As cidades estão tornando os mamíferos maiores

Embora a princípio os ambientes urbanos pareçam ser hostis a muitos animais, não foi isso o que pesquisadores constataram – e a disponibilidade de alimentos teria um papel nisso

Coiote examina uma rua em Southlake, no Texas (EUA). As espécies que se adaptam facilmente às áreas metropolitanas podem ter uma vantagem sobre suas contrapartes rurais conforme a urbanização aumenta, disse o pesquisador Robert Guralnick. Crédito: Texaseagle, CC BY-NC 2.0

Um estudo do Museu de História Natural da Flórida (EUA) mostra que a urbanização está fazendo com que muitas espécies de mamíferos cresçam. A suspeita maior para explicar isso reside na disponibilidade de alimentos em locais repletos de gente. Os resultados da pesquisa foram publicados na revista Communications Biology.

A descoberta vai contra a hipótese de muitos cientistas de que as cidades levariam os mamíferos a ficar menores com o tempo. Edifícios e estradas capturam e reemitem um grau maior de calor do que paisagens verdes. Isso faz com que as cidades tenham temperaturas mais altas do que seus arredores, um fenômeno conhecido como efeito de ilha de calor urbana. Segundo um princípio biológico clássico chamado Regra de Bergmann, animais em climas mais quentes tendem a ser menores do que a mesma espécie em ambientes mais frios.

No entanto, os pesquisadores do Museu de História Natural da Flórida descobriram um padrão inesperado quando analisaram cerca de 140.500 medidas de comprimento e massa do corpo de mais de 100 espécies de mamíferos norte-americanos coletadas ao longo de 80 anos. Os mamíferos que vivem em ambiente urbano são mais compridos e mais robustos do que seus equivalentes rurais.

Tendência mais forte

“Em teoria, os animais nas cidades deveriam estar diminuindo por causa dos efeitos das ilhas de calor, mas não encontramos evidências de que isso aconteça em mamíferos”, disse a autora principal do estudo, Maggie Hantak, pesquisadora de pós-doutorado do Museu da Flórida. “Este artigo é um bom argumento para explicar por que não podemos presumir que a Regra de Bergmann ou o clima por si só sejam importantes para determinar o tamanho dos animais.”

Hantak e seus colaboradores criaram um modelo que examinou como o clima e a densidade das pessoas que vivem em uma determinada área – uma variável para a urbanização – influenciam o tamanho dos mamíferos. Conforme as temperaturas caíam, o comprimento e a massa do corpo aumentavam na maioria das espécies de mamíferos estudadas, uma evidência da Regra de Bergmann em ação. Mas a tendência foi mais forte em áreas com mais pessoas.

Animais capazes de alternar entre a atividade diurna e a noturna, como o texugo americano, parecem ter uma vantagem nas áreas urbanas, possivelmente porque podem buscar alimento em horários favoráveis, disseram os pesquisadores. Crédito: Tom Koerner/US Fish and Wildlife
Perturbação da paisagem natural

Surpreendentemente, os mamíferos nas cidades geralmente cresceram independentemente da temperatura. Isso sugere que a urbanização rivaliza ou excede o clima em relação ao tamanho do corpo dos mamíferos, disse Robert Guralnick, curador de informática da biodiversidade do Museu da Flórida.

“Não era isso que esperávamos encontrar”, disse ele. “Mas a urbanização representa essa nova perturbação da paisagem natural que não existia há milhares de anos. É importante reconhecer que ela está tendo um grande impacto.”

Cerca de uma década atrás, os cientistas começaram a observar que as temperaturas mais altas provocadas pela mudança climática estavam fazendo com que muitas espécies animais diminuíssem ao longo do tempo. Embora muitas das consequências da mudança no tamanho do corpo sejam desconhecidas, os pesquisadores alertaram que animais menores podem ter proles menores ou descendentes de tamanho menor, criando um ciclo de feedback. O encolhimento das presas também pode pressionar os comedores de carne a encontrar mais recursos.

Ingrediente adicional

Guralnick e Hantak disseram que esperam que suas descobertas levem mais pesquisadores a adicionar a urbanização às suas análises de mudanças no tamanho do corpo.

