A vida nas cavernas

Cientistas encontram centenas de espécies desconhecidas e bizarras nas profundezas da terra. Conheça o trabalho árduo, úmido, abafado e aventureiro desses especialistas

Durante três anos, uma equipe de pesquisadores de Minas Gerais vasculhou o interior de pelo menos 70 cavernas do Estado atrás das formas de vida estranhas e raras que vivem nesses habitats escuros, úmidos e abafados. Saíram das profundezas trazendo à luz 76 novos seres desconhecidos pela ciência. O levantamento fez parte do projeto Fauna Cavernícola no Estado de Minas Gerais, coordenado pelo biólogo Rodrigo Lopes Ferreira, da Universidade Federal de Lavras (Ufl a), em 2013. Agora, está começando a segunda fase do projeto que é descrever, nomear e classificar as novas espécies.

Não é a primeira vez nem será a última que Ferreira e equipe se embrenham nos subterrâneos do Brasil atrás da vida escondida na penumbra e no breu das tocas. “Estudar cavernas é o trabalho de uma vida”, diz o cientista. Um dos seus estudos anteriores mais importantes foi realizado entre 1999 e 2003, quando escarafunchou 113 grutas do país. O resultado foi uma lista de 3.173 espécies encontradas, das quais cerca de 50 eram desconhecidas. Os números revelam o quanto ainda se desconhece da fauna cavernícola brasileira. 

Um dos últimos levantamentos signifi cativos havia sido realizado na década de 1990 pelo pesquisador Ricardo Pinto da Rocha, da Universidade de São Paulo. Rocha contabilizou todos os animais descobertos entre 1907 e 1994, chegando ao número de 613 espécies, das quais cerca de 500 eram de invertebrados. Desde então o número não para de crescer. “Costumo brincar que descobrir novas espécies, para nós, nem tem mais graça”, diz Ferreira. “A cada nova caverna que entramos, encontramos espécies e gêneros até então desconhecidos. Atualmente, comemoramos mais quando descobrimos uma nova família.” 

Pesquisadores de outros Estados também vêm contribuindo para aumentar o número de espécies cavernícolas do país. É o caso da bióloga Maria Elina Bichuette, que em 2006 criou o Laboratório de Estudos Subterrâneos, na Universidade Federal de São Carlos, que tem como linha de pesquisa a espeleobiologia (o estudo da vida nas cavernas), com o objetivo de conhecer e entender a fauna brasileira desses ambientes. “Desenvolvemos três projetos focando a diversidade e a conservação de ambientes subterrâneos. Nosso trabalho visa principalmente a proteção das espécies e das grutas que elas habitam”, explica.

Mais especificamente, um dos projetos, desenvolvido na Gruta da Tarimba, no município de Mambaí (GO), tem como objetivo fazer um diagnóstico ambiental do sistema cárstico – um tipo de relevo geológico caracterizado pela dissolução química (corrosão) das rochas, que induz ao aparecimento de formações físicas como cavernas e rios subterrâneos. Outro projeto estuda as comunidades cavernícolas da Serra do Ramalho, no sudoeste da Bahia, e um terceiro pesquisa ecologia populacional e comportamento de peixes de gruta, dos gêneros Glaphyropoma e Copionodon pinna.

Bichos estranhos

Elina também descobriu várias novas espécies de animais que vivem em cavidades subterrâneas. Entre eles, a primeira esponja cavernícola da América do Sul, alguns isópodes (pequenos crustáceos), anfíbios em grutas do sertão nordestino e a primeira aranha caranguejeira troglóbia de que se tem notícia. Troglóbios, troglófi los e troglóxenos são os três tipos de animais que habitam cavernas. Eles são os cavernícolas por excelência, pois vivem exclusivamente nas lapas, completando todos seus ciclos de vida nesse ambiente sem luz. 

Os troglóbios tiveram que se adaptar, ao longo de milhões de anos de evolução, a viver na escuridão. Entre as alterações mais marcantes que sofreram estão a redução ou mesmo a perda dos olhos e de pigmentação. Em compensação, desenvolveram outros órgãos sensoriais, como antenas capazes de captar sinais químicos, mecânicos ou elétricos do ambiente, para se orientar nas trevas. O baixo metabolismo e o crescimento lento foram outras adaptações notáveis, que tornam esses seres capazes de sobreviver num ambiente com pouca comida. 

Já os troglófilos podem viver tanto exclusivamente dentro como fora das cavernas. Os troglóxenos, por sua vez, habitam as grutas de forma permanente, mas saem para se alimentar. “Das espécies subterrâneas conhecidas, cerca de 85% são troglófi los, 10%, troglóbios e o restante, troglóxenos”, explica a bióloga Eleonora Trajano, professora titular aposentada do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e pioneira no estudo da vida nas cavernas, formadora de gerações de especialistas, inclusive Elina, que foi sua aluna de doutorado.

Os troglóbios podem ser invertebrados, como insetos ou aracnídeos, ou vertebrados, principalmente peixes. O Brasil tem uma das maiores biodiversidades do mundo desses últimos, só perdendo para o México e o Sudeste Asiático. Até agora já foram registradas cerca de 20 espécies de peixes subterrâneos, sete das quais descritas por Eleonora. Entre os troglófi – los predominam os invertebrados, como aracnídeos (aranhas e opiliões) e insetos (grilos). Dentre os troglóxenos, o exemplo clássico são os morcegos, dos quais há pelo menos 40 espécies no Brasil.

