético cometeu estupros em massa quando invadiu a Alemanha em 1945 porque os soldados foram induzidos a isso por seus comandantes. Da mesma forma, combatentes do EI agora massacram cristãos e yazidis desarmados porque seus líderes, e provavelmente seus imãs religiosos, lhes disseram que é correto e justo fazê-lo.

Conclui-se que os grandes responsáveis por toda essa selvageria são os líderes “tribais”, em qualquer nível hierárquico que eles se encontrem. Da mesma forma, são os líderes que têm o poder de mudar o curso das coisas e de cessar o processo, como aconteceu em Ruanda, após uma forte pressão internacional.

Com relação ao Oriente Médio, a pergunta realmente séria a ser feita é se existe algum interesse verdadeiro por parte das forças que atuam nessa região em cessar os conflitos e chegar a um acordo. Todas as partes envolvidas – e delas não fazem parte apenas os grupos islâmicos, mas também poderosos interesses políticos, estratégicos, militares e econômicos internacionais – pretendem assegurar que seus líderes seguirão atuando na área, de modo a defender e preservar seus interesses estratégicos. É do interesse de boa parte dessas forças (a da indústria e a do comércio de armamentos, por exemplo) manter os conflitos no Iraque e na Síria, bem como em outros lugares do mundo islâmico. Enquanto essa mentalidade perdurar, a selvageria irá prosseguir.

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Do equilíbrio à violência

Segundo Ian Robertson, as expressões nos rostos dos membros do EI depois de uma execução evidenciam uma produção acima do normal de dois hormônios:

Oxitocina – Fabricado no hipotálamo e armazenado na hipófise, em níveis normais desenvolve apego e empatia entre pessoas, produz parte do prazer do orgasmo, aumenta a confiança e reduz o medo do desconhecido.

Testosterona – Secretado nos testículos nos homens (e em quantidade menor, nos ovários das mulheres), é essencial no desenvolvimento dos tecidos reprodutores masculinos e na promoção de características sexuais secundárias, como o aumento da musculatura, da massa óssea e o crescimento de pelos no corpo. Além disso, previne a osteoporose e está associado à saúde e ao bem-estar.

Estudos já haviam demonstrado que níveis elevados de testosterona estão ligados ao aumento da agressividade. Em volume maior que o normal, a oxitocina estimula o otimismo e supervaloriza o grupo, em detrimento dos que estão fora dele. Em superprodução, os dois hormônios intensificam a força dos laços grupais e amplificam sua atuação agressiva.

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Selvageria extremada

O estrago causado pelo império da selvageria pode resultar em um número enorme de mortes. Veja alguns exemplos a seguir.

9-PL517-Selvageria2Ásia central e leste da europa, século 13
O imperador Gêngis Khan eliminava todos que não aceitassem a ideia de uma federação mongol. Foram 40 milhões de mortes.

9-PL517-Selvageria3Ásia central, século 14
O soberano mongol Tamerlão quis recriar o reino de Gêngis Khan em versão islâmica. Foram 17 milhões de mortos.

9-PL517-Selvageria4União soviética, anos 1930 e 1940
Discordar do ditador Josef Stálin custou, por meios variados, a vida de 20 milhões a 25 milhões de pessoas.

9-PL517-Selvageria5Europa, 1939-1945
De 17 milhões a 20 milhões de pessoas morreram em campos de concentração nazistas, entre elas judeus, eslavos, ciganos e gays.

9-PL517-Selvageria6Camboja, 1975-1979
O ditador Pol Pot não gostava de estrangeiros nem de intelectuais, e com isso levou 1,7 milhões de pessoas à morte

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