As lições da Ilha de Páscoa para os astronautas que viverem em Marte

Comunidades antigas da Ilha de Páscoa oferecem ideias para uma vida bem-sucedida no isolamento

Ilha de Páscoa: um dos locais habitados mais remotos da Terra. Crédito: Piqsels

Após uma longa jornada, um grupo de colonos põe os pés em um terreno virgem. Uma vasta extensão os separa de outros seres humanos, cortando qualquer possibilidade de contato externo. Suas escolhas farão a diferença entre a sobrevivência e a morte.

O povo da Ilha de Páscoa pode ter algo a ensinar aos futuros colonos marcianos.

Os antropólogos Carl Lipo e Robert DiNapoli, da Universidade de Binghamton (EUA), exploram como padrões complexos de comunidade em Rapa Nui (o nome indígena para a ilha e seu povo) ajudaram a ilha isolada a sobreviver desde seu assentamento no século 12 ao 13 até o contato com os europeus.

Suas descobertas foram publicadas recentemente na revista PLOS ONE. Os coautores incluem Mark Madsen, do Departamento de Antropologia da Universidade de Washington, e Terry Hunt, do Honors College e da Escola de Antropologia da Universidade do Arizona (EUA).

Lugar remoto

“O legal da Ilha de Páscoa é que é um ótimo estudo de caso para o que acontece em isolamento absoluto”, disse Lipo, professor de antropologia e estudos ambientais e reitor associado do Harpur College. “Pelo que entendemos, uma vez que as pessoas chegaram à ilha, era isso. Elas não iam a nenhum outro lugar e não havia mais ninguém entrando.”

Com a forma de um triângulo, a Ilha de Páscoa é pequena: cerca de 24 quilômetros de comprimento e um pouco mais de 11 quilômetros de largura em seu ponto mais largo. É também um dos lugares habitados mais remotos da Terra, a mais de 1.600 quilômetros de distância das ilhas vizinhas habitadas mais próximas.

Mas, apesar de seu pequeno tamanho, Rapa Nui tinha vários clãs e pequenas comunidades que mantinham a separação cultural e física. As evidências arqueológicas mostram diferenças estilísticas na criação de artefatos em comunidades a apenas 500 metros de distância, por exemplo. Os restos mortais dos habitantes também mostram que eles não se afastavam nem se casavam fora de casa; isso foi descoberto por meio de análises de DNA e isótopos, bem como por variações esqueléticas entre comunidades.

Essas pequenas comunidades podem ter sido um baluarte cultural contra um fenômeno conhecido como deriva aleatória, de acordo com suas pesquisas.

Desafios do isolamento

Ideia que se origina na genética, a deriva aleatória explora o aparecimento de características em uma população ao longo do tempo e como elas podem mudar. Isso também se aplica a traços culturais, desde palavras e costumes específicos até formas de fazer cerâmica.

Algumas características são transmitidas às gerações futuras. Outras não são e posteriormente desaparecem. Novos traços, práticas ou modas emergem – decoração de cerâmica, maneiras de fazer pontas de flecha, estilos de roupas ou gíria – e persistem ou se desvanecem com o tempo, também.

“Essas coisas estão mudando potencialmente com o tempo por causa das diferenças em como as pessoas estão copiando umas às outras”, disse DiNapoli, pesquisador associado de pós-doutorado em antropologia.

Embora as mudanças na estética possam não ter um impacto significativo na viabilidade de uma cultura, outras mudanças podem. Se uma população for pequena e isolada o suficiente, tecnologias importantes e estratégias de sobrevivência podem se perder irrevogavelmente.

‘Ilhas misteriosas’

“Digamos que meu pai morreu antes de poder me ensinar alguma tecnologia importante e ele era a única pessoa que sabia como fazer isso”, disse DiNapoli. “Isso pode ter um impacto negativo em uma população pequena e isolada, onde eles nunca interagirão com outro grupo de pessoas que pode lhes dar essas ideias de volta.”

Os pesquisadores acreditam que foi o que aconteceu na Tasmânia, onde os indígenas perderam técnicas como a pesca praticada por populações vizinhas no continente australiano. Embora essas tecnologias perdidas possam ter se mostrado benéficas para a sobrevivência, elas desapareceram porque não havia gente suficiente para transmiti-las e nenhum contato com estranhos que poderiam ter reintroduzido essas ideias, acreditam os especialistas.

