Apocalipse último aviso antes do fim do mundo

Presidente e fundador do Samu (Serviço de Atendimento Médico de Urgência) social francês.

Quando reflito sobre a guinada que tomou nossa civilização tão brutal, tão mercantilista, tão descrente, constato que vivemos uma época absolutamente única, sem nenhum precedente histórico. Exploramos caminhos inéditos destituídos de balizas e pontos de referência, ao mesmo tempo que damos nossos primeiros passos no espaço cósmico, devassamos o coração da matéria e manipulamos, com mãos desajeitadas, os próprios germes de nossa humanidade. Tais fatos assinalam, creio, o fim de um certo modo de ser e de pensar, e o mundo inteiro parece estar à espera de novos sinais. Nesse sentido, chegamos ao apocalipse, ao fim dos tempos, pelo menos aqueles tempos que nossos pais conheceram. Mas, embora esse final dos tempos pareça inelutável, ninguém ainda pode falar dele em termos racionais.

Ao escrever essas palavras, o cristão que sou não pode deixar de se reportar ao testemunho dos últimos dias: o “Apocalipse”, também conhecido como “Quinto Evangelho”, apresentado como a última revelação – a do fim do mundo. Um mundo marcado pelo ritmo eterno dos campos, das estações do ano, dos reinados, dos países. Um mundo que está morrendo, e ainda não sabemos qual outro mundo tomará o seu lugar…

Penetramos numa época radicalmente nova, cheia de angústia e que faz alarde da sua chegada. De agora em diante, cada vez mais, poderemos ouvir seu clamor, pois já entramos nesses tempos de revelação ou apocalipse da civilização-mundo. Mas, para nós que a percorremos por dentro, essa nova era se apresenta insidiosa, e a sua familiaridade nos esconde os seus prodígios.

A visão de São João não estava SUBMETIDA à lei da Terra e ele viu centenas de anos em um único instante

São João, que a observava de tão longe, gozava do benefício da aceleração do tempo, pois a sua visão não estava submetida à lei da Terra. Ele provavelmente viu a sucessão de dezenas, centenas de anos num único instante. De outro lado, não tendo referências, ou melhor, tendo apenas referências religiosas, ele não hesitou em lançar mão de alegorias. Por isso, em desacordo com as idéias preconcebidas a respeito dos tempos apocalípticos, não se deve esperar que o céu nos ofereça muitas manifestações hollywoodianas. Coisas sobrenaturais acontecem e acontecerão, mas no seu próprio ritmo.

ALÉM DISSO, TAIS coisas podem ser apenas o produto de simples interpretações. O apocalipse pode perfeitamente se estender por mais de mil anos, e os acontecimentos relatados na visão de São João podem se revestir de outras formas que não aquelas imaginadas por um homem da Antiguidade. Por mais culto que esse homem fosse, ele não poderia imaginar uma civilização mecanicista. O que não se pode negar é que São João tenha sido transportado em espírito a uma época intermediária, de mutação, e que tenha visto alguma coisa inscrita desde sempre no tempo.

Compete a cada um de nós verificar o que é possível perceber e tirar de tudo isso… Claro, a partir de seus condicionamentos e superstições, uma pessoa de espírito mais fraco pode decodificar qualquer coisa nesse texto bíblico. Examinemos como o texto do “Apocalipse” descreve a nossa civilização, que engendrou duas guerras mundiais, duas grandes ideologias monstruosas que se queriam universais, das quais uma, a nazista, foi qualificada de besta imunda, essa civilização de ferro, fogo e sangue, tecnológica, materialista, mercantilista e impiedosa. O texto, com efeito, se refere a ela como uma besta de poder e de desprezo:

[…] Depois disso, eu me sentei na areia, na beira do mar

E vi sair do mar uma besta com dez chifres e sete cabeças.

Sobre cada chifre

Havia uma coroa, e sobre cada cabeça o nome de uma blasfêmia.

[…] E o dragão lhe presenteou com toda a sua força

E com o seu trono, e com um enorme poder.

Uma das suas cabeças estava mortalmente ferida

Mas a ferida se curou, e então o mundo inteiro a admirou

e se pôs a seguir a besta

E, além disso, se prosternou diante do dragão

Que tinha dado tamanha força à besta. E foi de joelhos diante dela que eles disseram

Quem pode se comparar à besta?

Quem a pode combater?”

Os camponeses de outrora consultavam a Bíblia cada vez que estavam inquietos, para ler nela os acontecimentos e tentar encontrar um sentido ou um propósito para eles. Da mesma forma, leio nesse trecho bíblico o poder de nossa civilização que detém aquele poder do dragão (ou seja, do demônio). Ela possui muitas ramificações, tantas cabeças, democracias, ditaduras, nazismo, comunismo, monopólios internacionais, complexos militares-industriais. Mas, na verdade, o que mais me chama a atenção é a segunda besta:

Então, vi outra espécie de besta. Saída da terra e trazendo dois chifres.

Como o cordeiro, mas com voz de dragão. E ela se pôs a serviço da primeira besta. Ela proliferou, e agiu de forma a que a terra inteira

E os seus habitantes se pusessem de joelhos diante da primeira besta, aquela que, ferida, curou-se. E ela pode criar fenômenos impressionantes

Diante dos homens, ela fez chover sobre a terra…

Mais inquietante é o que segue:

E foi dado o poder de insuflar vida à imagem da besta e de dar voz a essa imagem, e de fazer com que aqueles que não se prosternam diante dela sejam mortos.

