Álvaro Cubero: Ver para crer e preservar

Nascido na Costa Rica, pequeno país da América Central gigante em biodiversidade, o fotógrafo Álvaro Cubero trabalha para fazer conhecidas as riquezas naturais da sua terra e do mundo

Se o Brasil, que se esparrama por 8,5 milhões de quilômetros quadrados, já se orgulha de reunir cerca de 20% das espécies do planeta, o que dizer da Costa Rica? Essa estreita e pequenina faixa de terra de apenas 51 mil km2 (pouco menor que o Rio Grande do Norte) entre o Mar do Caribe e o Oceano Pacífico concentra 5% da biodiversidade do mundo. Metade desse território está coberto por florestas e 25% abriga parques nacionais e áreas protegidas. Um paraíso natural e prato cheio para lentes fotográficas. “Viver na Costa Rica como fotógrafo de natureza é a maior bênção que uma pessoa pode receber. Estou no lugar exato para isso”, comenta o costa-riquenho Álvaro Cubero, que se tornou fotógrafo profissional meio sem perceber, cerca de seis anos atrás, e hoje é referência nacional.

Seus cliques mais emblemáticos, até o momento, são do quetzal-resplandecente (Pharomachrus mocinno), ave sagrada para os maias e astecas. Típica da América Central, ela é símbolo da Guatemala, mas corre risco de extinção. Apesar disso, tem na Costa Rica uma população ainda saudável, coisa que poucos sabem. Foram quatro anos de trabalho junto a essa espécie, tempo em que a produção do fotógrafo deu um salto de qualidade. “Quando tirei as primeiras fotos, achei que tinha alcançado o melhor do meu trabalho. Hoje vejo como eram primárias. Só guardo essas imagens por carinho”, ri ao contar. Foi também no seu encontro com o quetzal-resplandecente que Cubero descobriu exatamente o que queria da fotografia: usá-la como ferramenta de preservação. “Quero mostrar coisas que as pessoas não sabem que existem. As pessoas não podem preservar o que não conhecem.”

Cubero destaca que vivemos um momento de intoxicação de informação. Somos bombardeados o tempo todo por alertas sobre a destruição que estamos causando no meio ambiente. “O mal disso é que passamos a bloquear essas informações, estamos nos tornando insensíveis a elas”, diz. Por isso, ele prefere adotar a linha de reforço positivo. “O maior impacto ocorre quando as pessoas veem a imagem, seja em foto ou vídeo. Isso pode fazer com que elas mudem de atitude. O trabalho que estou fazendo é para que meus filhos e seus filhos continuem a ver o que estou vendo.”

Sonho antigo

Os quetzais aproximaram ainda o fotógrafo de um sonho de criança: estudar biologia. Cubero foi convidado pelo Instituto Nacional de Biodiversidade da Costa Rica a fazer faculdade na área. Por falta de tempo, a empreitada foi reduzida a um curso técnico de dois anos, que lhe rendeu uma licença para guia de turismo de natureza. “Conhecer os ecossistemas e o comportamento animal é fundamental para a fotografia de natureza. Mas, sem querer desmerecer o curso, minha melhor escola foi o campo.”

Cubero cresceu pensando em ser biólogo, mas quando escolheu uma carreira, aos 18 anos, se mudou do litoral (Punta Arenas) para a capital, San José, a fim de cursar produção audiovisual. Já fazia peças publicitárias e vídeos para amigos, mas ainda não sabia que uma cena nada mais era do que 24 fotos passando por segundo. “Quando descobri isso, decidi que queria ir à raiz e contar uma história com apenas uma foto.” Uma vez escolhida a fotografia, foi fácil definir que se especializaria em imagens da vida selvagem.

A princípio, seus trabalhos na área eram voluntários. Fazia fotos para pesquisadores, instituições e parques nacionais. Aos poucos, passou a ser remunerado pelas imagens que produzia e pôde deixar o emprego de vendedor em uma loja de shopping. Isso aconteceu há apenas três anos. “Nunca imaginei que eu poderia viver disso em tão pouco tempo, e ainda sustentar minha família”, confessa Cubero que, hoje com 26 anos, é casado e tem dois filhos.

Boa parte da sua produção atual é dedicada a revistas científicas e estudos de taxonomia (ramo da biologia que descreve, identifica e classifica os seres vivos). “Antes se matava um exemplar das espécies para elas serem estudadas e catalogadas; hoje, a tecnologia e a precisão das câmeras permitem que esse trabalho seja feito por meio de imagens”, destaca.

Voando longe

Sua experiência em planejar expedições dentro da Costa Rica para fazer suas próprias fotos proporcionou um novo ramo de atuação a Cubero: consultor de viagens fotográficas. Ele pensa todo o itinerário, conforme o gosto e interesse do freguês, seja ele fotógrafo profissional ou amador.

Do seu pequeno país, ele estendeu sua atuação para o mundo. As investidas pessoais para clicar outras maravilhas naturais do planeta permitiram que Cubero criasse outro negócio. Junto com o colega Luis Solano Pochet, reconhecido fotógrafo costa-riquenho de paisagem, começou a oferecer workshops em formato de viagens fotográficas, ocasião em que ensinam na prática a retratar a natureza.

Quando começaram, há cerca de três anos, eles ofereciam dois destinos; hoje, já são mais de dez. “No início escolhemos países que tínhamos mais vontade de ver, como Canadá, Islândia e Noruega. Mas depois percebemos que eles já eram bastante comercializados pelo ‘turismo regular’. Passamos, então, aos destinos mais exóticos, como Namíbia, Madagascar e Groenlândia.” Neste ano, o Brasil está sendo testado para entrar no leque de opções. Em julho, o fotógrafo fará sua primeira expedição em território brasileiro, mais exatamente ao Pantanal.

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