Achados vestígios de tratamento ginecológico de 4 mil anos no Egito

Lesão traumática na pelve de mulher idosa que morreu por volta de 1800 a.C. foi tratada com fumigações

Restos de ossos de Sattjeni e da tigela empregada no tratamento encontrados pelos pesquisadores espanhóis. Crédito: Patricia Mora/Qubbet el-Hawa Project

O desenvolvimento de instrumental específico e técnicas cirúrgicas pioneiras para a saúde reprodutiva das mulheres valeu ao médico americano James Marion Sims (1813-1883) o título de “pai da ginecologia moderna”. Mas a área de atuação à qual ele se dedicou é muito mais antiga, confirmam descobertas recentes na necrópole de Qubbet el-Hawa (sul do Egito) realizadas por uma equipe da Universidade de Jaén (Espanha).

Qubbet el-Hawa está localizada em uma colina em Assuã, ao sul da vila núbia de Gharb  Aswan. Composta por quatro níveis de magníficas tumbas esculpidas na rocha, essa necrópole abrigava os restos mortais de oficiais de alto escalão de Elefantina, o principal centro urbano do Alto Egito.

Graças à descoberta, no século 19, de biografias de dignitário esculpidas para as fachadas dos túmulos, que detalham as vidas dos mais altos funcionários que controlavam a província mais ao sul do Egito, sabe-se muito sobre esse sítio. Agora, pesquisadores espanhóis descobriram ali evidências de um tratamento ginecológico realizado em uma mulher que morreu por volta de 1800 a.C.

LEIA TAMBÉM:

Evidência de tratamento

Conhecida como Sattjeni, a mulher, idosa, pertencia à elite egípcia de Elefantina. Pesquisadores do Projeto Qubbet El-Hawa em Assuã explicaram que os restos mortais foram desenterrados com “uma tigela de cerâmica contendo restos queimados entre as pernas, que haviam sido originariamente enfaixadas”.

Antropólogos da Universidade de Granada (Espanha) que colaboraram com os colegas da Universidade de Jaén confirmaram que a mulher sofrera “uma lesão traumática na pelve”. O problema, “talvez causado por uma queda, devia causar fortes dores”. As evidências sugerem que os cirurgiões egípcios seguiram as orientações de papiros médicos em referência à cura de problemas ginecológicos. Para aliviar a dor sistêmica da mulher, ela parece ter sido tratada “com fumigações”.

A fim de estudar túmulos da 12ª Dinastia em Qubbet el-Hawa, a equipe de pesquisadores da Universidade de Jaén vem escavando na necrópole desde 2008.

Detalhe do sarcófago de Sattjeni. Crédito: Patricia Mora/Qubbet el-Hawa Project
Método contraceptivo

Alejandro Jiménez, professor de egiptologia da Universidade de Jaén e diretor do Qubbet el-Hawa Project, disse ao periódico “El Comercio” que a nova descoberta não é apenas uma rara evidência tangível de um antigo tratamento ginecológico paliativo, único na arqueologia egípcia. Trata-se da primeira evidência de que as fumigações descritas em papiros médicos contemporâneos eram realmente realizadas.

O artigo de 1994 “Gynecology and obstetrics in ancient Egypt” (Ginecologia e obstetrícia no Egito Antigo), de pesquisadores franceses, analisou fontes escriturais e arqueológicas relacionadas à ginecologia e obstetrícia no Egito Antigo. Os pesquisadores disseram que “o conhecimento da anatomia era rudimentar, mas o diagnóstico precoce da gravidez era praticado”. Sabe-se que misturas espermicidas eram feitas por sacerdotes para auxiliar na contracepção. Uma cadeira de parto infantil (cadeira obstétrica) especificamente projetada era usada desde a 6ª Dinastia, por volta de 2324 a.C a 2160 a.C. Sabe-se também que a civilização egípcia foi a primeira da Antiguidade a descrever o prolapso dos órgãos genitais.

Veja também

+ Invasão de vespas assassinas aumenta tensão com 2020 nos EUA
+ Anticoagulante reduz em 70% infecção de células pelo coronavírus
+ Assintomáticos: 5 dúvidas sobre quem pega o vírus e não tem sintomas
+ 12 dicas de como fazer jejum intermitente com segurança