As surfistas de Bangladesh

Num país de sociedade fechada e costumes rígidos, garotas encontram no surfe um meio de aliviar as difíceis condições socioeconômicas e ampliar seus horizontes de vida

Rashed observa absorto o mar e a arrebentação das altas ondas. A maresia das águas quentes do Oceano Índico domina o escritório do Life Saving and Surfing Club de Cox’s Bazar, pequena cidade turística de Bangladesh, perto da fronteira com Myanmar. É nesse remoto ângulo do mundo que o amor incondicional pelo surfe está fazendo pequenos milagres e mudando a vida de algumas pessoas. Rashed Alam, 27 anos, nascido e criado em Cox’s Bazar, conhece de cor cada esquina da cidade, cada centímetro daquela praia, cada obstrução que favorece a formação de ondas (break, em inglês) daquelas águas. São 120 quilômetros de ondas perfeitas para o surfe, nessa que é considerada a praia natural de areia mais extensa do mundo.

“Comecei a surfar com cerca de 18 anos”, diz Rashed enquanto – prancha sob o braço – caminha pela praia procurando uma boa onda. “Comprei minha primeira prancha com o pouco dinheiro que havia ganhado trabalhando, cerca de US$ 25. Aprendi a surfar sozinho, vendo no YouTube os vídeos dos grandes surfistas; como muitos garotos da minha idade, naquela época trabalhava na praia vendendo um pouco de tudo e fui me apaixonando pelo oceano e pela vida na praia. Quando peguei minha primeira onda, gritei de emoção e alegria; foi uma sensação indescritível.”

Bangladesh é um dos países mais pobres e populosos do mundo; pouco maior que o Amapá, tem 163 milhões de habitantes, 78% da população do Brasil. “Aqui a sociedade é muito fechada e o respeito às tradições comanda a vida de todos”, segue Rashed. “O surfe não é bem visto em Bangladesh. Muitos não sabem nem o que é e pensam que somos loucos quando nos veem correr felizes para o mar com nossas pranchas. Não é fácil fazê-los entender quão belo é surfar e como o surfe não é só um esporte e uma paixão, mas um verdadeiro estilo de vida.”

Apesar de todos os preconceitos e dificuldades, Rashed criou em 2015 o primeiro centro para salva-vidas e surfistas de Bangladesh: o Life Saving and Surfing Club de Cox’s Bazar. Nesse pequeno escritório na praia se encontram para praticar e treinar os futuros salva-vidas e surfistas do país. Está começando ali uma revolução através do esporte.

Arrimo de família

Chegar à casa das irmãs Rifa e Aisha exige caminhar cerca de meia hora por uma trilha estreita na floresta. Elas e a família vivem em um barraco de alumínio com chão de terra e apenas uma cama. Não há banheiro, água potável ou luz elétrica. Aisha, a mais nova, tem 10 anos. Assim como muitas meninas da sua idade na mesma situação socioeconômica em Cox’s Bazar, ela vende bijuteria na praia para manter a família – mãe e pai que não trabalham, um irmão e uma irmã mais novos.

Rifa, de 13 anos, também vendia bijuteria na praia, mas agora é “velha” para isso – pelos costumes locais, uma menina dessa idade que trabalhasse na praia seria vista como prostituta. Rashed me diz que Aisha ganha cerca de US$ 1,30 por dia. “Mas nos dias bons, quando há muitos turistas, consigo até US$ 10”, diz ela, orgulhosa. Todos os meses, Rashed, sua esposa Venessa Rude e seu clube dão às famílias de Aisha e Rifa e das outras meninas o equivalente a US$ 32 em alimentos.

“Quando estou no mar, surfando as ondas, me sinto verdadeiramente livre”, diz Suma, 14 anos, enquanto me mostra seu casebre feito de areia e barro na periferia de Cox’s Bazar. “Quando estou em casa, sinto saudade das ondas e do mar.” Para manter a família, ela vende na praia ovos que a mãe cozinha. Todos os dias, Rifa, Aisha, Suma e mais cinco meninas percorrem a pé as grandes distâncias que separam suas casas da praia de Cox’s Bazar. Seja qual for o tempo, essas garotas vêm todos os dias à praia, na esperança de surfar.

“Sempre via essas meninas na praia, caminhando por horas, vendendo objetos, comida, bijuteria, e me perguntava como poderia ajudá-las”, diz Rashed enquanto voltamos para a praia a bordo de um tuk-tuk (tipo de riquixá motorizado). “Então percebi que elas tinham curiosidade de ver o que eu fazia. Perguntei-lhes se queriam aprender a surfar, e a partir daí elas nunca mais se separaram da prancha!”

Dedicação integral

Desde janeiro de 2014, Rashed e Venessa, californiana de 36 anos, dos quais sete passados em Bangladesh, dedicam-se totalmente a essas oito garotas. “Pouco a pouco criamos esse pequeno grupo de meninas que amam o surfe e o mar; ajudamos suas famílias economicamente e ao mesmo tempo tentamos ampliar seus horizontes, através do surfe e ensinando-lhes inglês”, diz Rashed enquanto vamos com as garotas almoçar em um pequeno restaurante, usado depois para as aulas de inglês que Venessa dá a elas todos os dias.

Em um país onde, segundo a ONU, apenas 40% das meninas chegam ao ensino médio e quase 5 milhões de crianças entre 5 e 15 anos estão envolvidas em trabalho infantil, o Life Saving and Surfing Club oferece uma oportunidade real e válida para poderem se emancipar e sair da miséria por meio do surfe e do inglês.

Já na praia após a aula de inglês, as meninas correm em direção às suas pranchas, ao lado da sede do clube. Em um piscar de olhos se trocam e correm para as ondas, gritando de alegria e mostrando uma para outra qual é o melhor break e onde entrar para pegá-lo. Rashed pega sua prancha e se joga na água com elas; em poucos segundos, passam a arrebentação, cheios de alegria e leveza. “Ver essas jovens surfarem me deixa feliz”, afirma Venessa sem tirar os olhos delas.

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