Antepassados humanos ocupavam caverna siberiana só ocasionalmente

Os moradores mais frequentes no complexo da Caverna Denisova eram grandes carnívoros, como hienas, lobos e ursos

Pesquisador com amostra de material coletado no complexo da caverna: os ocupantes mais frequentes eram os grandes carnívoros. Crédito: Universidade de Wollongong

Cientistas australianos e russos encontraram excrementos fósseis de animais, carvão de incêndios antigos e fragmentos de ossos espalhados pelo chão do complexo da Caverna Denisova, um dos locais mais importantes de evolução humana no mundo. O trabalho sobre a descoberta foi apresentado recentemente na revista “Scientific Reports”.

As evidências mais recentes colhidas no sul da Sibéria mostram que grandes carnívoros que habitam cavernas dominaram a paisagem, competindo por mais de 300 mil anos com tribos antigas por espaço privilegiado em abrigos de cavernas.

A equipe de cientistas usou modernas técnicas geoarqueológicas para descobrir novos detalhes da vida cotidiana no complexo da Caverna Denisova, nas Montanhas Altai, na Sibéria.

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A investigação sobre a sujeira depositada nas cavernas durante milhares de anos revelou que grandes carnívoros, como hienas, lobos e ursos, e pelo menos três primeiros grupos humanos nômades – denisovanos, neandertais e Homo sapiens – usaram esse sítio arqueológico.

“Esses grupos de hominídeos e grandes carnívoros, como hienas e lobos, deixaram uma variedade de traços microscópicos que iluminam o uso da caverna nos últimos três ciclos glacial-interglaciais”, diz Mike Morley, pesquisador da Universidade Flinders (Austrália) e principal autor do estudo.

Complemento

“Nossos resultados complementam o trabalho anterior de alguns de nossos colegas no local que identificaram DNA antigo na mesma sujeira, pertencentes aos neandertais e a um grupo humano anteriormente desconhecido, os denisovanos, além de uma grande variedade de outros animais”, ele acrescenta.

A mudança em relação às descobertas anteriores é que, segundo o novo estudo, aparentemente eram os animais que dominavam o espaço das cavernas naquela época. Estudos microscópicos de 3-4 metros de sedimentos deixados no complexo incluem excrementos fósseis deixados por animais predadores, como hienas e lobos e possivelmente ursos.

A partir do exame de micromorfologia da sujeira encontrada na Caverna Denisova, a equipe descobriu pistas sobre o uso da caverna, incluindo o uso do fogo por humanos antigos e a presença de outros animais.

O estudo de blocos de sedimentos intactos coletados na caverna produziu informações não evidentes a olho nu ou colhidas em estudos anteriores de DNA antigo, ferramentas de pedra ou restos de animais e plantas.

Para Richard Roberts, coautor da pesquisa e professor da Universidade de Wollongong (Austrália), o estudo é muito significativo porque mostra o quanto pode ser alcançado através da peneiração de material sedimentar usando microscopia avançada e outros métodos científicos arqueológicos para encontrar novas críticas. evidência sobre a vida humana e não humana.

Visitas esporádicas

“Usando análises microscópicas, nosso último estudo mostra visitas esporádicas de hominídeos, ilustradas por traços do uso do fogo, como fragmentos minúsculos, mas com o uso contínuo do local por carnívoros que vivem em cavernas, como hienas e lobos”, diz Roberts. “Excrementos fósseis (coprólitos) indicam a presença persistente de habitantes de cavernas não humanos, e é muito improvável que eles tenham se habituado com seres humanos usando a caverna como abrigo.”

Isso implica que os grupos antigos provavelmente ocupavam e deixavam as cavernas, em episódios de curta duração, e em todos os outros momentos o complexo foi ocupado por esses grandes predadores.

A Caverna Denisova ficou famosa há mais de uma década, com a descoberta dos restos fósseis de um grupo humano anteriormente desconhecido, apelidado de denisovanos. A recente descoberta de um fragmento de osso nos sedimentos da caverna mostrou que uma adolescente nasceu de uma mãe neandertal e de um pai denisovano há mais de 90 mil anos.

Denisovanos e neandertais habitavam partes da Eurásia até 50 mil anos atrás, cedendo lugar a seres humanos modernos (Homo sapiens).