Nessa segunda besta, vejo a proliferação de televisões pelo mundo afora, a serviço da ideologia da modernidade. Não digo, de modo simplório, que os dois chifres representam as antenas e que a voz do dragão provêm de alto-falantes. Mas, quando ela cria fenômenos impressionantes e incita os homens deste mundo a fazer “o retrato dessa besta”, são os filmes, os espetáculos e as revistas que relatam, reforçam e perpetuam o modelo único da civilização-mundo.

No que diz respeito às últimas linhas, elas corroboram o que penso sobre a realidade virtual. Aquilo que não se manifesta no espaço criado pela televisão não existe, pertence à verdade verdadeira e, portanto ao nada, e assim sendo está morto! A segunda besta vira o mundo do avesso. Nesse mesmo texto, São João aproveita para passar recados às sete igrejas e fornecer lições de política que permanecem atuais:

Ao anjo da igreja de Laodicéia escreveu:

[…] Conheço tuas obras.

Tu não és frio, nem quente, embora tivesses de ser um ou outro. Mas, não sendo nem quente nem frio, e sim morno,

Vou te vomitar

Pois tu dizes ‘eu sou rico’

Eu me enriqueci

E não preciso de nada.

Mas tu não sabes

Que és um infeliz, uma escória, um pobre coitado. Cego e nu.

Se quiseres enriquecer, aconselho que venhas a mim comprar daquele ouro incandescente e roupas brancas para te vestires.

De modo a cobrir tua patética nudez

E gotas de colírio para teus olhos, se quiseres ver.

Eu ponho à prova aqueles que amo

E os formo.

Demonstra teu zelo e arrepende-te!

Cada um pode vestir a carapuça. Sobretudo os políticos que governam na base das pesquisas de opinião pública… e que não são quentes nem frios, apenas mornos! Os habitantes da Ucrânia, por seu lado, se reconheceram quando o terceiro anjo tocou a trombeta:

E o terceiro anjo tocou e então do céu desceu uma enorme estrela.

O nome dessa estrela é Absinto.

Um terço das águas se misturou a tal absinto.

E muitos morreram envenenados.

A catástrofe de Chernobyl vinte anos depois

Chernobyl proporcionou a criação de uma subpopulação doente ou discriminada. Também houve um aumento progressivo de casos de câncer em jovens, particularmente em crianças, desde as que ainda eram feto até as que estavam com dois anos na ocasião do acidente.

Em ucraniano, absinto se diz “Chernobyl”. Nossa época viu o cavalgar dos quatro cavaleiros nos quatro cantos da Terra: a guerra, a fome, a peste e a morte – e por peste, é claro, é preciso se entender as epidemias. Basta ler os jornais ou, melhor ainda, ouvir e tentar acompanhar as notícias transmitidas pela televisão para contemplar a esteira de tragédias deixada pelos cavaleiros. Eles apareceram e aparecem na forma de anjos exterminadores, e se chamam Pol Pot, Mengistu, Stálin, Hitler. Eles se chamam aids, tuberculose, malária.

Mais que nunca, portanto, o apocalipse é atual. Chegamos àquele ponto em que não mais existe espaço nem tempo, no qual existem apenas imagens órfãs, um espaço virtual do qual certamente se desprende alguma emoção, mas não se vê o sentido… A Bíblia, em todo caso, permite que eu me localize nisso tudo, como permitiu a muitos outros antes de mim.

As guerras do último século trouxeram ao homem princípios antes escondidos na textura íntima da terra e da matéria. A explosão demográfica que resultou desses novos conhecimentos é proporcional ao potencial de destruição até agora desenvolvido.

Como disse o filósofo Pierre Boutang, “a revolução dissolveu o mundo da compaixão”. Desde então, existimos num universo destituído de um pacto com o divino, e caracterizado por uma brutalidade desenfreada.

Mas o mundo não pode existir sem lei. Ao ignorar as leis dos homens reveladas pelos Dez Mandamentos, os quais acarretam o cuidado para com o outro, a compaixão e o amor ao próximo, vamos direto ao encontro das leis do plano inferior, as leis da raça e do território. São elas que, hoje, correm soltas pelo mundo e ditam as regras.

O terrível é que, se zombarmos delas, se as desrespeitarmos, sem tentar retomar aquelas leis específicas do fenômeno humano, desceremos a um nível ainda mais baixo. Desceremos ao plano das leis constitutivas da matéria, ainda mais antigas, ainda mais monstruosas. É exatamente para esse estrato que nos encaminhamos, se continuarmos a considerar os seres humanos como objetos mecânicos, geridos por regras, proceduras e direitos anônimos, objetivando apenas o comércio e a troca de mercadorias para o “consumo”.

O desencanto do mundo conduz a humanidade às relações telúricas selvagens, às relações da gênese. De qualquer forma, disso surgirá pelo menos um projeto e um sentido, pois Deus não permite que o mal triunfe e fará com que algo de bom apareça – esta é a lei da criação. Mas o preço disso serão reviravoltas cataclísmicas, como já aconteceu na alvorada da criação, e com grandes sofrimentos.

O que há para se ler Dernier Avis Avant la Fin du Monde (Último Aviso Antes do Fim do Mundo), Xavier Emmanuelli, Edições Albin Michel, França.

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