Água derretida do manto de gelo da Groenlândia também flui no inverno

Até então, pensava-se que o sistema de drenagem de água líquida na ilha ficava inativo no inverno; descoberta implica que acompanhamento da região deve ser feito o ano inteiro

Pesquisadores perfuram gelo sobre o rio Isortoq: água fluindo também no inverno. Crédito: Lincoln Pitcher

A água derretida líquida pode fluir profundamente abaixo do manto de gelo da Groenlândia no inverno, não apenas no verão, de acordo com um trabalho liderado pelo Cooperative Institute for Research In Environmental Sciences (Cires), da Universidade do Colorado em Boulder (EUA), publicado na revista “Geophysical Research Letters”, da American Geophysical Union (AGU). Essa descoberta significa que os cientistas que buscam entender a elevação do nível do mar e o futuro do manto de gelo da Groenlândia precisam coletar dados durante o escuro inverno do Ártico, com poucas horas de luz do dia e temperaturas abaixo de 40 graus Celsius negativos.

“Essa observação levanta questões para a comunidade de pesquisa da Groenlândia e motiva a necessidade de futuros trabalhos sobre hidrologia de inverno groenlandesa”, disse o principal autor Lincoln Pitcher, pesquisador visitante do Cires. Pitcher iniciou esse trabalho enquanto era aluno de graduação na Universidade da Califórnia em Los Angeles, e seus coautores são de sete estados americanos e da Dinamarca.

Quando as evidências sugeriram que algumas das geleiras groenlandesas estavam armazenando água derretida durante o inverno, Pitcher partiu para o sudoeste da Groenlândia para ver se algo dessa água derretida também estava deixando a camada de gelo durante o inverno. Em fevereiro de 2015, ele e seu colega Colin Gleason, da Universidade de Massachusetts em Amherst, arrastaram um radar de penetração no solo através de rios congelados a jusante da borda do manto de gelo e perfuraram poços para ver se havia água saindo do manto e fluindo por baixo do gelo no rio.

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Eles examinaram rios drenando cinco geleiras da Groenlândia e descobriram que a água do derretimento fluía em apenas um local, o rio Isortoq. No verão, o Isotoq drena a água derretida do terminal da geleira Isunguata Sermia. No inverno, o rio parece congelado, mas Pitcher e Gleason encontraram água líquida fluindo lentamente por lá.

Era “uma corrente, não uma torrente”, disse Pitcher, e a água estava fluindo abaixo de meio metro de gelo, enquanto as temperaturas estavam bem abaixo de zero. Pitcher e Gleason coletaram amostras de água e análises geoquímicas indicaram que ela havia saído por debaixo da própria camada de gelo.

A equipe concluiu que é possível que o leito do manto de gelo da Groenlândia possa permanecer úmido e drenar pequenas quantidades de água durante o ano todo. Essa descoberta é importante para entender como a água derretida da superfície do gelo se move através da camada de gelo, é retida, recongela e/ou por fim é drenada para os rios e/ou o oceano global.

Supõe-se frequentemente que o sistema de drenagem da Groenlândia permanece inativo durante o inverno. As descobertas da equipe de Pitcher destacam uma necessidade crescente de investigações hidrológicas no Ártico durante todo o ano, não apenas no verão.

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