Algoritmo permite decifrar segredos em obras de arte antigas

Recurso de inteligência artificial criado por cientistas possibilita obter imagens nítidas de pinturas a partir de registros de raios X

Retábulo de Ghent, dos irmãos Van Eyck: pinturas dos dois lados do painel acrescentam complexidade às imagens em raio X da obra. Foto: Wikimedia

Cientistas do University College de Londres (UCL) e da Universidade Duke (EUA) conseguiram um notável avanço em termos de melhora de clareza das imagens de raios X de pinturas antigas. A abordagem de inteligência artificial (IA) aplicada ao estudo, publicado na revista “Science Advances”, significa um aprofundamento na compreensão das obras de arte e novas oportunidades para investigar, conservar e apresentar esses trabalhos.

A aplicação de raios X a obras de arte tem ajudado a revelar detalhes subjacentes da obra e informações adicionais sobre as técnicas usadas pelos artistas. Mas um dos problemas enfrentados era interpretar as imagens, tal a profusão de aspectos encontrados. Aparecem dados, por exemplo, de materiais empregados e suportes utilizados. A reutilização da tela acrescenta uma dificuldade adicional.

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Para superar esses obstáculos, os cientistas do UCL e de Duke, liderados por Zahra Sabetsarvestani, criaram um algoritmo destinado a estudar imagens em raios X misturadas contendo aspectos da frente e de trás de painéis com pinturas nos seus dois lados.

O algoritmo foi testado na obra “A Adoração do Cordeiro Místico”, pintada em 1432 pelos irmãos Hubert e Jan Van Eyck. Também conhecida como Retábulo de Ghent, a peça, localizada na Catedral de São Bavo, em Ghent (Bélgica), é composta de vários painéis, alguns dos quais são pintados com imagens nos dois lados.

A equipe escolheu dois dos painéis de dupla face e começou a trabalhar. Com o algoritmo, conseguiu-se desconstruir o material em duas imagens nítidas.

Separação quase perfeita

“Os resultados finais produzidos por essa abordagem parecem apresentar uma separação quase perfeita das imagens mistas de raios X em ambos os casos”, escreveram os autores no artigo da “Science Advances”. Segundo eles, as imagens obtidas representam uma “melhoria espetacular” na foto original.

Hélène Dubois, chefe do Projeto de Conservação do Retábulo de Ghent, do Instituto Real do Patrimônio Cultural (KIK-Irpa), disse: “A aplicação da IA ao processamento de imagens de raios X fornecerá ferramentas muito úteis para descriptografar imagens técnicas complexas. As fraquezas estruturais dos suportes de madeira e das camadas da tela e da pintura poderiam ser diagnosticadas com mais precisão”.

Ela acrescenta: “Essas imagens também ajudarão a entender as técnicas dos irmãos Van Eyck e as mudanças realizadas no curso da execução sucessiva dessa obra-prima única. Esse novo desenvolvimento do uso do raio X tradicional tem um grande potencial para inúmeras aplicações em conservação de obras de arte insubstituíveis”.

Os cientistas querem testar sua abordagem em outras obras-primas famosas nas quais um artista reutilizou uma tela. A lista inclui o retrato de Frederick Rihel a cavalo feito por Rembrandt, onde o artista alterou uma composição, e “A Morte de Actaeon”, de Ticiano. As duas pinturas integram o acervo da National Gallery, em Londres.