Também existem dezenas de mamíferos, como roedores (ratos, pacas, cuícas), além de aves, anfíbios e répteis, que utilizam as cavidades subterrâneas como local de abrigo, reprodução ou alimentação em visitas esporádicas.

Ambientes escuros

Seja de que tipo for, de uma ou de outra forma essas espécies têm de se adaptar ao ambiente peculiar das cavernas. Todas as grutas são divididas basicamente em três zonas. A de entrada, próxima da abertura, ainda recebe luz direta do exterior. Por isso, seu clima é semelhante ao do lado de fora. Mais para dentro, fi ca a chamada zona de penumbra, onde a luz só chega de forma indireta. Nessa região as temperaturas são mais amenas e estáveis e a umidade, maior do que no ambiente externo. No fundo, fi ca a zona conhecida como afótica (sem luz), de escuridão total, com temperaturas mais baixas e umidade relativa do ar alta, próxima de 100%. 

A pouca ou nenhuma luz faz com que os ecossistemas sejam pobres em alimentos e difíceis para seres vivos. Sem luz, não há plantas, a base da cadeia alimentar no planeta. Para sobreviver nessa pobreza, os animais têm de se virar como podem. Eles dependem de alimentos trazidos de fora pelas enxurradas, pelos rios subterrâneos ou por animais que vivem algum tempo ou passam por ali, como os morcegos. Há ainda bactérias quimiossintetizantes, que substituem, em parte, as plantas que fazem fotossíntese, produzindo, por meio de reações químicas, substâncias orgânicas que alimentam outros organismos.

Diante desse quadro bizarro, não é à toa que muitos cientistas consideram cada caverna um laboratório da evolução. Por isso, não hesitam em se embrenhar em tocas escuras, úmidas e abafadas, vergados sob o peso de capacetes e equipamentos, correndo o risco de tombos ou, pior, de quedas em abismos e paredões, ou ainda de fi car presos por uma inundação repentina, causada por chuvas das quais só tomam conhecimento quando já é tarde. Todos têm uma história para contar.

Ferreira, da Ufl a, que o diga. Ele já ficou preso três vezes em lapas por causa de inundações inesperadas. Numa delas, na Gruta dos Brejões, no município do Morro do Chapéu, na Bahia, teve que passar a noite no local, esperando as águas baixarem.

Apesar disso, a ciência avança. Contando com as 70 cavernas estudadas de 2010 a 2013, o projeto coordenado por Ferreira contabilizou dados de outras 642 em Minas Gerais, das quais cerca de 500 foram visitadas pela equipe. “Nessas nossas pesquisas, identifi camos um patrimônio inestimável nesses ambientes, não apenas em termos de quantidade, mas também quanto aos tipos de rochas e os seres que neles vivem”, conta. “Recentemente, descobrimos, na Bahia, por exemplo, uma subordem desconhecida de piolho-de-cobra, um diplópode. Conseguimos isso, é importante ressaltar, no começo do mapeamento da biodiversidade subterrânea de Minas Gerais, tarefa que requer décadas de trabalho.” 

Se o prazo é tão dilatado para um Estado apenas, imagine-se para o Brasil todo. Segundo o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas, unidade descentralizada do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, do Ministério do Meio Ambiente, existem no Brasil 14.056 grutas catalogadas, mas as estimativas são de que esse número supere 100 mil, das quais apenas um terço é estudado. 

Como se vê, há ainda muito trabalho para os bioespeleólogos, os biólogos especializados em cavernas. Mas é preciso rapidez, pois atividades econômicas como a agricultura, a mineração e as hidrelétricas estão destruindo muitas delas, antes mesmo de serem conhecidas. 

Veja aqui onde estão as cavernas brasileiras

 

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MERGULHADORES DO BREU

A comunidade de bioespeleólogos  brasileiros – os biólogos especializados em pesquisar os seres que vivem na escuridão das cavernas – não tem muito mais do que 30 membros. Mas dentro desse pequeno grupo há um menor ainda, que se pode contar nos dedos, composto por pesquisadores mais radicais, que mergulham em rios e lagos nas grutas. Esse é um trabalho realmente arriscado. Com equipamentos que podem pesar 50 quilos, eles se aventuram em águas muitas vezes turvas e em labirintos de canais subaquáticos atrás de peixes albinos e sem olhos. Por causa dos riscos inerentes ao trabalho nas profundezas, não podem descuidar da segurança. Assim como os colegas que pesquisam cavernas secas, os bioespeleólogos mergulhadores nunca trabalham sozinhos. É sempre preciso ter alguém para ajudar ou ir atrás de socorro se houver algum problema. “Algumas cavernas apresentam obstáculos difíceis de ultrapassar, como cachoeiras e abismos. Quando se vai estudar animais, também é preciso levar vários apetrechos que não são fáceis de carregar, como cordas,  escadinhas, boias”, explica Maria Elina Bichuette, da Ufscar. A cientista já mergulhou em várias cavernas do Vale do Ribeira (SP), mas hoje não faz mais isso. “As difi culdades e os riscos tornam imperativo, sempre, trabalhar em grupo.”

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