“Quando pensamos sobre o que vai acontecer com o tamanho do corpo dos mamíferos nos próximos 100 anos, muitas pessoas consideram isso como o aquecimento global fazendo com que os animais fiquem menores”, disse Guralnick. “E se esse não for o maior efeito? E se for que a urbanização vai levar a mamíferos mais gordos?”

O pequeno roedor Perognathus flavus é uma espécie que usa o torpor, uma forma de desacelerar temporariamente seu metabolismo e diminuir a temperatura corporal. Embora os pesquisadores esperassem que essas espécies fossem protegidas dos efeitos do aquecimento das temperaturas, elas eram mais sensíveis. Crédito: R. Russell Beatson, CC BY-SA 2.0
Respostas diferentes

Nem todos os animais respondem às mudanças ambientais induzidas pelo homem da mesma maneira, acrescentou Hantak. Os pesquisadores também investigaram como os efeitos do clima e da urbanização podem ser moderados ou amplificados pelo comportamento e hábitos de certas espécies.

Eles descobriram que animais que usam hibernação ou torpor, uma forma temporária de desacelerar a taxa metabólica e diminuir a temperatura corporal, encolheram mais dramaticamente em resposta aos aumentos de temperatura do que animais sem essas características. A descoberta pode ter implicações importantes para os esforços de conservação, disse Hantak.

“Pensamos que as espécies que usam torpor ou hibernação seriam capazes de se esconder dos efeitos de temperaturas desfavoráveis, mas parece que elas são realmente mais sensíveis”, disse ela.

Oportunidades e ameaças

Enquanto transformam radicalmente a paisagem, as cidades fornecem aos animais novas oportunidades e ameaças, disse Guralnick. A abundância de comida, água e abrigo e a relativa falta de predadores nas cidades podem ajudar certas espécies a ter sucesso em comparação com seus vizinhos nas áreas rurais. Os resultados do Censo dos EUA de 2020 mostram que quase todo o crescimento da população humana na última década ocorreu nas áreas metropolitanas do país. À medida que a urbanização aumenta, os animais podem ser divididos em “vencedores e perdedores”, e a distribuição dos mamíferos pode mudar, disse ele.

“Animais que gostam de viver em ambientes urbanos podem ter uma vantagem seletiva, enquanto outras espécies podem perder por causa da fragmentação contínua das paisagens”, disse Guralnick. “Isso é relevante para a forma como pensamos sobre o gerenciamento de áreas suburbanas e urbanas e nossas áreas selvagens em 100 anos.”

Musaranhos da coleção de mamíferos do Museu da Flórida. Os pesquisadores podem usar dados históricos de espécimes para rastrear como os animais mudam ao longo do tempo à medida que os humanos modificam o ambiente. Crédito: Natalie van Hoose
Consequências a ser determinadas

Maior significa muitas vezes melhor biologicamente, mas as consequências de longo prazo para os mamíferos urbanos de comer uma dieta de resíduos alimentares humanos ainda precisam ser determinadas, disse Hantak. “Quando você muda de tamanho, pode mudar todo o seu estilo de vida”, disse ela.

Hantak e seus colaboradores puderam conduzir o estudo graças a milhares de medições coletadas por historiadores da natureza no campo e em museus. A equipe de pesquisa usou informações de três bancos de dados: VertNet, National Ecological Observatory Network (Neon) da National Science Foundation e o Censo Norte-Americano de Pequenos Mamíferos (NASCM). Cumulativamente, esses dados oferecem uma visão ampla de como a crescente urbanização está afetando mamíferos com histórias de vida muito diferentes, de lobos, linces e veados a morcegos, musaranhos e roedores, disse Guralnick.

“As coleções de museus têm o poder de nos contar histórias sobre o mundo natural”, disse ele. “Como temos essas coleções, podemos fazer perguntas sobre como eram os mamíferos antes de os humanos dominarem a paisagem. A digitalização de dados de espécimes desbloqueia esses recursos para que todos possam fazer descobertas sobre nosso planeta.”

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