Água sob ameaça

Nada menos do que 80% da população mundial está exposta a altos níveis de ameaças à segurança hídrica e uma severa crise de água se aproxima até 2070. Para lidar com essa questão, uma nova ciência transdisciplinar é urgentemente necessária

Barcos jazem no leito seco do Mar de Aral: em 40 anos, esse lago salgado perdeu 90% de sua área original (Foto: iStock)

A água doce do mundo está enfrentando pressões sem precedentes no século 21. Uma população global crescente e o desenvolvimento econômico levaram a demandas cada vez maiores sobre os recursos hídricos. O uso excessivo da água é generalizado; as consequências incluem a redução dos fluxos dos rios, a perda de lagos e zonas úmidas e a diminuição dos níveis das águas subterrâneas.

O exemplo mais dramático disso é o Mar de Aral, na Ásia Central, antes o quarto maior lago de água salgada do mundo. Em 40 anos ele se tornou um deserto, encolhendo para apenas 10% de seu tamanho original devido a retiradas de água a montante.

De modo mais geral, os impactos humanos nos sistemas naturais são tão extensos que o termo Antropoceno tem sido usado para descrever a época geológica atual. As crescentes pressões sobre os recursos hídricos são contrapostas a esse cenário de extensa mudança antropogênica.

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A urbanização (mais da metade da população mundial vive atualmente nas cidades), o desmatamento e a extensão de terras cultivadas (1,5 bilhão de hectares em todo o planeta) tiveram um impacto significativo na hidrologia e na qualidade da água.

 

Ameaças globais

Cerca de 80% da população mundial está exposta a altos níveis de ameaças à segurança da água. As áreas urbanas e a agricultura são fontes importantes de poluição da água, ameaçando a vida aquática e aumentando as pressões sobre os ecossistemas de água doce. Em 2010, especialistas estimaram que de 10 mil a 20 mil espécies de água doce estavam extintas ou em risco.

Inevitavelmente, as pressões sobre o ambiente hidrológico para atender às necessidades de alimentos e energia de uma crescente população humana global só aumentarão. A produção de alimentos terá de crescer 70% até 2050 para atender à demanda projetada, segundo uma estimativa de 2012 da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

Um estudo de 2013 sobre a escassez de água publicado em “Hidrologia e Ciências do Sistema Terrestre” (Hess, na abreviatura em inglês) concluiu que cerca de metade da população mundial sofrerá um grave estresse hídrico entre 2071 e 2100.

As mudanças provocadas pelas ações humanas no meio ambiente também aumentaram os riscos relacionados à água para a vida, a propriedade e a infraestrutura associadas a eventos extremos. Isso foi ilustrado pela enchente de Houston, no Texas (EUA), em 2017. Em uma área onde o desenvolvimento prosseguiu, apesar do risco conhecido de alagamento, 300 mil estruturas foram inundadas, causando a evacuação de centenas de milhares de pessoas, com danos estimados em mais de US$ 125 bilhões.

Problemas de safra (esquerda) podem levar a movimentos sociais como a Primavera Árabe (direita) (Fotos: iStock)
Impacto disseminado

Em um mundo cada vez mais interconectado, o impacto das inundações e secas não se limita às consequências locais. As inundações de 2011 na Tailândia causaram perdas econômicas estimadas em US$ 46,5 bilhões pelo Banco Mundial, devido à interrupção das cadeias de fornecimento de eletrônicos globais. E a onda de calor na Rússia em 2010, que afetou a produção de trigo e os preços globais dos alimentos, foi considerada um fator na agitação social associada à Primavera Árabe, informou a revista “The Economist” em 2012.

O recente aquecimento global levou a mudanças profundas no ambiente hidrológico. As geleiras das Montanhas Rochosas canadenses, por exemplo, estão recuando rapidamente. Espera-se que a maior parte delas seja amplamente perdida até o fim do século. Ainda assim, elas alimentam grandes rios que correm para os oceanos Pacífico, Atlântico e Ártico.

As florestas do oeste do Canadá também estão recuando, em boa parte porque foram infestadas por besouros, cuja proliferação está ligada a invernos mais quentes. Enquanto o Canadá Ocidental é um exemplo regional, deve-se notar que metade da população mundial depende da água de regiões frias, onde se pode esperar que o aquecimento tenha efeitos igualmente severos. Segundo um estudo veiculado na revista “Climatic Change” em fevereiro de 2016, até 2050, entre 0,5 bilhão e 3,1 bilhões de pessoas estarão expostas a um aumento na escassez de água causada pela mudança climática.