Há evidências de que o isolamento pode ter levado ao desaparecimento de populações nas chamadas “ilhas misteriosas” do Oceano Pacífico. Os registros arqueológicos mostram que os habitantes anteriores abandonaram essas ilhas ou foram extintos na época em que a interação com outras ilhas diminuiu.

“Uma hipótese é que como esses lugares estão ficando realmente isolados, fica muito difícil morar lá, por qualquer motivo”, explicou Lipo.

Estrutura populacional

Nos últimos anos, os pesquisadores construíram diferentes tipos de modelos para mostrar quais fatores impulsionam as mudanças na diversidade dos traços culturais ao longo do tempo, explicou DiNapoli. Um fator importante é a demografia: o número de pessoas na população trocando ideias entre si. Mas a estrutura dessa população também é importante.

Embora possa parecer contraintuitivo, grandes populações onde todos interagem uns com os outros podem experimentar uma mudança cultural mais forte, disse DiNapoli. “Ao passo que se você tiver muitas subpopulações pequenas diferentes, acaba mantendo mais diversidade, porque ela está separada nesses subgrupos diferentes”, disse ele.

As populações tradicionais tendem a ser extremamente conservadoras e evitar mudanças, a menos que haja um bom motivo para isso. Afinal, tomar decisões erradas pode ter consequências terríveis.

“Você realmente quer se agarrar a algo que funcione”, disse Lipo. “Se você decidiu arriscar, plantar safras aleatoriamente em outro lugar e não deu certo, o jogo acabou.”

A Ilha de Páscoa costuma ser vista como um lugar onde as pessoas tomaram decisões irracionais que levaram à sua própria morte, como cortar todas as árvores para construir estátuas gigantes. Isso acabou não acontecendo.

Maneiras de interagir

No contato com os europeus, Rapa Nui tinha uma população total estimada de 3 mil a 4 mil indivíduos, dividida em um número desconhecido de clãs e comunidades. A maioria dessas comunidades era provavelmente do tamanho de famílias grandes – talvez várias dezenas de indivíduos, vivendo em um espaço que se estendia por várias centenas de metros.

Usando modelagem por computador, Lipo e DiNapoli exploraram o impacto dos padrões espaciais distintos da ilha na retenção de informações culturais. Em seu modelo, eles localizaram comunidades ao redor dos ahus, ou grandes plataformas que eram um centro de atividades cerimoniais. Eles então configuraram as maneiras como essas comunidades poderiam interagir e o que afetaria essas interações na persistência de diversos traços culturais.

O que eles descobriram é que quanto maior o número de subgrupos com interação limitada, maior a probabilidade de uma população reter informações culturais potencialmente benéficas – mesmo quando a população total é muito pequena.

“Com base em modelos de simulação, parece que a estrutura da população é superimportante para impulsionar e reter mudanças na diversidade cultural”, disse DiNapoli. “Isso poderia ser um fator realmente importante para a mudança na história humana em geral.”

Hoje e amanhã

Após o contato com os europeus, a doença atingiu o povo de Rapa Nui, que também foi capturado como escravos. Em 1877, a população da ilha caiu para apenas 111 indivíduos.

Como resultado, muito do conhecimento cultural do Rapa Nui foi perdido, incluindo a habilidade de interpretar o rongorongo, um sistema de glifos que pode ter registrado informações. Mas outras tradições sobrevivem, incluindo canções, danças, uma arte com cordas usada na narrativa oral – e a própria língua rapa nui, que ainda hoje é falada pelos ilhéus.

“Com certeza muito se perdeu, mas eles tinham esses mecanismos para valorizar as tradições orais e poder transmiti-las”, disse Lipo. “É uma sobrevivência incrível, apesar das probabilidades incríveis. Muito foi escrito sobre o lado negativo e acho que ainda não começamos a apreciar a engenhosidade das pessoas lá.”

Imagine outro grupo intrépido de exploradores, saindo em suas naves para uma nova colônia – a quase 97 milhões de quilômetros da Terra. Em Marte, esses futuros colonos estariam profundamente isolados. Eles teriam de resolver seus próprios problemas e garantir sua própria sobrevivência, incluindo a preservação dos conhecimentos e tecnologias necessários.

“Eles se tornam essa Ilha de Páscoa isolada no meio do espaço”, disse Lipo. “Qual estrutura espacial em Marte você precisaria para manter as informações ao máximo nessa comunidade?” As lições da Ilha de Páscoa podem ajudá-los a sobreviver.

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