Apoteose Jesuítica

A vinda do papa Francisco para a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, recoloca a ordem dos jesuítas e seus feitos em posição de destaque no mundo religioso.

Três coincidências ressaltam a obra dos jesuítas entre os brasileiros. O papa Francisco é o primeiro pontífice da ordem; sua primeira viagem internacional foi ao Brasil; e o país possui umas das histórias mais intimamente liga-
das aos jesuítas. Para quem não se lembra, o papa promoveu até uma exposição – Jesuítas: Paixão e Glória –, que percorrerá os Estados exibindo uma réplica do painel do pintor italiano Andrea Pozzo que adorna o teto da Igreja de Santo Inácio de Loyola, em Roma (veja ao lado), celebrando a glorificação de Santo Inácio, o fundador da ordem. Afinal, a Companhia de Jesus frequenta as terras brasileiras desde a primeira metade do século XVI. Entre seus feitos está nada menos do que a fundação de São Paulo, a maior metrópole sul-americana. A ordem nasceu em 1534, da reunião de sete alunos devotados da Universidade de Paris, os espanhóis Inácio de Loyola, Francisco Xavier (ambos já santificados), Alfonso Salmeron, Diego Laínez e Nicolás Bobadilla, o francês Pierre Lefevre e o português Simão Rodrigues. Denominavam-se “Companhia de Jesus” e “Amigos no Senhor” por sentirem que “haviam sido reunidos por Cristo”, e se propunham a seguir fielmente as Escrituras e as ordens do papa e dos superiores hierárquicos.?

Para frisar essa submissão voluntária e militante, que não era da boca para fora, Inácio de Loyola – primeiro superior-geral da Ordem – pronunciou uma frase célebre: “Acredito que o branco que vejo é negro, se a hierarquia da Igreja assim o definir.” Esses eram os tempos dogmáticos da Contrarreforma.

Autorizados a funcionar como ordem pelo papa Paulo III, em 1540, os jesuítas dedicaram-se a três atividades. A primeira foi a missão educacional, fundando várias escolas na Europa e destacando-se como professores e pedagogos com preparo intelectual.

A segunda foi a obra evangelizadora. Os jesuítas não esmoreciam em levar a doutrina católica a vários cantos do planeta. Além das Américas, instalaram missões na Índia, na China e no Japão, ainda no século XVI.

A terceira obra, que não constava das propostas iniciais, foi barrar o avanço crescente do protestantismo, lançado pelo sacerdote alemão Martinho Lutero em 1517. A atuação dos jesuítas, simultâneamente ao lançamento do movimento da Contrarreforma, pela Igreja de Roma, em 1545, no Concílio de Trento, foi fundamental para o catolicismo manter-se como religião dominante no sul da Alemanha, na Polônia e na Lituânia.

Embora hierarquicamente submissos a Roma, os jesuítas nunca embarcaram nos desvios éticos da Igreja, que tanto combustível forneceram à crítica protestante. Uma das regras da ordem, por exemplo, os impede de ambicionar cargos eclesiásticos, a fim de afastar o eventual interesse dos integrantes por dinheiro ou poder. A eleição do arcebispo argentino Jorge Bergoglio como papa é uma das raras exceções a essa regra: uma convocação de um alto colegiado para um serviço à Igreja.

Com o tempo, no entanto, também apareceram indícios de anseios de poder. Em 1605, por exemplo, jesuítas teriam exercido papel importante numa trama para assassinar o rei inglês James I. Também surgiram especulações sobre os verdadeiros objetivos fundamentalistas da ordem diante dos poderes temporais dos Estados, que viraram motivo de atritos constantes com o Vaticano e vários países europeus. Os jesuítas sempre foram críticos dos governos dos homens.

Com a militância pró-indígena de muitos, as rusgas atingiram o auge no século XVIII, quando a ordem foi expulsa de Portugal, Espanha, França e dos reinos de Parma e das Duas Sicílias, na Itália. Do Brasil, ela foi expulsa pelo marquês de Pombal, secretário de Estado do Reino de Portugal, em 1759. Em 1773, o papa Clemente XIV decidiu fechar a Companhia de Jesus.

Em 1814, porém, o papa Pio VII voltou atrás e devolveu a autorização para a ordem funcionar. Nessa fase, a companhia iniciou uma grande expansão educacional, sobretudo nos Estados Unidos. Atualmente, a Companhia de Jesus está presente em 130 países, com pouco menos de 17 mil membros, 552 dos quais no Brasil.

Mostra itinerante

A vinda do papa mobilizou intensamente os jesuítas. Inicialmente, re- forçou a importância do Magis, o mais importante evento de jovens ligados à ordem, criado em 1997 e realizado no país-sede da Jornada Mundial da Juventude, duas semanas antes. Na edição brasileira, dois mil jesuítas e simpatizantes se reuniram para, divididos em grupos, vivenciar experiências como conhecer favelas, como a da Rocinha, no Rio, e comunidades ribeirinhas da Amazônia, partilhando a experiência com os outros participantes.

A visita estimulou a ordem a apresentar sua movimentada história por meio da exposição multimídia Jesuítas: Paixão e Glória, montada durante a Jornada Mundial numa área de 200 metros quadrados no respeitado Colégio Santo Inácio, na capital fluminense. A exposição percorrerá as principais capitais do país em 2014, a começar por São Paulo, mostrando como atração uma réplica do famoso afresco de Andrea Pozzo (1642-1709) que enfeita o teto da nave principal da famosa Igreja de Santo Inácio de Loyola, em Roma, e encena uma verdadeira apoteose da missão mundial dos jesuítas.

“A história da Companhia de Jesus é marcada por momentos cruciais de enlace entre a vida e formação das novas sociedades e a influência jesuítica em um mundo em transformação”, diz o padre brasileiro Geraldo Lacerdine, um dos organizadores da exposição. “A mostra narra os primórdios da instituição, sua dispersão para todos os continentes, o diálogo com as culturas e a influência da educação jesuítica no contexto mundial.”

De acordo com Lacerdine, cada cidade que receber a exposição abrigará também um evento sobre a educação, a cultura e a influência jesuíticas, com a participação de intelectuais locais. Desse modo, a ordem pretende criar um novo capítulo no seu eterno esforço de entender e fazer entendida sua missão divina.

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