A sentinela da Amazônia

Uma torre de 325 metros, maior do que a Torre Eiffel, vai ajudar a ciência a desvendar fenômenos obscuros e a conhecer o impacto da maior floresta do planeta nas mudanças climáticas globais.

Um dos mais arrojados centros de monitoramento climático do mundo está surgindo em plena selva amazônica, na Reserva Biológica do Uatumã, às margens do rio de mesmo nome, a 180 quilômetros a nordeste de Manaus. O Observatório de Torre Alta da Amazônia (ATTO, na sigla em inglês) terá como estrutura fundamental uma torre de 325 metros de altura (um metro mais alta do que a Torre Eiffel), equipada com mais de 40 instrumentos destinados a examinar e a analisar a atmosfera do ecossistema amazônico.

A missão do ATTO é compreender as relações da floresta com os gases de efeito estufa e com o ciclo de liberação e absorção de gás carbônico, mas também há objetivos paralelos, como o estudo da formação das nuvens, o ciclo da chuva e o impacto da Amazônia no clima global. A reserva do Uatumã foi escolhida para a instalação por ser uma fl oresta de terra fi rme preservada, livre de inundações e da ação do homem – oferecendo uma amostra perfeita dos efeitos globais da floresta no clima. Além disso, para os padrões amazônicos o acesso é relativamente fácil: são seis horas de viagem até Manaus, por estrada e rio.

“Vamos poder estudar e representar de uma maneira mais realista toda a física de nuvens e a produção de chuva nos modelos de previsão climática de longo prazo”, torce Antônio Manzi, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), um dos profissionais à frente do projeto. Para Manzi, esse conhecimento vai ajudar a entender o regime brasileiro de chuvas e será útil na prevenção de catástrofes e eventos extremos, sejam alagamentos, sejam secas.

Arranha-céu

Se tudo correr conforme o cronograma, o gigante estará de pé no início de dezembro. Não foi fácil levar seis carretas carregadas de estruturas de ferro e aço, sacos de cimento, areia e brita, de São Paulo até o rio Uatumã. Após 15 dias extenuantes de viagem, em rodovias e travessias de balsa, o comboio começou a construção da torre em setembro passado. 

O laboratório deverá funcionar em potência máxima na metade de 2015, mas o trabalho dos pesquisadores já começou. “Já existem no local quatro torres de 85 metros e estamos realizando análises e medidas ao longo dos últimos dois anos. Essa ciência será ampliada quando a torre de 325 metros estiver pronta”, explica Paulo Artaxo, climatologista da USP, coordenador da área de aerossóis e química atmosférica do ATTO. 

A torre, instalada em área de fl oresta preservada, é fundamental para proporcionar uma aferição abrangente e complexa das dinâmicas do ecossistema. Artaxo explica que a fração que uma estrutura com altura de 325 metros “enxerga” é mil vezes maior do que é capaz de alcançar uma de 85 metros. “Ela vai analisar as infl uências do microclima e da fl oresta, no ciclo do carbono, sobre uma área muito mais extensa, proporcionando médias de processos mais representativos do funcionamento do ecossistema total”, diz. A área de alcance dos registros da torre varia de acordo com as condições meteorológicas (como a velocidade do vento), mas chega a um raio de 300 quilômetros.

Além de medir processos em distâncias maiores, a 325 metros de altura a torre estará livre da infl uência da chamada “camada de rugosidade” da fl oresta. Em uma selva com árvores de altura média de 35 metros, o atrito do vento com o terreno e a copa das árvores provoca turbulências, ou “rugas” de grande porte, em alturas mais próximas do solo, de até 100 metros. Acima desse marco elas caem drasticamente. “Nesse nível, você tem uma atmosfera com uma mistura mais homogênea. Isso faz com que as concentrações mensuráveis sejam mais representativas da interação em larga escala”, explica Artaxo. 

Cooperação internacional

A iniciativa do ATTO é resultado de uma parceria de longa data entre vários institutos, universidades e pesquisadores brasileiros e cientistas alemães do Instituto Max Planck, responsável por 50% do financiamento da torre. 

