Achada oferenda inca de escultura de lhama no fundo do Titicaca

Peça feita com a casca de um molusco encontrado na costa do Equador reforça a importância ritualística do lago situado entre o Peru e a Bolívia para os incas

Caixa de pedra encontrada no leito do Titicaca, com a escultura de lhama e a folha de ouro. Crédito: Teddy Sequin

Uma lhama esculpida na concha de um molusco e um objeto cilíndrico em folha de ouro compunham o conteúdo de uma caixa de pedra esculpida – uma oferenda – encontrada no fundo do lago Titicaca, segundo pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia (Penn State, dos EUA) e da Universidade Livre de Bruxelas (Bélgica). A oferenda, encontrada perto de uma ilha no lago, não estava localizada onde outros haviam encontrado peças desse gênero no passado.

“Sabíamos que eles (os incas) faziam algum tipo de oferenda ritual e que eles faziam isso no lago”, disse Jose Capriles, professor assistente de antropologia da Penn State. “As crônicas dos séculos 16 e 17 indicam que havia oferendas submersas.”

O lago Titicaca está localizado nos Andes, entre a Bolívia e o Peru. É o maior lago da América do Sul e foi importante para muitas culturas, incluindo os tiwanakus e os incas.

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Mergulhadores amadores encontraram em 1977 outras oferendas, ou artefatos que poderiam fazer parte de pacotes de oferendas, perto da Ilha do Sol, mas essas não eram oferendas intactas. Entre 1988 e 1992, mergulhadores profissionais investigaram a área do recife de Khoa e encontraram artefatos pré-incas e incas, incluindo caixas de pedra com figuras em miniatura. Escavações recentes mostram que o recife de Khoa era um importante local cerimonial para os incas e sociedades anteriores a eles; no entanto, esse novo grupo de artefatos não foi encontrado no recife de Khoa, mas no recife de K’akaya.

Caixa intacta

Capriles e Christophe Delaere, pesquisador júnior da Universidade Livre de Bruxelas, relataram suas descobertas na revista “Antiquity”.

“Desde 2012, a Universidade Livre de Bruxelas implementa um programa de pesquisa com o objetivo de localizar e inventariar o patrimônio subaquático do lago Titicaca”, disse Delaere. “Nossa equipe pesquisou sistematicamente as ilhas e recifes no lado boliviano do Titicaca.”

Mapa do lago Titicaca, com a indicação de onde a caixa foi encontrada. Crédito: José Capriles, Penn State, e Christophe Delaere, Universidade Livre de Bruxelas

O arquipélago de K’akaya fica a oeste da baía de Challapata, na costa leste do Titicaca. É composto por uma ilha principal e três pequenas. O recife de K’akaya é o último ilhéu da pequena cadeia e está coberto de fezes de pássaros.

Os mergulhadores recuperaram a caixa intacta, embora as correntes tivessem corroído um lado dela. A caixa estava bem fechada, mas não era impermeável. Descansando na caixa, embaixo do lodo que havia se filtrado, estava a lhama feita na casca de um molusco do gênero Spondylus e a folha de ouro laminada.

Uma indicação de que essas caixas contêm artefatos valiosos o suficiente para oferendas, além da folha de ouro, é a lhama de casca de molusco. O local mais próximo onde os incas poderiam obter essa concha era nas águas quentes do oceano, na costa do Equador.

Atividade ritual

Encontrar essa caixa em um novo local sugere aos pesquisadores que o Titicaca era um local de atividade ritual e cerimonial para os incas. Oferendas semelhantes são encontradas em outras partes do que era o império inca, algumas em terra e outras em água, mas os pesquisadores consideram que o lago foi importante na consolidação do império.

Segundo Capriles, quando o império inca se expandiu a partir de Cusco, no Peru, o lago Titicaca se tornou um ponto focal. Evidências arqueológicas anteriores indicam que muitas das ilhas, recifes e arquipélagos contêm ruínas de templos e outras arquiteturas monumentais.

“A maior parte do que sabemos fora da arqueologia vem dos espanhóis”, disse Capriles. “As indicações eram de que o lago Titicaca era um centro de peregrinação para os incas, mas também servia como ponto focal para alianças com outros grupos.”

Os mitos espanhóis sobre os incas despejarem seu ouro no lago Titicaca são aparentemente falsos, mas o lago ainda tem muito mais informações a serem descobertas, disseram os pesquisadores.

Mundo ainda inexplorado

Os artefatos residem no município boliviano de Escoma, que tem jurisdição sobre a área em que foram encontrados.

“Um dos objetivos de nossa pesquisa arqueológica subaquática era identificar a existência de locais semelhantes e, para nossa surpresa, encontramos pelo menos um”, disse Delaere. “Revela não apenas uma das raras descobertas intactas de uma oferenda subaquática inca, mas também que ela foi encontrada em outro local no lago, o que tem uma implicação importante para entender a relação entre o império inca em expansão, as comunidades locais que viviam no lago e o próprio Titicaca antes do contato com os europeus.”

Ele concluiu: “O mundo subaquático interior permanece em grande parte inexplorado e oferece excelentes oportunidades para entender as sociedades pré-históricas. A herança subaquática do lago Titicaca ainda tem muitas surpresas para revelar”.

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