Ser criativo não é questão de genética, sorte ou mente privilegiada, diz o neurocientista americano Jonah Lehrer. Em seu mais recente livro, Imagine: How Creativity Works (Houghton Mifflin Harcourt), lançado em março de 2012 nos Estados Unidos, esse jovem (31 anos) colunista do The Wall Street Journal e articulista das revistas New Yorker e Wired, incensado pela habilidade em traduzir o jargão acadêmico para linguagem acessível aos leitores comuns, disseca cientificamente a criatividade e mostra que ela está ao alcance de qualquer pessoa. É só combinar bem os ingredientes certos.

“Sabemos hoje que a criatividade não é um dom especial privativo de alguns poucos felizardos”, diz o autor. “Trata-se de uma variedade de processos de pensamento distintos que todos podemos aprender a usar de modo mais efetivo.” A seguir, cinco dicas essenciais de Leher para os leitores darem vazão a todo o seu potencial criativo.

Post-it

O engenheiro químico americano Arthur Fry, da 3M, teve a ideia milionária do papel suavemente aderente em 1977, quando cantava no coral de sua igreja. Percebeu que os marcadores de página das partituras caíam constantemente.

1. Desconcerte-se

Estar desconcertado é um momento fundamental no processo criativo, pois implica um reconhecimento de que a situação não tem saída. É a frustração decorrente desse reconhecimento que pode conduzir ao vislumbre da solução. Segundo o autor, em diversos estudos de mapeamento do cérebro, os cientistas notaram que, quando a pessoa se defrontava com um problema, seu hemisfério esquerdo (a região habitualmente associada à resolução de problemas pelo método analítico) punha-se a trabalhar de imediato. Mas os problemas mais complicados desgastavam rapidamente o processo, deixando a pessoa frustrada e reclamando da dificuldade de solucionar o problema. Com a frustração, indicativa da necessidade de recorrer a um caminho alternativo para superar o desafio, os cientistas perceberam que a atividade mental transitava do hemisfério esquerdo para o direito, associado à criatividade. Com essa mudança, em diversos casos, as pessoas demonstraram experimentar momentos de insight, nos quais a resposta vinha a suas mente de súbito. Para os cientistas, a importância da frustração no processo é crucial.

Jonah Lehrer e seu best-seller de 2012

2. Insista e não desista

A frustração e o desconcerto constituem ingredientes indispensáveis na deflagração da criatividade, mas outras duas características também possuem grande relevância no desencadeamento desse processo: a perseverança e a paixão por metas de longo prazo. “Essas qualidades”, explica Jonah Lehrer, “englobam a determinação, e nenhum artista, nenhum escritor, nenhum inventor seria bem-sucedido sem ela. A determinação é a qualidade que força você a fazer sacrifícios por paixão, a trabalhar por longas horas ou a ficar treinando mesmo quando o treino não é divertido”. De acordo com o neurocientista americano, pesquisas revelaram que a determinação é um dos mais importantes indicadores de sucesso. A razão para isso, avalia Lehrer, não é difícil de imaginar: “Ninguém é suficientemente talentoso para não ter de trabalhar duro.”

3. Dê um tempo

Não é raro ver pessoas munidas de perseverança frustrarem-se com a falta de solução e continuarem nesse estado por tempo considerável. O que fazer? “Algumas vezes, fazer uma pausa, afastar-se e reconcentrar- se pode ajudar a atingir um estado mental mais criativo”, diz Lehrer. Segundo ele, pesquisas mostram que uma mente relaxada, na qual as ondas alfa aparecem aumentadas, tem mais possibilidade de vislumbrar respostas bloqueadas pela frustração. Para quem imagina que é difícil chegar a esse estado, Lehrer dá algumas sugestões simples apoiadas em estudos: tomar um bom banho ou assumir uma perspectiva mais positiva ajuda a aumentar a criatividade. “É por isso que tantas corporações bem-sucedidas – da 3M ao Google – têm adotado as pausas para a busca de projetos externos e novas ideias como uma parte crucial do trabalho diário”, afirma o autor.

4. “Expatrie-se”

Para explicar esse item, Lehrer lembra a atração que Paris exerce sobre os escritores. Em geral, esses artistas não elaboram ensaios e romances usando a cidade e seus moradores; em vez disso, usam a atmosfera do lugar como inspiração para obras passadas em seus países de origem. Segundo Lehrer, vários estudos mostram que a viagem expande a criatividade ao encorajar o viajante a pensar superando as fronteiras do próprio ego. “Até as pequenas coisas, como não saber se deve dar gorjeta a um garçom ou a forma de dizer ‘obrigado’ na língua local, estimulam a mente e fazem a pessoa observar mais aquilo que é externo a si própria e aquilo que ela já sabe”, diz o autor. Mas ninguém precisa ir a Paris para despertar a criatividade: “Acordar com um olhar novo e tornar-se um expatriado para seu problema específico pode ser tremendamente benéfico para resolvê-lo.”

5. Incorpore sua criança de 7 anos

Numa pesquisa realizada em 2010, Darya Zabelina e Michael Robinson, da Universidade Estadual de Dakota do Norte (EUA), reuniram centenas de universitários e os dividiram em dois grupos. O primeiro recebeu as seguintes instruções: “Você tem 7 anos, as aulas foram canceladas e você tem o dia inteiro para desfrutar. O que faria? Aonde você iria? Quem você veria?” A segunda turma recebeu as mesmas instruções, exceto a primeira frase, eliminada. Depois de escrever por dez minutos, os participantes receberam vários testes envolvendo criatividade, como sugerir utilidades para pneus velhos ou tijolos. Os integrantes do primeiro grupo se saíram bem melhor do que o do segundo, propondo praticamente o dobro de ideias criativas. Conclusão: “Temos apenas de fingir que somos criancinhas”, propõe Lehrer.

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