 

Novas estratégias

Como a comunidade da ciência da água pode responder melhor quanto a proporcionar ferramentas de compreensão e apoio às decisões necessárias para enfrentar esses desafios? A ciência incremental, que avança a pequenos passos, não está à altura da tarefa, e uma atitude de “business as usual” não pode ser tolerada. É necessário um escopo mais holístico, em escala global, além de foco estratégico.

Em primeiro lugar, há uma necessidade crescente de uma melhor compreensão científica do ambiente aquático, face a mudanças ambientais e sociais sem precedentes. Essas questões atravessam fronteiras disciplinares. Por exemplo, para prever os fluxos futuros de rios no oeste do Canadá, é preciso entender como os ecossistemas e a agricultura responderão à mudança climática.

Por sua vez, a previsão do clima futuro depende da compreensão das mudanças nas reações terra-atmosfera – como o enverdecimento da tundra arbustiva no norte, ou a proliferação de vegetação, especialmente arbustos, que absorverá cada vez mais energia solar, contribuindo para o aquecimento global.

Enchente em Houston (esquerda) e floresta afetada no Canadá (direita): impacto disseminado (Fotos: iStock)

A única coisa certa sobre o futuro é que ele será altamente incerto, quando se trata de desenvolvimento socioeconômico climático e humano – e das interações entre os dois. Essa incerteza deve ser gerenciada. Dada a complexidade dos sistemas hídricos e sua interdependência com os sistemas de terra, energia e alimentação, em escala local e global, administrar a incerteza exigirá estratégias mais adaptativas e flexíveis do que as anteriores. O passado não pode mais servir como um guia confiável para o futuro.

Precisamos analisar a vulnerabilidade e adotar estratégias que promovam a resiliência – a capacidade de um sistema de absorver o choque e continuar a se regenerar sem mudar para um novo estado.

 

Visão interdisciplinar

É amplamente reconhecido, por exemplo, que houve uma desconexão entre a ciência produzida para a avaliação do impacto climático e o planejamento hídrico no longo prazo ou a adaptação climática. Em geral, a ciência eficaz no fornecimento de soluções deve abordar problemas que os tomadores de decisão consideram relevantes, oferecer ferramentas aos usuários em um formato oportuno e útil e incluir informações do usuário. Este último item dá a credibilidade e a legitimidade necessárias para resolver as questões politicamente controversas e socialmente significativas que envolvem a gestão de recursos hídricos hoje.

Isso ilustra como é importante para os cientistas reconhecer que o engajamento de todas as partes interessadas é uma necessidade, não uma opção. O novo paradigma de pesquisa deve incluir um conhecimento profundo dos processos sociais que acompanham o envolvimento efetivo – e recíproco – da ciência e da política.

Importância dos povos locais

É crucial reconhecer que as partes interessadas locais são uma importante fonte de conhecimento. As comunidades indígenas, por exemplo, têm uma riqueza de conhecimento multigeracional de suas terras e suas interações com forças naturais. Esse conhecimento deve ser usado para o benefício da ciência. É por isso que – como parte do programa Global Water Futures (GWF) no Canadá – foi lançado um projeto com os povos aborígines do Canadá em abril de 2018 para trabalhar juntos em uma estratégia de pesquisa dedicada a resolver os problemas de água que essas comunidades têm enfrentado.

Em última análise, os principais desafios da segurança da água residem na governança. A questão de quem tem o poder de tomar decisões (e como essas decisões são tomadas) é, portanto, crucial.

Se a compreensão científica e a previsão de mudanças na água colocam desafios científicos significativos, o mesmo ocorre com o gerenciamento da água. A segurança da água no século 21 é uma questão tanto científica quanto social. Portanto, é necessária uma nova abordagem transdisciplinar que faça ligações entre as ciências naturais e as sociais.

Resumindo: para evitar uma grande crise de água, precisamos desenvolver novos conhecimentos científicos a fim de entender a evolução dos sistemas de água que envolvem a relação entre o homem e a natureza; estabelecer novos modos interdisciplinares de colaboração científica para entender as interconexões desses sistemas e suas implicações sociais; integrar o conhecimento local em pesquisa científica para atender às necessidades do usuário; e criar mecanismos mais eficazes para traduzir o conhecimento científico em ação social.