Aral, o mar que está virando pó

A parte norte do antigo grande lago da Ásia Central está sadia, mas o sul está em processo acelerado de desertificação

O Aral visto do alto: a parte norte se mantém, mas o lado sul, sob responsabilidade do Uzbequistão, está cada vez mais seco e sujeito a tempestades de poeira. Crédito

Em 24 de março de 2020, o Espectrorradiômetro de Imagem de Resolução Moderada (MODIS) no satélite Aqua, da Nasa, capturou esta imagem em cores naturais de uma tempestade de poeira sobre o outrora vasto lago interior denominado Mar de Aral, na Ásia Central. Parecia que grande parte da poeira vinha do deserto de Aralkum, que surgiu quando o Mar de Aral secou nas últimas décadas. Os leitos secos do lago são fontes abundantes de poeira atmosférica porque são preenchidos com sedimentos leves e de grão fino que os ventos podem facilmente levantar.

O Mar de Aral está encolhendo desde os anos 1960, quando ocupava 68 mil quilômetros quadrados de área (mais do que os territórios do Rio de Janeiro e de Sergipe somados). Nessa época, a antiga União Soviética empreendeu um grande projeto de desenvolvimento da agricultura nas planícies áridas das atuais repúblicas do Cazaquistão e do Uzbequistão e, para isso, desviou a água dos rios que alimentavam o lago, o Syr Darya e o Amu Darya. À medida que o lago secava, o escoamento dos rios enriquecia a água cada vez mais salgada com fertilizantes e pesticidas. Como resultado, a poeira salgada que sopra do leito do lago exposto apresenta riscos à saúde pública e pode degradar a fertilidade dos solos na área circundante.

Trabalhando desde os anos 1990, o Cazaquistão conseguiu deter o processo de secagem do lago na parte norte, abastecida pelo Syr Darya, e ali o Aral ainda resiste. Um passo decisivo para isso parece ter sido a construção do dique Kokaral, de 13 quilômetros de comprimento, que separou as partes norte e sul do Aral. O dique reduziu a salinidade das águas, permitindo que algumas espécies de peixes locais voltassem a habitar o lado cazaque do lago.

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A agonia do Aral entre 2000 e 2018. Crédito: Nasa/GSFC/Diminishing Sea
Prospecção de petróleo

Já na parte meridional, o Amu Darya, desviado para o cultivo de algodão pelo governo uzbeque, não chega mais ao lago, cada vez mais seco. Antes um importante centro de pesca, a região hoje é fortemente poluída e assolada pela poeira, no que é considerado um dos piores desastres ambientais do planeta. O Uzbequistão não vê o quadro tão feio assim: pretende prospectar petróleo no leito seco do Aral.

Os cientistas usam satélites para rastrear quando e onde os ventos transportam mais poeira. Uma análise de quase uma década de dados do satélite Aura, da Nasa, descobriu que o transporte de poeira do Mar de Aral atinge o pico na primavera (março-maio) e no início do inverno (novembro-janeiro). Na primavera, os ventos do nordeste e do sudoeste costumam prevalecer, com 42% das nuvens de poeira soprando para o norte, 32% para o sul e 26% para o oeste.

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