Arqueologia renovada

Recursos de ponta da tecnologia, que vão de drones e robôs a análises de DNA, estão transformando profundamente os estudos arqueológicos

Recriação virtual de Jerusalém na época do Novo Testamento: a tecnologia está ampliando o leque para a pesquisa arqueológica (Foto: T. Halverson/BYU)

Além de pás e picaretas, o kit de exploração dos arqueólogos modernos inclui cada vez mais ferramentas de alta tecnologia. A lista abrange, por exemplo, drones, robôs, scanners 3D, mapeamento a laser, imagens de satélites, GPS, radar de penetração no solo, tablets, smartphones e sequenciamento genético. Com esse arsenal high tech, o trabalho dos especialistas em desenterrar o passado para jogar luz na história da humanidade tornou-se mais eficiente, rápido e preciso. Também ajudou a realizar descobertas que de outra forma seriam muito difíceis ou impossíveis, como achar grandes construções enterradas, criar mapas 3D de ruínas de antigas civilizações, explorar navios naufragados há séculos e definir de que doenças sofriam pessoas que viveram há milhares de anos.

Historicamente, a arqueologia sempre foi uma área de estudos bastante interdisciplinar. Ao longo do tempo, ela soube se valer de tecnologias desenvolvidas a partir de pesquisas de outras ciên­cias, como biologia, química, física e engenharia. Isso começou a ficar mais claro a partir da década de 1940, quando os arqueólogos estiveram entre os primeiros cientistas a usar a tecnologia então surgida de datação de corpos e objetos por radiocarbono ou carbono-14. O mesmo ocorreu nos anos 1960, quando foram criadas as técnicas de sensoriamento remoto. “Novas tecnologias dão uma qualidade muito maior no registro das descobertas e um potencial interpretativo exponencialmente superior”, diz o arqueólogo brasileiro André Strauss, atualmente na Universidade de Tübingen, na Alemanha.

Ele próprio trabalha com várias dessas técnicas novas. Um exemplo é o projeto de escavação do sítio arqueológico Lapa do Santo, uma caverna situada em um maciço calcário em Matosinhos, a 60 km de Belo Horizonte. Ele fica na região de Lagoa Santa, onde foi descoberto o fóssil humano mais antigo das Américas, chamado hoje de Luzia, com cerca de 11 mil anos. “Em Lapa do Santo demos uma grande ênfase no uso de novas tecnologias de documentação, em especial na geração de modelos tridimensionais dos sepultamentos humanos”, diz Strauss. “Usamos drone, GPS e outras tecnologias, além de fazermos impressões 3D dos ossos encontrados.”

Cópias virtuais

Essa técnica faz parte da chamada arqueologia virtual – a produção de modelos tridimensionais de artefatos ou esqueletos. O processo é denominado virtualização de acervos. Ou seja, cria-se uma “cópia” virtual do material, a partir da qual é possível fazer análises em ambiente 3D, sem risco de danificar o objeto real. Exemplos incluem o estudo da morfologia dos ossos, análise de marcas de corte, remoção de deformação plástica gerada pela passagem do tempo e estudo de estruturas anatômicas internas. Outro exemplo é a virtualização durante as escavações. “No caso da Lapa do Santo, temos interesse especial nos sepultamentos humanos”, diz Strauss. “Desde 2011, geramos um modelo 3D antes de retirar cada um dos que encontramos do sítio. É um nível de detalhe muito grande.”

Acima e abaixo, trabalho em Lapa do Santo: exemplo do estudo de fósseis com ferramentas avançadas (Fotos: USP)

Muitos desses modelos vir­tuais podem ser “impressos” numa impressora 3D. Foi isso o que Strauss fez com o crânio do caso de decapitação mais antigo da América, para posterior reconstrução facial. Ele tem cerca de 9 mil anos de idade e foi encontrado um metro debaixo da terra. Portanto, tinha sofrido deformações. “Utilizando tomografias médicas, gerei um modelo virtual dele”, conta. “A partir desse modelo, apliquei uma série de algoritmos geométricos que permitiram remover a deformação. Com o modelo ‘corrigido’, fizemos a impressão do crânio e a enviamos para uma especialista em reconstrução facial forense. Foi um trabalho interdisciplinar.”