As investigações da atmosfera amazônica ganharam força na década de 1980, quando, em parceria com o Instituto Max Planck, uma força-tarefa do National Center for Atmospheric Research, dos EUA, liderada pelo químico holandês Paul Crutzen, realizou a primeira campanha para estudar a fumaça das queimadas na floresta. Nesse trabalho, Crutzen descobriu indiretamente que as árvores do trópico úmido eram muito efi cientes na decomposição  do ozônio, o que lhe deu o Prêmio Nobel de Química de 1995.

Em 1983, sob a coordenação do físico paulista Enéas Salatti, foram instaladas as primeiras torres “de fluxo” na reserva de Adolpho Ducke, próxima a Manaus, com cerca de 60 metros. Essas estruturas investigavam os fluxos de vapor de água na altura da copa das árvores, com medições a 100 metros de altura.

Salatti foi um dos pesquisadores responsáveis pela descoberta do que ficou conhecido como “rios voadores de vapor”. Esse fenômeno crucial para o ciclo de chuvas da América do Sul consiste no deslocamento de massas de ar carregadas de vapor de água, formadas pela umidade soprada pelos oceanos.

Uma vez despejada sobre a floresta, a chuva é devolvida à atmosfera pela evapotranspiração das árvores. O curso do vapor se desloca de leste para oeste, viajando por 5 milhões de quilômetros quadrados de floresta em ciclos repetidos de chuva e transpiração, até se chocar com a muralha de 4 mil metros de altura dos Andes. Nesse ponto, parte do vapor vai para o Caribe, parte vai para o Oceano Pacífico e um terceiro fluxo segue para o sul, irrigando desde o Centro-Oeste até o rio da Prata.

O projeto do ATTO pode ajudar a compreender os pormenores desses fenômenos que geram impactos diretos no agronegócio, nas grandes cidades sulamericanas e no mundo, já que o desmatamento, a rarefação da floresta e a evapotranspiração afetam todo o continente. Na Ilha de Marajó, o estuário do rio Amazonas também irriga a Corrente do Golfo (Gulf Stream), cujas águas quentes viajam pelo Oceano Atlântico até o norte da Europa, impedindo países como a Grã-Bretanha e a Noruega de congelar.

“Quanto mais informações você tiver a respeito, melhor”, explica o professor Salatti à PLANETA. “O exame dessas relações vai permitir melhorar o conhecimento de forma estatística, registrando a variação contínua dos parâmetros. Vamos entender as dinâmicas do vapor de água e da atmosfera da Amazônia e seus impactos globais. Seria ótimo se pudéssemos instalar mais três torres: uma em Belém, outra no sopé dos Andes e outra no sul da floresta. Aí, sim, teríamos uma visão geral.”

Mundo invisível

Antônio Nobre, pesquisador do Inpa, compara o que será feito pelo ATTO a um exame médico. “Antigamente, para fazer análise atmosférica as amostras eram colhidas por aviões e examinadas em laboratórios, como uma chapa de raio X”, afirma Nobre. “Já a torre é como uma sonda dentro do corpo, com monitores para verifi car o metabolismo, com medidas analisadas on-line pelos médicos”, diz.

Os mais de 40 instrumentos que funcionarão na torre farão análises 24 horas por dia, 365 dias por ano, ao longo de 20 ou 30 anos, em 20 níveis de altura. Dessa forma, será possível traçar um retrato muito mais aprofundado e preciso de um universo atmosférico invisível.

“O cosmos de complexidade da floresta é vasto. O que sabemos é uma fração ridiculamente pequena do que resta para ser descoberto”, afi rma Nobre. Para ele, o projeto do ATTO vai revelar um pouco da singularidade do admirável mundo novo vegetal: os efeitos da fi siologia das plantas, das emissões de gases na atmosfera, os eventos atmosféricos, o ciclo d’água e a química das nuvens. Nas palavras de Nobre, estamos apenas arranhando a casquinha da pontinha do iceberg. Com a nova torre sentinela, talvez seja possível romper a casca e sondar as profundezas da Amazônia.

Efeitos climáticos

Além de gerar chuva nas Américas, a Amazônia esquenta a Corrente do Golfo, que ameniza o clima no norte da Europa. Veja aqui.

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