Álcool gel: se falsificado, não use; se legalizado, use com cuidado

É sempre importante atentar para a procedência do produto; depois de passá-lo nas mãos, deve-se ter cuidado com fogo

Álcool gel: consumi-lo envolve cuidados que nem todos estão tendo. Crédito: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

A falta de álcool gel no mercado tem levado muitas pessoas, no desespero de conseguir o produto, a comprá-lo sem os devidos cuidados quanto à procedência. Caseiro, falsificado ou legalizado, o produto pode representar um risco alto de queimaduras. O alerta foi feito pelo gerente de fiscalização do , que é também conselheiro suplente do Conselho Federal de Química.

Depois de passar o produto nas mãos, é preciso ter cuidado ao acender um cigarro ou o fogão da cozinha.

Contrera disse já ter recebido relatos sobre o uso exagerado do produto. “Neste momento de tensão, em que todos estão com medo da Covid-19, muitas pessoas cometem excessos. Usam máscaras até quando dirigem sozinhas no carro. No caso do álcool gel, as pessoas usam em grande quantidade e a todo momento. Aí esquecem e vão acender um cigarro ou mesmo o fogão, para preparar as refeições. É um verdadeiro perigo”, disse ele.

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Segundo o químico, entidades ligadas a tratamentos de queimaduras relatam casos de pessoas que se queimam ao se aproximar de fontes de calor logo após passar álcool gel nas mãos. “O gel também é inflamável e, conforme mostram as embalagens, não pode ser deixado ao alcance de crianças nem de animais domésticos.”

Produto perigoso

“Se o produto industrializado já é perigoso, o que dizer do falsificado?”, alertou o gerente.

No caso do álcool gel falsificado – ou mesmo dos caseiros, que seguem receitas disponibilizadas na internet –, os riscos são ainda maiores, colocando em perigo não só a vida do consumidor como a do fabricante e a do vendedor.

“Mesmo que a pessoa tenha a receita, há que se considerar vários outros fatores, inclusive a matéria-prima utilizada. Se elas não são fáceis de ser compradas por empresas legalizadas, imagine por leigos. Isso de misturar álcool líquido com gelatina ou gel para cabelo é tudo conversa fiada de pessoas que, infelizmente, se acham geniais por inventar isso em cinco minutos de reflexão. A manipulação por pessoas não preparadas é de extremo perigo”, disse à Agência Brasil.

Efeito oposto

Segundo o químico, dependendo do caso os produtos podem, em vez de propiciar assepsia, ter efeito oposto, por desenvolverem microrganismos, mesmo que tenham mesma aparência e consistência do artigo legalizado.

“O álcool gel é produzido a partir de álcool com alta concentração, uma mistura que fica em 70%. Quando feito por processo industrial, há todo um cuidado. Mas, se feito em casa ou de forma improvisada, é extremamente perigoso, por se tratar de um produto altamente inflamável. Não à toa, a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] publicou há quase 20 anos uma resolução proibindo a venda de álcool líquido acima de 54 graus nos mercados”, argumentou.

Ele explicou que é muito difícil identificar a “olho nu” as diferenças entre o produto legal e o falsificado. “Em alguns casos, quando a falsificação é grosseira, dá para se notar na embalagem, mas, em outros casos, e já vimos isso até mesmo em xampus e produtos de limpeza, a embalagem é tão bem feita que o consumidor acaba não percebendo.”

Coordenador da Divisão de Química Tecnológica do Instituto de Química, da Universidade de Brasília, o professor Floriano Pastore afirma que, normalmente, ao se colocar gelatina em uma solução aquosa, ela fica mais viscosa. “E se essa solução tiver um pouco de álcool, vai ter cheiro típico de álcool gel. No entanto, não terá a principal característica, que é o porcentual aproximado de 70% de etanol, para proporcionar a qualidade bactericida e desinfetante ao produto.”

Uma boa dica é levar em consideração o local onde o álcool gel está à venda. O ideal é comprar em farmácias e supermercados, ou estabelecimentos similares, que respondem pela garantia do produto, evitando adquiri-lo no mercado informal.

Crime contra a saúde pública

Além de representar riscos para quem o manipula, fabricar e comercializar álcool gel falsificado é crime, passível de punição tanto pela autoridade sanitária como, administrativamente, pelos conselhos regionais e federal de química.

“Tanto quem fabrica como quem comercializa está praticando crime contra a saúde pública, e responde por isso. E se houver envolvimento de um profissional de química, nosso conselho abre processo administrativo paralelo ao criminal. Se ele for conivente, poderá ser suspenso ou impedido de exercer a profissão”, disse  Contrera.

Segundo o químico, só empresas registradas junto à Anvisa, e tendo profissional responsável técnico, possuem autorização para fabricar álcool gel. As empresas são fiscalizadas pelos conselhos regionais e federal de química, que verificam se os profissionais são habilitados. Já a vigilância sanitária é responsável por verificar se as boas práticas de fabricação são seguidas e se o estabelecimento está de acordo com o que a legislação sanitária determina.