Para Strauss, o “sequenciamento genético de nova geração” é a mais revolucionária das novas tecnologias. Basicamente, ela torna possível a extração de DNA de ossos antigos. “O campo da arquegenômica permite responder a uma série de perguntas que antes seriam impensáveis”, diz. “As análises do DNA antigo (aDNA) podem identificar a contribuição de diferentes componentes genéticos em populações pré-coloniais, a relação delas com as demais e testar se um dado povo moderno é equidistante a cada indivíduo pré-colonial.”

Saúde revelada

Outra técnica utilizada para povos antigos é a análise de proteínas, feita a partir de tecidos retirados de múmias. Com ela se descobriu, por exemplo, quais doenças afetavam populações incas que viveram há 3 mil anos no Peru. Analisar os isótopos (átomos de um mesmo elemento químico que têm quantidade igual de prótons no núcleo e diferente de nêutrons) em ossos de povos ancestrais revela o que comiam. Tomografias computadorizadas, por sua vez, foram utilizadas na múmia de uma antiga princesa egípcia de 3.500 anos e revelaram que, quando viva, ela possuía artérias obstruídas.

Imagens obtidas do alto podem revelar estruturas antigas não perceptíveis no nível do solo, como em Angkor (acima) e Banteay (abaixo), no Camboja (Fotos: Divulgação)

Técnica semelhante, usada para fazer um escaneamento tridimensional de alta resolução na tumba do faraó Tutancâmon, que reinou no Egito entre 1336 e 1327 a.C., levou à descoberta de duas passagens para duas câmaras até então desconhecidas. Depois do achado, o governo do país autorizou, em 2015, o uso de radar de penetração no túmulo no Vale dos Reis. O mesmo tipo de equipamento que será usado na tumba permitiu a descoberta, em setembro de 2015, de um grande monumento de pedra enterrado a menos de 3 km de Stonehenge, no Reino Unido, com mais de 90 rochas enfileiradas, algumas com até 4,5 metros de altura.

A revolução na arqueologia passa também pelos satélites e drones (os quais podem ser equipados com vários tipos de sensores e câmeras), assim como o LiDAR, do inglês Light Detection And Ranging. Esse último é um equipamento parecido a um sonar, mas que usa luz em vez de som para gerar informações espaciais. Montado em helicópteros, pequenos aviões ou drones, o dispositivo emite pulsos de laser que rebatem no solo e voltam para ele. Verificando o tempo que cada um leva para voltar, o LiDAR calcula a distância até os objetos e gera um mapa topográfico do sítio, mesmo se oculto sob a copa fechada das árvores. Graça a ele, cientistas encontraram cidades perdidas, como a “Cidade Branca”, na região de Mosquitia, em Honduras.


Parentesco confirmado

Uma fração do genoma de europeus e asiáticos provém dos neandertais (Foto: iStockphotos)

O arqueólogo Lucas Henriques Viscardi, do Departamento de Genética do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que usa o sequenciamento de DNA antigo para compreender a evolução de populações humanas sobre as quais não há registro histórico, dá um exemplo de o que se pode obter com essa tecnologia: a comprovação de que neandertais e humanos conviveram e se miscigenaram no passado. Por décadas, lembra ele, arqueólogos, antropólogos e biólogos debateram sobre a convivência e miscigenação dessas espécies.

O debate ocorria mesmo não havendo, até recentemente, provas confiáveis de que ambos teriam tido algo além de uma relação de estranhamento e conflitos. Não havia tampouco provas do contrário. Arqueólogos já haviam achado artefatos relacionados às duas espécies em um mesmo sítio. “Na mesma direção, antropólogos e biólogos apontavam alguns indivíduos que apresentavam morfologia intermediária entre as duas espécies, mas tal cenário de convivência pacífica não recebia muito crédito no meio acadêmico”, observa Viscardi. “Com a realização do sequenciamento do genoma do neandertal foi possível descobrir que europeus e asiáticos atuais compartilham de 1% a 4% do seu genoma com eles, o que demonstra nossa história de convívio com esse grupo.”

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